Tiago Queiroz/Estadão
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E-Investidor: qual o melhor investimento para 2020?

‘Bancos tradicionais mudaram de tática na crise. Será que isso dura?’, diz presidente do Nubank

David Vélez, um dos fundadores da fintech, afirma que gostaria de participar mais de programas de crédito e de repasses do governo; ele participou da série de lives ‘Economia na Quarentena’

Entrevista com

David Vélez, fundador e presidente do Nubank

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 17h49

Depois de anos de críticas e de comparações desfovaráveis frente à agilidade e à flexibilidade das fintechs, a crise do coronavírus fez dos bancos tradicionais o principal meio de brasileiros receberem auxílios governamentais em forma de repasses financeiros ou empréstimos subsidiados. Esse papel de "meio de campo", mais doações generosas para compras de equipamentos e testes, reforçou a imagem dessas instituições. E quem admite é ninguém menos que o executivo David Vélez, fundador e presidente do Nubank, a principal fintech do País, com mais de 20 milhões de clientes.

"Eles têm reagido admiravelmente nesta crise e inovado em atender os clientes durante a crise. De alguma forma, a gente se sente parte responsável por essa reação. Há sete anos, temos batido nesta tecla sobre a forma de se diferenciar e na forma de oferecer serviço", disse Veléz, que participou nesta quarta-feira, 22, da série de entrevistas ao vivo "Economia na Quarentena", do Estadão. "Para mim, ainda não ficou muito claro se os bancos fizeram uma mudança tática nessa crise ou se isso representa uma mudança mais sistêmica da cultura e da capacidade de se adaptar."

Na entrevista, Vélez também comentou a expectativa de uma forte recessão este ano – ele projeta uma queda no PIB de 4% a 5% em 2020 –, e os ruídos que prejudicaram o combate à pandemia de covid-19 no País, entre outros assuntos.

Leia, a seguir, os principais trechos:

Várias fintechs têm demitido na crise. Como a turbulência está afetando o Nubank?

Estamos retendo os funcionários. Fomos uma das primeiras a trabalhar home office 100%, e estamos atendendo a 23 milhões de clientes no Brasil e no México. Nossa pergunta principal foi como poderíamos ajudar os nossos clientes. Estamos oferecendo uma combinação de soluções, como refinanciamento de faturas, com corte de até 85% nos juros do cartão de crédito. Criamos um fundo de R$ 20 milhões para ajudar nossos clientes a obter telemedicina e auxílio psicológico. Com esse dinheiro, fizemos parcerias com o iFood e o Rappi para entregar fraldas aos nossos clientes que não podiam comprar esse produto durante o isolamento. 

As fintechs vieram para desafiar os bancos tradicionais. O sr. acha que os bancos tradicionais têm recuperando parte da imagem arranhada durante a crise do coronavírus?

Com certeza. Eles têm reagido admiravelmente nesta crise e inovado em atender os clientes durante a crise. De alguma forma, a gente se sente parte responsável por essa reação. Há sete anos, temos batido nesta tecla sobre a forma de se diferenciar e na forma de oferecer serviço. A gente provocou essa mudança no mercado, não só digital como cultural. Agora, não é o mais rápido ou o mais forte que sobrevive, é o mais adaptável. As fintechs têm essa vantagem, dado que elas nascem e crescem num ambiente hostil. No nosso caso, vivemos crises mensais desde que o Nubank foi lançado. Começamos em 2014 e crescemos desde então. Para mim, não fica muito claro se os bancos fizeram uma mudança tática nessa crise ou se isso representa uma mudança mais sistêmica da cultura e da capacidade de se adaptar. 

Mas, diante dessa crise, o cliente não pode ficar mais inseguro de colocar seu dinheiro numa fintech?

Acho que depende muito. Hoje as fintechs que atuam como banco digital, têm garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Falando do nosso caso específico, temos muito mais liquidez do que alguns bancos tradicionais no setor por décadas. Em geral, eu vejo a indústria muito forte pela regulação. 

As fintechs poderiam ter maior participação no repasse dos recursos anunciados pelo governo?

Existe espaço para usar as fintechs e empresas com maior agilidade para acelerar este tipo de distribuição. Conversamos muito com o ministério da Economia, com Caixa e Banco Central para tentar ajudar. Mas não vejo as fintechs com o mesmo nível de interlocução dos grandes bancos com o governo. 

Como o sr. avalia as medidas anunciadas pelo governo e como o Nubank poderia ajudar neste momento?

A gente vê ainda muita necessidade de crédito para pequenas e médias empresas. O grande problema é que existe muita volatilidade neste cenário de pouca informação. Vira um risco muito grande conceder crédito. Então, acredito que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) poderia fazer esses financiamentos aos pequenos e médios empresários, que são de 8 milhões a 9 milhões de empresas no Brasil. Para emprestar dinheiro, é necessário alguma garantia. E o governo pode trabalhar nisso.

As fintechs estão em conversas com o governo para ajudar na distribuição de recursos? Quais são as propostas?

Estamos em várias conversas com o governo federal, o BNDES e o Banco Central.

O governo de São Paulo anunciou o fim gradual do isolamento social. Como o sr. vê essa decisão para a economia?

Vejo que a retomada já começou. Nos primeiros dias do isolamento, nós chegamos a ver as nossas transações caindo 50%. Hoje já tem recuperado bastante. Nos últimos dias a gente teve mais transações em cartão de débito do que nos primeiros dias do ano. Pensando no ângulo de saúde, isso não é melhor. Em muitas cidades do Brasil, as pessoas estão retomando a vida e a economia. O ótimo teria sido um lockdown completo, como nos países que têm administrado a crise melhor, como Coreia do Sul e Cingapura. Espero que depois de 11 de maio seja um processo gradual. A gente tem de achar um ponto ideal para garantir que a curva de infecção seja achatada. 

Os países que obtiveram mais sucesso no combate ao vírus tinham uma política clara. Os ruídos nas estratégias no Brasil podem prejudicar a situação aqui?

Acho que sim. O ideal teria sido mais clareza no plano de guerra, falar exatamente o que vai ser feito e quais são as métricas que serão consideradas para relaxar o isolamento. Isso vai desde a ocupação de hospitais até o número de infecções. Infelizmente, não tem acontecido. Acho que esse mundo ideal é difícil porque é uma crise que ninguém entendia. Os países mais bem sucedidos tiveram nos últimos anos micropandemias nos últimos anos. Então, estavam muito mais bem preparados. Daqui para frente, essa visão mais clara seria bastante útil. 

O governo está falando em uma espécie de Plano Marshall para salvar a economia. O que o sr. pensa disso?

Acho que a economia vai precisar de um choque do governo. O aumento do desemprego no Brasil vai ser muito grande. A gente vai entrar em uma recessão, e a saída dessa situação vai depender do choque de demanda que o governo conseguir fazer. Ainda faltam bastante detalhes. O mundo precisa de um Plano Marshall, porque todo mundo vai sair bastante pior da crise. Ainda existe muita volatilidade e qual será a contração. Nossa visão até agora é de uma  queda de 4% a 5% no PIB para o ano de 2020.

O que pode se tirar de lição dessa crise? O Nubank antecipou alguma estratégia de negócio por causa da pandemia?

A crise vai acelerar muitas tendências. Algumas delas são muito claras, como a de bancos digitais. Por esse choque, está todo mundo fazendo suas operações digitais. O mesmo acontece em saúde e educação. A gente vai sair cinco ou seis vezes mais digitais dessa crise. Há também a questão de as empresas entenderem seu papel social. Elas estão vendo que seu propósito vai além da criação de produtos e serviços, que existe uma responsabilidade com a comunidade e com o País. Muitas soluções de como sair da recessão também virão da inovação do setor privado. 

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