Bancos mudam interlocução com o governo

Cenário: Leandro Modé

O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2012 | 03h07

A "surpresa" dos banqueiros com as declarações do presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal, ao final da reunião com o governo, 15 dias atrás, resultou na exclusão do executivo das negociações daqui para a frente. Negociações, aliás, que ainda não têm prazo para serem retomadas.

Na ocasião, Portugal levou ao governo cerca de 20 propostas do setor para permitir a redução do spread bancário - diferença entre a taxa de juros que os bancos pagam ao captar o dinheiro e a que cobram ao emprestá-lo para empresas e pessoas físicas. É uma agenda discutida há anos, que inclui, por exemplo, a redução dos impostos cobrados na intermediação financeira.

O encontro em si transcorreu em clima amistoso. O problema ocorreu na saída, quando Portugal, em conversa com os jornalistas, afirmou que a bola, a partir daquele momento, estava com o governo. Nem os banqueiros gostaram do tom.

Por isso, os bancos terão outros interlocutores a partir de agora. Dois deles já estão definidos, ambos vice-presidentes da Febraban: Julio de Araujo, vice-presidente do Bradesco, e Marcos Lisboa, diretor executivo do Itaú e secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda em parte do primeiro mandato do ex-presidente Lula.

Na avaliação dos banqueiros, a exclusão de Portugal das negociações contribuirá para diminuir a tensão. Espera-se, agora, que o governo convoque o setor para dar prosseguimento às discussões em cima da agenda apresentada.

Ao menos na forma, espera-se que o diálogo seja mais profícuo. No conteúdo, porém, divergências permanecem. Executivo ligado ao setor financeiro chama a atenção para supostas divergências no cálculo do spread em dois trabalhos recentes do Banco Central (BC). A autoridade monetária esclarece: em um, que mostrava o spread mais alto, só foi incluído o crédito livre. O outro englobou também o crédito direcionado, o que puxou o cálculo final para baixo.

Não deixa de ser curioso que o primeiro executivo independente contratado para comandar a Febraban seja alijado das negociações mais importantes dos últimos anos para o setor. Em outros momentos da história recente, os bancos também foram pressionados para reduzir juros e spreads. Mas a intensidade atual é inédita. Por enquanto, os bancos mantêm a confiança em Portugal, um profissional com vasta experiência em governos, que chegou a ser o número 3 do Fundo Monetário Internacional (FMI).

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