Bancos temem pesificação dos empréstimos

Os bancos da Argentina afirmam que a pesificação dos empréstimos representará um desastre para o setor. Executivos de bancos afirmam que o rombo, com a transformação das dívidas contraídas em dólares em pesos pelo antigo câmbio de 1 a 1, determinada pelo governo, seria de cerca de US$ 15 bilhões, nos próximos cinco anos. O governo diz que essa perda deverá ser compensada com o novo imposto às exportações de petróleo e derivados, também criado pelo pacote. Mas os bancos fazem outras contas.Segundo o economista Raúl Ochoa, cálculos mais conservadores feitos por outros banqueiros afirmam que a perda será de cerca de US$ 10 bilhões. "Mas se fizermos as contas com uma porcentagem de 25% sobre as exportações de petróleo e derivados (cinco pontos porcentuais a mais do que os 20% cogitados pelo governo), o montante arrecadado para repassar aos bancos seria de aproximadamente US$ 1 bilhão ao ano. O vermelho para os bancos seria, em cinco anos, de US$ 5 bilhões", afirma. A Associação de Bancos a Argentina diz que ainda não sabe qual vai ser o impacto exato da pesificação.Com a pesificação, os valores antes expressos em dólares são transformados em pesos, pelo câmbio antigo de 1 para 1. Seriam pesificados os empréstimos hipotecários de até US$ 100 mil e os para reforma de moradia até US$ 30 mil. Para as dívidas contraídas para a compra de carros, o limite seria de US$ 15 mil. E os empréstimos pessoais seriam pesificados até, no máximo, US$ 10 mil.O economista Federico Poli vai além e faz um prognóstico ainda pior. "Não se sabe nem se o ?curralzinho? será suficiente para sustentar o sistema bancário, que já estava muito abalado". No ano passado, saíram cerca de US$ 18 bilhões das contas argentinas. Só com o aumento do limite de saque das contas-salário de mil para 1.500 pesos por mês, o sistema bancário pode perder 2 bilhões de pesos.Cartão de créditoA situação econômica ficou hoje ainda mais dificil para os consumidores e comerciantes argentinos. As administradoras de cartões de crédito decidiram suspender o sistema de parcelamento das compras na Argentina, por tempo indeterminado. Antes da pesificação dos saldos devedores das faturas de cartão, determinada pelo pacote econômico aprovado domingo pelo Congresso, todas as compras parceladas feitas em pesos no país eram transformadas automaticamente em dívidas em dólares. As administradoras alegam que as novas regras acarretam prejuízo. E dizem que implantar um sistema de parcelamento em pesos, com juros, ainda não é possível, porque não estão definidas as taxas que o mercado usará na nova realidade do peso desvalorizado.O vice-presidente da Coordenadoria de Atividades Mercantis e Empresariais (Came), Vicente Lourenzo, disse que a proibição de parcelamento vai afetar muito as vendas no país, principalmente no setor de bens de valor mais alto, como eletrodomésticos e móveis, porque os comerciantes não têm condições de oferecer um financiamento próprio. "E as pessoas que estavam trocando seus produtos eletrônicos por versões mais modernas e sofisticadas não vão fazer mais essas compras, o que vai provocar uma estagnação tecnológica na Argentina", afirmou o dirigente da entidade, que equivale à federação do comércio no Brasil.Segundo Lourenzo, as operações com cartão de crédito, que em 1997 chegaram a representar 70% do total de vendas no país, vêm diminuindo porque, com seus limites de crédito estourados devido à queda do poder aquisitivo, muitos argentinos já não podem mais usar seus cartões. Em junho do ano passado, as compras com cartão correspondiam a apenas 30% do total.Casas de câmbioO ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, afirmou que amanhã tanto bancos como casas de câmbio voltam a funcionar normalmente e passam a valer as novas regras para a movimentação das contas. Hoje foi publicado, no Diário Oficial, como será o resgate das aplicações retidas nos bancos desde 3 de dezembro. As medidas são as mesmas que a Agência Estado detalhou na quarta-feira à noite, mas elas não tinham sido ainda anunciadas oficialmente, junto com o aumento do limite dos saques de dinheiro, porque o governo tentou evitar que o impacto antipático da manutenção do confisco por um período tão longo - algumas aplicações só terminarão de ser devolvidas em agosto de 2005 - anulasse o efeito simpático do aumento do limite dos saques.O limite mensal para saque de dinheiro das contas-salário passou de mil para 1.500 pesos, que poderão ser retirados de uma só vez. Nas demais contas em pesos, tanto correntes como de poupança, o teto será de 300 por semana. Quem não extrair tudo o que é permitido ficará com crédito acumulado.Os argentinos que têm até 3 mil dólares em contas de poupança e até 10 mil dólares em contas correntes, em moeda americana, poderão transferir o dinheiro para uma conta corrente em pesos, pelo câmbio oficial de 1,40. Quem preferir sacar em dólares poderá retirar apenas 500 por mês. Para saldos maiores, tanto nas poupanças como nas contas correntes em dólares, valerão as regras de devolução dos investimentos a prazo fixo.Essas regras estabelecem que o resgate será feito em parcelas. Os investimentos em pesos serão recuperados entre março deste ano e novembro de 2004, dependendo dos saldos das aplicações. O dinheiro em dólares só começará a ser resgatado, na moeda norte-americana, em janeiro de 2003. Aplicações com mais de 30 mil dólares acabarão de ser devolvidas em agosto de 2005.Os argentinos que não quiserem esperar tanto tempo para reaver seu dinheiro poderão transferir a totalidade ou parte das aplicações para pagar a compra de bens como imóveis e carros. Quem receber o pagamento assim não poderá sacar o dinheiro antes do prazo determinado para aquele investimento.Leia o especial

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