Bancos querem adiar capitalização da Petrobrás

Temor de fracasso financeiro da operação causado por influência das eleições presidenciais e da crise mundial amplia pressões sobre a estatal

Kelly Lima / RIO, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

Depois de adiar a contragosto, de julho para setembro, sua capitalização, a Petrobrás se vê diante do desafio de evitar que a operação seja transferida para 2011. O primeiro adiamento ocorreu por causa da indefinição no valor do barril de petróleo utilizado na cessão onerosa da União. Agora, segundo fontes, os bancos que coordenam o projeto estariam pressionando por nova postergação, por causa do risco de fracasso financeiro na operação.

"É uma queda de braço. A Petrobrás pode chiar à vontade, mas nessa história quem vai dar a última palavra é o banco", analisou uma fonte próxima ao processo, avaliando que as instituições financeiras estão fortemente interessadas na operação. Estimativas de mercado apontam que a capitalização da Petrobrás deverá movimentar algo em torno de US$ 60 bilhões. "Alguns bancos devem até dar saltos enormes em rankings internacionais", avaliou a mesma fonte.

No pool de sete bancos contratados, tendo o Banco do Brasil como coordenador, estão os três principais brasileiros, Bradesco, Itaú e Santander, além dos internacionais Merril Lynch, Morgan Stanley e Citi. Outros dois internacionais, cuja ausência foi bastante sentida no pool, o Credit Suisse e UBS, estariam avaliando a possibilidade de participar.

O argumento nessa medição de forças, segundo três fontes do mercado consultadas pela Agência Estado, residiria na dificuldade de fazer a operação em prazo tão apertado e sob influência das eleições presidenciais. Além disso, dizem os analistas, há risco de os investidores estrangeiros não apresentarem o apetite esperado para o negócio, já que estão saindo de grandes capitalizações - especialmente na China -, além da crise mundial.

"Há ainda o agravante de a capitalização estar marcada para setembro e os dias para o road show internacional coincidirem com o fim das férias no Hemisfério Norte, período em que os investidores estão fora do mercado", disse um analista que acompanha de perto a negociação.

Segundo ele, o fator eleições pode desestimular investidores, à medida que eventualmente o candidato de oposição melhore nas pesquisas. "Nenhum banco quer ver esse processo fracassar." O menor interesse estrangeiro pode, por outro lado, beneficiar o governo em sua intenção de aumentar sua fatia na estatal.

Hoje a participação estrangeira na Petrobrás, de 37,6%, supera a da União, que tem 32,1%. Os ADRs (títulos negociados no exterior) somam 28,9%, contando papéis ordinários e preferenciais; as ações em mãos de estrangeiros na Bovespa compõem outros 8,7%. Mesmo contando os 7,7% da BNDESPar como participação federal, a fatia do governo sobe para 39,8% mas fica muito próxima do volume estrangeiro. Estão nos planos da União elevar a parcela do Estado em, pelo menos, 10 pontos porcentuais.

Do outro lado da mesa, pressionando para que a capitalização ocorra este ano, está a Petrobrás, que tem um plano de investimentos de US$ 224 bilhões até 2014, e precisa buscar no mercado (capitalização, financiamentos e captações) cerca de US$ 60 bilhões. Porém, a estatal terminou o primeiro trimestre com alavancagem de 32%, muito perto dos 35% de limite a que se impôs como garantia de manutenção do grau de investimento.

"Se não fizer a capitalização, a Petrobrás tem duas saídas: se endividar mais ou cortar investimentos", avaliou uma fonte, lembrando que, em caso de corte, os maiores riscos recairiam sobre as refinarias do Nordeste (Maranhão e Ceará), que juntas consumirão mais de US$ 20 bilhões até 2014. Nesse caso, o corte só poderia ser anunciado após as eleições, para não causar desgastes políticos. / COLABOROU: DANIELA MILANESE, DE LONDRES

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