Bancos suíços veem futuro em xeque

Julgamento de banqueiro nos Estados Unidos, que começa hoje, pode colocar em colapso o esquema de contas secretas no país

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2014 | 02h04

GENEBRA - Começa hoje o julgamento de um banqueiro suíço nos EUA acusado de ter ajudado milhares de clientes do UBS a evadir impostos e abrir contas na Suíça. No banco dos réus estará Raoul Weil, que foi presidente do departamento de gestão de fortunas e supervisionou o departamento externo do banco. Mas, para os bancos e autoridades suíças, o que estará sendo julgado é o próprio sistema financeiro do paraíso fiscal nos Alpes e o esquema de contas secretas.

Nos últimos anos, a Suíça tem sido alvo de uma forte pressão internacional para rever suas regras e fechar o que seria considerado como um "buraco negro" nas finanças internacionais. Agora, porém, o caso diante dos tribunais tem sido considerado pela imprensa suíça como "o julgamento mais importante" de sua história recente.

Os EUA indiciaram Weil, que comandava nada menos que 50 mil dos 83 mil funcionários do banco, em 2008. Segundo a Justiça, o departamento externo do banco tinha contas de cerca de 20 mil clientes americanos. Weil teria ajudado esse grupo de clientes e evitar pagar impostos nos EUA e transferido seus recursos para a Suíça.

Ele teria dado as ordens de transferência, mesmo sabendo que isso violarias as leis americanas. O indiciamento também apontou que Weil acumulava benefícios com a obtenção de clientes. Seu departamento gerou mais de US$ 200 milhões de lucros por ano e, segundo a acusação, Weil teria ajudado os clientes a dissimular o envio de dinheiro e esconder em suas declarações de renda posteriores.

Julgamento. Agora, cinco anos depois de seu indiciamento, o futuro de Weil e do próprio sistema de contas secretas passa a ser examinado. A acusação é de que, com sua gestão, cerca de 14 bilhões foram desviados do Fisco americano. A pena pode chegar a cinco anos de prisão. Mas, no tribunal, o banqueiro vai se declarar inocente. "Ele é inocente e vítima de seus colaboradores", declarou seu advogado, Aaron Marcu.

Na Suíça, o que está em jogo vai muito além dos anos de prisão de Weil. Em 2008, dois ex-presidentes da Suíça, Hans-Rudolf Merz e Eveline Widmer-Schlumpf, chegaram a escrever para Washington alertando que a ofensiva da Justiça ameaçava fazer o sistema bancário suíço entrar em colapso.

Weil já indicou que está com sérios problemas para encontrar testemunhas. Muitos ex-banqueiros temem viajar até os Estados Unidos, alegando que também pode ser presos pelo mesmo motivo.

Já a procuradoria americana conseguiu enfileirar uma série de ex-funcionários do UBS que, em troca de uma redução de suas penas, aceitaram colaborar e entregar nomes de clientes e de gestores do banco.

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