Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Segundo o Banco Central, BB, Bradesco, Itaú Unibanco, Santander e Caixa têm juntos um total de 16.704 agências. Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Bancos terão de fechar 30% das agências em até 3 anos para manter rentabilidade, diz estudo

Levantamento levou em consideração Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Santander e Caixa; consultoria também aponta que será necessário mudar a forma de se relacionar com os clientes, a começar pela repaginação das agências

Aline Bronzati e André Ítalo Rocha, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2021 | 10h00

Os cinco maiores bancos brasileiros, com quase R$ 8 trilhões de ativos em mãos, precisam enxugar 30% de sua rede de agências físicas em no máximo três anos, aponta estudo exclusivo feito pela consultoria alemã Roland Berger e obtido pelo Estadão/Broadcast. Isso significa fechar as portas de cerca de 5 mil unidades de alvenaria, de um total de 16.704, somados Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco, Santander Brasil e Caixa Econômica Federal, conforme dados do Banco Central do fim de fevereiro.

O fechamento de agências resulta da pressão por corte de custos e eficiência diante do 'novo normal' do sistema financeiro, de acordo com a Roland Berger. Se antes essa já era uma realidade com a multiplicação de fintechs, com a pandemia, que acelerou o processo de digitalização dos brasileiros, só fez crescer.

"Os bancos brasileiros vão precisar encerrar pelo menos 30% de suas agências no curto prazo, no máximo, em dois anos. Estamos falando de 5 mil agências dos 5 maiores bancos", afirma o presidente da consultoria alemã Roland Berger, Antônio Bernardo, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

De acordo com ele, a mudança de comportamento dos clientes a reboque da covid-19 coloca a rentabilidade dos bancos brasileiros, ainda elevada frente aos pares internacionais, na berlinda. O retorno sob o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês) já foi afetado com o aumento das provisões para devedores duvidosos, as chamadas PDDs, reforçadas para fazer frente à inadimplência.

Apesar disso, a rentabilidade dos bancos brasileiros ainda é considerada elevada, na visão da Roland Berger. "Se os bancos brasileiros não se transformarem - e as agências são só uma das mudanças -, a rentabilidade vai baixar mais, ficando menos atrativos para investidores", diz Bernardo.

Eficiência

Nesse sentido, a busca por eficiência no universo bancário, segundo a consultoria alemã, não consiste em apenas cortar custos e despesas, com o fechamento de agências bancárias. A Roland Berger vê a necessidade de uma reestruturação completa da dinâmica do relacionamento com os clientes.

"A pandemia mudou muito o comportamento de compra dos clientes. Na realidade, o que a gente vê são clientes muito mais digitais. Os bancos, especialmente os grandes, têm de fazer em seis meses o que pensavam em 6 anos", avalia o presidente da consultoria alemã Roland Berger, Antônio Bernardo, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

Para o especialista, a comparação internacional mostra que as estruturas de agências no Brasil têm muito espaço para otimização. Para se ter ideia, o Bradesco tem mais da metade do número de agências do BNP Paribas, maior banco da União Europeia, conforme a consultoria.

Esse processo no Brasil muda, porém, de um banco para o outro. O Santander Brasil, por exemplo, tem menos agências que seus rivais. Somava 2.710 unidades físicas ao fim de fevereiro, ante 3.391 do Bradesco, segundo o BC. O próprio presidente do espanhol, Sergio Rial, diz que o banco não é um "tema de infraestrutura física" no Brasil.

Os bancos já têm capitaneado uma repaginação de suas agências no País, em um processo que vai da redução de algumas unidades à especialização de outras, com foco em segmentos específicos. Esse movimento, contudo, ainda é muito lento, na opinião de Bernardo, da Roland Berger. Não é só o fechamento, diz, mas a transformação da rede de alvenaria, que terá de ter unidades grandes, no estilo de lojas da Apple, automáticas, e outras com uma pegada mais de consultoria, voltada a investimentos, créditos mais complexos.

"A gente vê esse movimento bem lento. Na realidade, poderia ser um pouco mais acelerado e sempre sob a ótica da omnicalidade [integração de todos os canais de contato disponíveis]", afirma. "Não interessa onde o cliente é atendido. Ele sempre tem de ser atendido da mesma forma".

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Banco do Brasil tem 160 agências e postos com aviso de encerramento, diz Contraf

Pelo mapeamento da Contraf, a região mais afetada será a Nordeste, com 60 unidades com cartazes já colados; apesar da crise com o Planalto, plano de reestruturação do BB foi mantido e está sendo colocado em prática

André Ítalo Rocha e Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2021 | 10h00

O Banco do Brasil já pregou avisos de fechamento nas portas de pelo menos 160 unidades de sua rede, considerando agências tradicionais e postos de atendimento, segundo mapeamento preliminar feito pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Finaceiro (Contraf) e obtido pelo Estadão/Broadcast. Apesar da crise gerada no Palácio do Planalto, o plano de reestruturação, anunciado em janeiro, não só foi mantido como já começa a ser implementado.

A lista oficial das agências que serão fechadas - em um total de 112 -, porém, ainda não foi divulgada pelo BB. Segundo o secretário-geral da Contraf, Gustavo Tabatinga, funcionário do banco, o conglomerado se nega a passar aos funcionários as unidades que serão encerradas, postura que ele afirma ser inédita. "O banco alega questões de mercado, mas, em todas as reestruturações feitas no passado, o banco nos passava essas informações, até para que possamos orientar os trabalhadores", disse o sindicalista, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

Diante da negativa do BB, os bancários se mobilizaram e começaram a mapear, por conta própria, as agências e os postos de atendimento que já estavam em processo de encerramento. Para isso, foram de unidade em unidade para verificar quais delas já contavam com o cartaz que avisa do fechamento aos clientes, uma obrigação que o banco tem de cumprir 30 dias antes do encerramento de fato.

O levantamento é considerado preliminar porque a Contraf não tem presença em todos os municípios onde o BB tem alguma unidade. O número, portanto, pode ser maior.

O plano do BB envolve a desativação de 361 unidades ao longo do primeiro semestre, sendo 112 agências tradicionais, sete escritórios e 242 postos de atendimento. Além disso, haverá a conversão de 243 agências em postos de atendimento e oito postos de atendimento em agências, transformação de 145 unidades de negócios em Lojas BB, sem guichês de caixa, relocalização compartilhada de 85 unidades de negócios e criação de 28 unidades de negócios (14 agências especializadas agro e 14 "escritórios digitais leves").

Nordeste

Pelo mapeamento do Contraf, a região mais afetada será a Nordeste, com 60 unidades com cartazes já colados. O Estado com maior número de encerramentos em andamento, por enquanto, é São Paulo, com 17, seguido do Rio de Janeiro, com 14, e o Pará, com 13.

"Fechar agências numa pandemia é jogar as pessoas para a aglomeração e exclusão bancária. Há agências que estão em cidades que só têm aquela agência e vão ficar sem banco", afirma Juvandia Moreira, presidente da Contraf.

Segundo o levantamento, 23 municípios ficarão sem nenhuma agência tradicional do BB, a maioria no Nordeste: seis na Bahia (Caem, Gentil do Ouro, Itaquera, Lajedo do Tabocal, Pau Brasil e Uibai), quatro em Sergipe (Nossa Senhora de Lourdes, Monte Alegre, Pacatuba e Tomar de Geru), duas no Ceará (Santo Antônio do Jaguaribe e Itaiçaba), uma em Alagoas (Passo do Camaragibe) e uma na Paraíba (Alagoa Grande).

Também ficarão órfãos cinco municípios do Pará (Água Azul do Norte, Curuca, Monte Dourado, Ourem e Ourilândia do Norte), um no Acre (Mâncio Lima), um no Mato Grosso (Ribeirão Cascalheira), um no Paraná (Laranjal) e um em Rondônia (Alto Alegre dos Parecis).

De acordo com Tabatinga, da Contraf, já há uma chiadeira nesses municípios por parte de políticos e da população. "Quando um município recebe uma agência, é visto como uma conquista, porque o cidadão deixa de precisar ir a um município vizinho. Então, ninguém quer abrir mão. Já tem um monte de audiência pública marcada em câmaras municipais", conta.

O banco tem afirmado, contudo, que os municípios que ficarem sem agências tradicionais do BB terão pelo menos um posto de atendimento ou um correspondente bancário. Em fevereiro, o banco contava com 4.389 agências, de acordo com dados compilados pelo Banco Central (BC) e atualizados mensalmente. "Estamos em 4.883 municípios. Após o plano, estaremos presentes em 4.883 municípios. Nenhum município será desassistido", disse o presidente do BB, André Brandão, em recente conversa com a imprensa sobre os resultados do banco.

Procurado para falar sobre o mapeamento feito pela Contraf, o BB não comentou.

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