Bancos já assumem perda de US$ 1 tri

Prejuízos nas instituições de países ricos provocaram pelo menos 280 mil demissões no setor desde setembro

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Os bancos nos países ricos já sofreram prejuízos que superam US$ 1 trilhão desde a eclosão da pior crise financeira dos últimos 60 anos. Desde a quebra do Lehman Brothers em setembro, bancos como UBS, Credit Suisse, Dexia e Deutsche Bank foram obrigados a reconhecer suas perdas bilionárias e demitir milhares de pessoas. Os dados fazem parte de relatório confidencial preparado pela Comissão Europeia para orientar os 27 países membros sobre a crise. De acordo com o levantamento obtido pelo Estado, as perdas para os bancos americanos já somam US$ 738 bilhões, ante outros US$ 294 bilhões na Europa. Reestruturações ainda obrigaram os bancos a demitir 280 mil funcionários desde a eclosão da crise. Para a Associação de Funcionários dos Bancos Suíços, o número de demissões pode ultrapassar 300 mil ainda neste semestre. No bairro dos bancos de Genebra, uma das principais praças financeiras do mundo, funcionários de instituições admitem que o clima é de depressão. "Ninguém sabe quem será o próximo a ser demitido ou se voltará do fim de semana e será informado de que não tem mais trabalho", diz Jean-Claude Blaise, bancário que há 20 anos trabalha no mercado financeiro suíço. A UE admite em seu relatório que o Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a indicar que a perda potencial seria ainda o dobro do que já ocorreu. O que assusta os europeus é que as perdas em menos de um ano já ultrapassam a marca de US$ 1 trilhão. Para completar, os bancos europeus têm uma exposição de cerca de US$ 1,6 trilhão no mercado do Leste Europeu. Uma eventual quebra de economias como Hungria e Ucrânia pode fazer desmoronar parte do sistema financeiro europeu. Nos balanços de recursos dos bancos europeus, a Comissão indica que há cerca de 41 trilhões depositados. Mas as dívidas corporativas da Europa representam 95% do PIB da região. Nos EUA, a taxa é de 50%. Não por acaso, a Comissão Europeia teme que uma eventual nova onda de pacotes para salvar os bancos da região leve a um default (calote) nos governos nos próximos anos, realidade que era conhecida apenas nos países emergentes. Na Europa, o déficit público da Irlanda já chega a 12% do PIB, ante 10% no Reino Unido e Espanha. Enquanto isso, os prejuízos dos bancos estão se transformando em verdadeiras tragédias nacionais. Na Suíça, o volume de dinheiro retirado dos bancos por clientes já é equivalente a 50% do PIB do país. O UBS registrou perdas de US$ 17 bilhões em 2008, o maior tombo de uma empresa na história da Suíça. Na Alemanha, o CEO do Commerzbank, Martin Blessing, saiu em defesa da tese de que bancos não devem pagar bônus a seus executivos caso estejam dando prejuízos. "Uma empresa com prejuízos não pode ter espaço para distribuir bônus", diz. O Commerzbank recebeu 18,2 bilhões do governo para se manter. Em um ano, as ações dos maiores bancos do mundo já perderam em média 40% de seus valores, segundo o índice BKX Bank Index. Alguns, como o UBS, tiveram 70% de queda em suas ações. No Reino Unido, o Parlamento convocou os executivos dos bancos que foram socorridos. As revelações apontaram para um verdadeiro escândalo. O executivo Paul Moore reuniu em 2005 os chefes do HBOS em reunião secreta e os alertou: se o banco continuasse a se comportar como vinha fazendo, quebraria e geraria um caos no sistema financeiro. Seu alerta foi ignorado. Moore foi demitido por ter feito a advertência. Agora, a crise financeira mundial se transforma em escândalo político que pode custar caro ao primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown. O HBOS quebrou em meio à crise e foi salvo em 2008 pelo governo.FRASESJean-Claude BlaiseBancário suíço"Ninguém sabe se voltará do fim de semana e será informado que não tem mais trabalho"Martin BlessingPresidente do Commerzbank"Uma empresa com prejuízos não pode ter espaço para distribuir bônus"O tamanho do buracoAs principais estimativas de perdas dos bancos são trilionáriasEstimativas da RGE MonitorPerda de US$ 1,6 trilhão de US$ 12,37 trilhões de empréstimos não securitizados (por inadimplência em financiamentos de veículos, cartão de crédito, etc)Perda de US$ 2 trilhões de US$ 10,8 trilhões de empréstimos securitizados (títulos lastreados em hipotecas, empacotados e fatiados, por exemplo). As perdas se dão por causa da queda do preço de mercado do papel, que precisa ser registrado no balanço (marcação a mercado)Estimativa do Goldman SachsCerca de US$ 2 trilhõesEstimativa do Fundo Monetário InternacionalUS$ 2,2 trilhões

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