Bancos lemings?

Atualmente, o clamor do chamado "mercado" parece ser por mais governo, ou seja, demanda uma "overdose de governo" para combater uma crise que nasceu da combinação de ganância cega e pouco controle, consagrada na declaração de Henry Paulson Jr., que, ao tomar posse como secretário do Tesouro dos EUA, afirmou ter chegado a hora de eliminar o resto de regulação que ainda impedia o progresso do país. Dois aninhos atrás ou pouco mais! E, pregando no mesmo tom de Paulson, cansamos de ouvir um bando de gente com mantras do tipo "o governo precisa entender que o mercado sempre se regula" ou "o mercado é soberano e encontra saída para todas as crises, por si mesmo". Pois por ora, o que mais se ouve são notícias do tipo "mercado em pânico acha insuficiente pacote de US$ 1 trilhão", "bolsas caem por dúvida da eficácia do pacote de Obama", "mercado parado espera decisão do Congresso".Vamos falar sério: essa inversão de rumo não significa uma "virada filosófica" ou um "retorno ideológico" a Keynes, Marx ou a Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que a essa altura diria ao mercado: "Vocês querem bacalhau? Tomem bacalhau!" E, da mesma forma, o que existia antes dessa crise - uma demanda crescente por mais liberalidade nas regras e por redução de supervisão bancária - não coincidia, de verdade, com nenhuma corrente de pensamento que não fosse a do "maior lucro no menor tempo possível".É uma bobagem qualquer discussão para tentar adequar o "tamanho do governo" na economia usando argumentos científicos ou acadêmicos. Qualquer conclusão sobre isso terá a oposição do mercado ou sua total adesão, porque esse mercado leva em conta apenas a sua conveniência.Aliás, o mercado adora democratizar o acesso ao lucro, em tempos de fartura, e aos cofres do governo, em tempos de crise. Por seu turno, os governos gostam de agentes de mercado felizes, ganhando dinheiro, pagando impostos e financiando eleições. Mas gostam também quando arrogantes barões da indústria, do comércio e serviços - especialmente do setor financeiro - espremem-se com humildade nas antessalas do poder para implorar socorro.Mesmo Alan Greenspan, até setembro de 2008 louvado como um "deus liberal", teve de reconhecer, quando a crise passou a exalar seu mau cheiro inconfundível, que errara (feio, acrescente-se) por confiar na capacidade de autorregulação das instituições financeiras, mormente quando o Fed baixou os juros para 1% ao ano, taxa adequada ao pós-guerra, dada a desordem de então no concerto mundial de vencidos e vencedores. Mas sua repetição no século 21 foi a senha para que administradores, sem vínculo com o futuro das instituições onde apenas lutam por gordos bônus anuais - afinal, são "profissionais contratados" - abusassem de operações suicidas que provocaram essa derrapagem do sistema financeiro e da economia mundial. E passando pela morte de várias instituições financeiras.Nosso Banco Central (BC), ao contrário de seus congêneres do Hemisfério Norte, já vinha aplicando overdoses de supervisão ao sistema financeiro nacional, atitude que chegou a gerar reclamações nos períodos de calmaria e lucros fáceis, mas que foi louvada quando veio a crise. Mesmo no câmbio, setor que ameaçara deixar à sanha do "equilíbrio de mercado", até 2005, teve a lucidez (ou a sorte) de aproveitar a onda e formar reservas potentes, uma das opções para mitigar os efeitos da crise. Mesmo extinguindo setores internos de inteligência e controle cambial.Mas talvez o maior acerto (ou, de novo, a maior sorte) do nosso BC tenha sido a overdose de juros dos últimos anos: tão farta recompensa ao capital não estimulou nossos bancos a buscar alternativas de alto risco para rentabilizar capital. Está bem, o "sistema" até começou a financiar automóveis e eletrodomésticos em prazos arriscados, mais longos até que a vida do próprio bem financiado. Mas, por sorte (de novo), a própria crise abortou a tempo essa adesão parcial à nova propensão bancária (internacional) a agir de forma suicida, como fizeram neste século alguns bancos americanos, e como fazem, desde sempre, essa espécie de ratos, os lemings, nas tundras norueguesas. *Emilio Garofalo Filho, economista, consultor de empresas especializado em câmbio, foi diretor do Banco CentralO colunista Celso Ming está em férias.

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