Bancos tentam compensar perdas

Instituições querem repassar aos clientes as perdas com a nova legislação americana

Eric Dach, Nelson D. Schwartz, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Mal secou a tinta com a qual foram redigidas as novas normas que acabam de ser impostas a Wall Street, e os executivos do setor bancário já estão um passo à frente de todos os outros. Muito ou pouco, a ampla reformulação do sistema regulador do setor financeiro, aprovada pelo Congresso, afetará os lucros dos bancos.

Portanto, depois de gastar vários milhões de dólares em lobby contra a aprovação da nova legislação, os executivos agora estão recorrendo ao Plano B: adaptar-se às normas usando-as em proveito próprio.

Diante dos novos limites estabelecidos para as taxas cobradas aos cartões de crédito, por exemplo, o Bank of America e o Wells Fargo, além de outros, começaram a cobrar taxas sobre as contas correntes. Obrigados a negociar com derivativos à luz do dia em câmaras de compensação rigorosamente reguladas, e não mais em obscuros mercados de balcão, gigantes como o JP Morgan Investment Bank e o Goldman Sachs estão remontando suas operações de corretagem de derivativos. Seu objetivo é recuperar os lucros perdidos - e talvez ganhar ainda mais dinheiro do que antes - tornando-se corretores no vasto mercado desses instrumentos, que, segundo os críticos, foram uma das principais causas da crise financeira.

Repasse dos custos. No que se refere à principal dessas novas normas - que proíbe os bancos de fazerem apostas com o próprio dinheiro -, as instituições encontraram uma solução: permitir que alguns operadores continuem fazendo as apostas, desde que trabalhem também com os clientes. Os executivos admitem que pretendem repassar grande parte dos custos relativos à conta dessas mudanças aos clientes. A legislação, que deverá ser sancionada pelo presidente Barack Obama na semana que vem, pretende corrigir as causas da crise de 2008 e frear os comportamentos mais arriscados em Wall Street.

"Se você é um restaurante e não pode cobrar pelo refrigerante, cobrará mais pelo sanduíche", disse Jamie Dimon, presidente do conselho e diretor executivo do JP Morgan, depois de o banco informar um lucro de US$ 4,8 bilhões no segundo trimestre, na quinta-feira. "Com o tempo, tudo acabará sendo repassado nos negócios."

Queda nos lucros. A curto prazo, as mudanças impostas pela nova legislação e pelas outras recentes reformas poderão reduzir os lucros do setor bancário em até 11%, avaliam os analistas. No longo prazo, Wall Street conseguirá fechar, pelo menos em parte, o buraco fazendo o que melhor sabe fazer: inventando produtos beneficiando-se das novas regulamentações.

No Morgan Stanley, a direção será informada das novas estratégias sobre como adequar-se, quando se reunir na próxima semana. O Citigroup já se livrou das unidades de investimento mais arriscadas, proibidas pela lei, liberando dinheiro que destinará rapidamente para novas áreas. No JP Morgan, 90 equipes de projetos se reúnem diariamente para analisar as normas e reformular os negócios de acordo com a legislação.

"Estivemos nos preparando para isso como se fosse uma fusão", disse Dimon em uma recente entrevista. Segundo afirmou, as novas restrições impostas às taxas sobre os cartões de crédito e de débito, bem como aos derivativos, poderão custar ao banco várias centenas de milhões de dólares ao ano. Mas ele acrescentou que o banco encontrará novas fontes de receita para tapar o buraco.

Aumento de taxas. Há sinais de que isso já está acontecendo em todo o setor. As contas correntes que não precisavam ter um saldo mínimo, um dos principais instrumentos dos bancos na década passada, logo poderão seguir o caminho das torradeiras dadas de presente para as pessoas que abrirem novas contas. Os bancos já estão se movimentando para compensar as receitas que perderão com as taxas que cobravam por saques baixos e transações com cartões de débito, aumentando o valor das taxas sobre outros serviços.

Bancos como Wells Fargo, Regions Financial, do Alabama, e Fifth Third, de Ohio, por exemplo, cobram dos novos clientes uma taxa de manutenção mensal de US$ 2 a US$ 15 por mês - ou seja, até US$ 180 ao ano - para a maioria das contas básicas. O próprio TCF Financial, de Minnesota, cujo refrão de marketing é "contas totalmente isentas", começou a cobrar taxas antecipando-se às novas normas.

Entretanto, com a difusão das taxas sobre as contas correntes, na quarta-feira o Bank of America lançou uma conta isenta de taxa, e uma conta só com o essencial, na véspera da votação no Senado. Qual será a armadilha? Para evitar novos custos, os clientes precisam desistir de usar os caixas 24 horas das agências locais, usar apenas os caixas automáticos do Bank of America e optar por receber somente os extratos pela internet. "Haverá um aumento dessas ofertas", disse David Owen, executivo do Bank of America.

O Fifth Third, por exemplo, acrescentou serviços extras à sua conta corrente básica, como alertas de fraudes e descontos de corretagem, mas agora acrescenta uma taxa de manutenção mensal. O JP Morgan está estudando o aumento de taxas anuais dos cartões de débito que ofereçam pontos como prêmio.

Embora seja esperado que os bancos comerciais serão os primeiros a sentir os efeitos, os bancos de investimento estão se preparando para mudanças mais fundamentais em operações lucrativas como as com derivativos.

Derivativos. No passado, os bancos vendiam complicados contratos de derivativos diretamente aos compradores, embolsando taxas consideráveis, mas absorvendo também riscos consideráveis. Agora, a maioria dos derivativos será negociada por meio de câmaras de compensação, que arcarão com o risco, deixando os bancos como simples corretores da transação.

A mudança para a câmara de compensação transformará as operações com derivativos, um nicho extremamente lucrativo, numa operação mais baseada no volume de negócios, na qual os bancos terão de competir com serviços ao cliente e preços. Consequentemente, os bancos já gastaram dezenas de milhões de dólares para adequar seus sistemas computadorizados, de forma a torná-los mais eficientes nos tempos de vacas mais magras que vêm aí.

Enquanto os lobistas dos bancos brigavam, com sucesso, para diluir as partes mais draconianas das novas normas dos derivativos, essas mesmas instituições aceleravam silenciosamente os planos para se adaptarem a qualquer norma que fosse aprovada.

No JP Morgan, mais de 100 pessoas, de operadores a gerentes de risco e programadores de computadores, trabalham há meses reformulando as gigantescas operações de derivativos da instituição. O Citi demitiu várias dezenas de funcionários em projetos semelhantes e poderá constituir uma unidade global de serviços de compensação.

Assim como o negócio de derivativos provavelmente mudará - mas dificilmente desaparecerá -, as operações em carteira própria não deverão desaparecer tão cedo.

Nesse caso, bancos como o Citigroup e outros começaram a desmantelar as mesas de negociações independentes que usam o próprio dinheiro do banco para fazer apostas especulativas, transferindo esses operadores para mesas que trabalham em nome dos clientes. Mas eles ainda poderão fazer apostas ocasionais no mercado, mesmo que sua responsabilidade principal seja servir aos clientes./ TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.