Michael Appleton/The New York Times-14/1/2009
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Bancos tinham de saber, diz Madoff

Da prisão, condenado a 150 anos de prisão por ter cometido megafraude, empresário fala pela primeira vez e diz que sua família foi destruída

Diana B. Henriques, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2011 | 00h00

Bernard Madoff disse que nunca pensou que o colapso de sua pirâmide financeira causaria o tipo de destruição que se abateu sobre sua família.

Em sua primeira entrevista desde a sua prisão em dezembro de 2008, Madoff - parecendo nitidamente mais magro e amarrotado no seu uniforme caqui de prisioneiro - sustentou que os membros de sua família não sabiam nada de seus crimes.

Mas durante uma entrevista privada de duas horas numa sala de visitas, na terça-feira, e em trocas anteriores de e-mails, ele afirmou que bancos e fundos hedge não identificados foram de certa forma "cúmplices" de sua elaborada fraude, uma contradição com suas afirmações anteriores de que ele era a única pessoa envolvida na fraude.

Madoff, que está cumprindo pena de 150 anos de prisão, parecia frágil e um pouco agitado em comparação com a calma estoica que manteve antes de sua prisão, oprimido talvez pela tristeza com o suicídio de seu filho Mark em dezembro. Além dessa perda, sua família também enfrentou uma série de ações judiciais, o confisco potencial de seus bens e a interminável suspeita e hostilidade públicas que separaram Madoff e sua mulher Ruth dos filhos.

Cegueira. De muitas maneiras, porém, Madoff parecia inalterado. Ele falou com grande intensidade e fluência sobre suas tratativas com muitos bancos e fundos hedges, apontando para sua "cegueira deliberada" e sua falha de não examinar discrepâncias entre a documentação arquivada junto as autoridades regulatórias e outras informações a eles disponíveis.

"Eles tinham de saber", disse Madoff. "Mas a atitude foi do tipo "se você está fazendo alguma coisa errada, nós não queremos saber"." Embora tenha admitido sua culpa na entrevista e dito que nada poderia desculpar seus crimes, ele concentrou seus comentários cirurgicamente nos grandes investidores e instituições gigantes com os quais negociou, e não no dano financeiro que causou a outros milhares de seus investidores mais modestos.

Em um e-mail escrito em 13 de janeiro, ele observou que muitos clientes de longo prazo ganharam mais lucros legítimos dele nos anos antes da fraude do que poderiam ter ganho alhures. "Eu gostaria que eles não tivessem perdido nada, mas havia um risco e eles estavam perfeitamente cientes disso quando investiram no mercado", escreveu. Madoff disse que ficou surpreso ao tomar conhecimento de alguns e-mails e mensagens suscitando dívidas sobre seus resultados - que estão surgindo agora nas ações judiciais - que banqueiros estavam trocando antes de a pirâmide ruir.

"Estou lendo mais agora sobre as suspeitas que eles tinham do que percebi na época", disse ele com um leve sorriso.

Sem entregar. Ele não afirmou que algum banco ou fundo específico sabia ou foi cúmplice da pirâmide financeira que durou pelo menos 16 anos e consumiu cerca de US$ 20 bilhões em dinheiro e quase US$ 65 bilhões em papéis.

Ele citou antes uma falha em realizar uma avaliação normal.

Mas a entrevista e a correspondência por e-mail foram realizadas como parte da pesquisa desta repórter para um livro a sair sobre o escândalo Madoff, " The Wizard of Lies: Bernie Madoff and the Death of Trust" ("O mago das mentiras: Bernie Madoff e a morte da confiança", em tradução livre), para publicação nesta primavera americana pela Times Books, uma divisão da Henry Holt and Co.

Na entrevista e nos e-mails, ele afirmou também que vinha colaborando com o gestor nomeado pelo tribunal que está tentando recuperar bilhões perdidos em favor de clientes ludibriados. Em e-mails, Madoff disse reiteradamente que forneceu informações úteis a Irving H. Picard, o gestor que está tentando recuperar ativos para as vítimas da fraude.

Ele se reuniu com a equipe de Picard por quatro dias durante o último verão, disse ele. Os e-mails foram escritos em dezembro e janeiro, mas só recentemente ele concordou em torná-los públicos.

Contestando relatos de que se recusou a participar do serviço fúnebre de Mark, seu filho que se matou, ele disse que a prisão o informou que não aprovaria seu pedido de participar do serviço por "motivo de segurança pública" e o tempo limitado disponível para fazer os arranjos. Ele concluiu que qualquer funeral em que comparecesse "seria um circo de mídia" e que "seria cruel para minha família" passar por isso, conforme escreveu em 29 de dezembro.

Acusados. .As únicas pessoas formalmente acusadas de cumplicidade no crime de Madoff são seu antigo auditor e membros de seu próprio staff.

Embora Madoff tenha jurado em juízo que realizava sua elaborada fraude sozinho, seu contador, David Friehling, e o braço direito de Madoff, Frank DiPascali, haviam se declarado culpados e estão cooperando com os procuradores.

Outros cinco ex-empregados de Madoff foram indiciados.

Eles afirmaram sua inocência e estão aguardando julgamento.

Embora Madoff tenha dito que estava determinado a ajudar nos esforços do curador para recuperar ativos, ele também foi crítico da pretensão do curador, alegando que Picard estava buscando muito mais dinheiro do que o necessário para resolver as demandas válidas de investidores. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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