Bancos ganham com programas do BNDES

Ao repassar empréstimos do BNDES, bancos comerciais lucram com a taxa de intermediação e oferecem seus próprios produtos para as empresas

Alexandre Rodrigues / RIO, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Enquanto o governo estuda medidas de incentivo ao financiamento privado de longo prazo, os bancos comerciais ampliam seus ganhos como intermediadores de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Entre 2008 e 2009, as operações indiretas do BNDES tinha subido 20%. Já nos sete primeiros meses deste ano o volume emprestado pela instituição por meio de bancos comerciais chegou a R$ 50,09 bilhões, bem perto dos R$ 58 bilhões de todo o ano passado.

Mantido o ritmo, a alta pode chegar a 70% no fim do ano.

Entre janeiro e julho, quase três quartos dos R$ 72,6 bilhões desembolsados pelo BNDES passaram por bancos comerciais. No ano passado, quando o BNDES bateu recorde de R$ 137 bilhões em liberações, a modalidade indireta havia respondido por cerca de 40% do total. O crescimento vem do aquecimento da demanda por crédito provocada pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com taxas de juros mais baixas para incentivar investimentos.

Como não tem agências, o BNDES usa as redes dos bancos comerciais para chegar às empresas interessadas nas linhas de financiamento para máquinas e equipamentos (Finame), Finem (para projetos e ativos fixos), Exim (exportação) e no Cartão BNDES. Além de capilaridade, o BNDES ganha agilidade.

Já os bancos, além de lucrar com parte do spread das operações, agregam à sua cesta produtos de longo prazo com o caixa do BNDES. A participação do banco no total de empréstimos de mais de três anos para empresas no País era de 70% em junho. Essa concentração vinha caindo até a crise, mas teve novo impulso com a criação do PSI.

Pequenas empresas. O PSI ampliou o acesso das pequenas empresas ao crédito para investimento, elevando a participação do segmento nos desembolsos do BNDES de 17,5% para 36,17% este ano. Como a média das operações fica em torno de R$ 260 mil, os bancos viram a demanda por linhas do BNDES explodir.

"O crédito para máquinas e automotivos é o mais procurado. O PSI reduziu as taxas da casa de 12% a 14% para os atuais 5,5% ao ano, condições muito atraentes. Por isso o crescimento da demanda foi muito grande", conta Rodrigo Caramez, diretor de produtos de pessoa jurídica do HSBC. "Cerca de 40% dos nossos clientes são pequenas empresas, mas as grandes também usam as linhas do BNDES. Temos operações que vão de um novo balcão frigorífico de uma padaria à caldeira nova de uma usina de álcool." O HSBC não tinha atuação forte com o BNDES, mas a demanda motivou o esforço do banco para aumentar as operações. Nos sete primeiros meses deste ano, o HSBC intermediou quase R$ 1 bilhão do BNDES.

No topo da lista dos maiores repassadores, figuram Bradesco e Banco do Brasil. Este ano, cada um dos dois já ultrapassou R$ 10 bilhões em recursos contratados. Para alcançar os concorrentes, o Itaú Unibanco reorientou seu foco e já emprestou R$ 7,4 bilhões da instituição este ano.

No segmento de pequenas empresas, elevou em mais de 500% o volume de operações e acaba de adotar o Cartão BNDES..

"Os bancos adoram as operações do BNDES. É barato, fácil de vender e a inadimplência é muito baixa. Há bancos criando estruturas internas para se concentrar mais nas linhas do BNDES", conta o superintendente de Operações Indiretas do BNDES, Cláudio Bernardo Moraes.

Embora reconheça que o negócio é vantajoso para os bancos, o diretor de empréstimos e financiamentos do Bradesco, Osmar Roncolato Pinho, diz que o principal ganho é na fidelização do cliente. "O diferencial das taxas do BNDES é muito grande. O cliente que faz uma operação, acaba trazendo para a agência outras demandas, como folha de pagamento e crédito para giro."

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