Bancos precisam de mais dinheiro

Mesmo antes de surgir na terça-feira o boato de que o Citigroup poderia ser dividido em partes para escorar suas finanças, uma mensagem desagradável atravessava o Congresso e a equipe de transição do presidente eleito Barack Obama: os bancos precisam de mais dinheiro do contribuinte. Tudo indica que eles precisam de muito mais dinheiro. Obama parece saber disso. Uma semana antes de assumir a presidência, ele faz lobby no Congresso para liberar a outra metade do fundo de resgate de US$ 700 bilhões. Os líderes democratas também parecem saber. Estão exigindo dos membros do partido que ajam rapidamente para liberar o dinheiro. E Ben S. Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), certamente sabe disso. Na terça-feira, argumentou propôs publicamente que um dos programas mais impopulares e detestados em Washington - o programa de resgate - precisa injetar mais centenas de bilhões de dólares do contribuinte nos mesmos bancos e instituições financeiras que já receberam dinheiro federal e provocaram boa parte da crise de crédito em primeiro lugar. O exemplo mais claro de como o sistema bancário precisa de ajuda ainda maior é o Citigroup. Apesar de já ter recebido US$ 45 bilhões do Tesouro, o banco enfrenta tamanha dificuldade financeira que está se dividindo em partes. Como muitos outros bancos, o Citi está descobrindo que as suas finanças continuam a se deteriorar conforme a economia segue enfraquecendo. Mesmo alguns dos críticos mais ferrenhos do programa de resgate reconhecem que as coisas muito provavelmente estariam piores sem ele, e que o pacote atingiu o seu objetivo mais importante, que era evitar o colapso total do sistema financeiro. Desde setembro, nenhum dos grandes bancos faliu e os mercados de crédito apresentaram certo degelo. Mas os analistas dizem que os problemas ainda são graves, apesar de menos aparentes. Os bancos receberam do Tesouro US$ 200 bilhões em capital novo desde o outono e emprestaram do Fed outras centenas de bilhões de dólares. Mas, enquanto isso, a economia caiu num agudo declínio nos últimos meses e a situação deve durar no mínimo até o meio do ano. Analistas da indústria estimam que o aumento do desemprego e do número de falências entre as empresas vai provocar outros US$ 500 bilhões a US$ 750 bilhões em perdas nos próximos meses. Isso poderia elevar o total de perdas provenientes da crise de crédito para US$ 1,5 trilhão a US$ 1,8 trilhão, duas vezes mais do que as estimativas iniciais. O Citigroup não está sozinho. JPMorgan Chase, Bank of America, Wells Fargo e a maioria dos outros grandes bancos acreditam em perdas imensas provocadas pela inadimplência dos consumidores em relação às suas hipotecas, cartões de crédito e financiamentos para a compra de automóveis. São esperadas ainda perdas relativas aos empréstimos emitidos para empreendedores imobiliários comerciais e pequenas empresas e aos acordos corporativos de aquisição extremamente alavancados. Bernanke advertiu que o governo provavelmente teria de injetar mais dinheiro nas instituições financeiras durante os próximos meses. "Pode ser que se torne necessário um maior número de injeções de capital e garantias para assegurar a estabilidade e a normalização dos mercados de crédito", disse em discurso feito à Escola Londrina de Economia. Bernanke, reconhecendo tacitamente a impopularidade do programa, disse que o público estava "compreensivelmente preocupado" a respeito da injeção de centenas de bilhões de dólares do contribuinte nas empresas financeiras - especialmente quando outras indústrias não estavam recebendo ajuda. Mas, insistiu ele, não havia escapatória. "Esse tratamento desigual, apesar de nada atraente, parece inevitável", disse. "Nosso sistema econômico sofre de uma dependência crítica em relação ao livre fluxo do crédito." Obama e sua equipe econômica garantiram ao Congresso que iriam utilizar uma parcela considerável do novo dinheiro proveniente do Programa de Alívio para Ativos Problemáticos (Tarp, em inglês) para ajudar os donos de casas próprias em dificuldades a refinanciar suas hipotecas e escapar da execução de suas dívidas. Isso representaria uma grande mudança em relação à administração Bush, que se recusou a usar o Tarp para reduzir a incidência das execuções hipotecárias. Lawrence H. Summers, escolhido por Obama para chefiar o Conselho Econômico da Casa Branca, garantiu por escrito aos legisladores democratas na segunda-feira que a administração usaria parte do dinheiro para isso. Mas Bernanke parece estar alertando Obama e os democratas que a maioria dos US$ 350 bilhões remanescentes - e possivelmente ainda mais - terão de ser empregados para sustentar os bancos para que voltem ao nível normal de empréstimos emitidos. Durante os primeiros três trimestres de 2008, os bancos conseguiram arrecadar capital suficiente para compensar suas perdas. Mas aquilo foi apenas um alívio temporário. "A arrecadação de capital finalmente chegou ao nível das perdas", disse Michael Zeltkevic, sócio da Oliver Wyman, uma firma de consultoria especializada na indústria financeira. "Isso não torna a situação melhor, mas pelo menos conseguimos alcançar as perdas." O novo maremoto de perdas advém da situação cada vez pior da economia e do aumento do desemprego. E os analistas dizem que ainda faltam muitos trimestres até que a crise chegue no seu ápice. Os reguladores exigem dos bancos que conservem uma considerável quantidade de capital como caução. Mas, dessa vez, os bancos enfrentam dificuldade para tapar os seus buracos cada vez mais profundos. São escassos os investidores particulares. Com exceção de um pequeno grupo de bancos saudáveis, banqueiros e analistas dizem que o governo pode ser o único investidor sobrevivente. "A maioria dos bancos vai manter uma atitude defensiva", disse Christopher Whalen, sócio e gerente da Institutional Risk Analytics. "Provavelmente não veremos a indústria expandir o seu balanço patrimonial total até 2010 ou 2011." A equipe econômica de Obama está planejando uma reforma ampla do programa para impor uma maior responsabilidade e mais restrições aos executivos das empresas que recebem dinheiro do governo. Os elaboradores de medidas também estão tentando reviver a ideia original por trás do Tarp: fazer com que o Tesouro compre das entidades financeiras os papéis lastreados por hipotecas. Henry M. Paulson Jr., o secretário do Tesouro, tinha abandonado a ideia, concluindo que seria mais eficiente injetar capital nos bancos por meio da compra de ações preferenciais. Bernanke deu vida nova à ideia, bem como a várias outras abordagens, no seu discurso em Londres. O mesmo fez Donald L. Kohn, vice-presidente do Federal Reserve, numa audiência realizada na terça-feira com o Comitê de Serviços Financeiros do Congresso. Ele sugeriu que o Tesouro comprasse diretamente os títulos indesejados, ou estabelecesse bancos especiais para fazê-lo. Alguns analistas, mesmo os que concordam que o governo precisa escorar o sistema bancário com mais dinheiro do contribuinte, demonstraram ceticismo em relação ao Tarp. Adam S. Posen, vice-diretor do Instituto Peterson de Economia Internacional, disse que a administração Bush estava certa ao injetar capital nos bancos, mas equivocada em não pressioná-los suficientemente para que resolvessem seus problemas e consertassem sua contabilidade. "O problema não é ter desperdiçado dinheiro", disse Posen. "O problema é que não impusemos aos bancos condições o bastante." *Edmund L. Andrews e Eric Dash escrevem para o The New York Times

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