BANCOS VÃO À FAVELA E FAZEM ALERTA

No começo da noite de uma sexta-feira, Valter Bellei, um rapaz loiro e engravatado, esforçava-se para explicar a moradores da favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, os riscos do endividamento excessivo. A palestra já estava pela metade quando ele encontrou a analogia perfeita. "É como fazer um regime. Se você não resistir às tentações do crédito fácil, não vai emagrecer."

O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2012 | 02h06

Bellei é gerente de área do Bradesco Expresso, rede de correspondentes bancários que chega a lugares onde o sistema financeiro formal praticamente não existe. A reportagem acompanhou a palestra que ele fez no Centro Educacional Unificado (CEU) de Paraisópolis. Em 2012, o Bradesco realizou 259 aulas sobre educação financeira.

Após o forte crescimento do crédito em 2010, que culminou na disparada da inadimplência, praticamente todos os grandes bancos do País investiram na educação financeira para ensinar pessoas que recém abriram conta em banco a utilizar o crédito sem se atrapalhar. É como nas propagandas de cerveja: os bancos, que "vendem" crédito, aconselham os clientes a "beber, mas com moderação".

O teatro do CEU de Paraisópolis estava lotado, principalmente de mulheres e crianças, atraídas pelos balões, doces e brindes que o banco sorteou no final do evento. Segundo os organizadores, as mulheres são grandes empreendedoras na região. Em Paraisópolis, onde vivem 110 mil pessoas, existem 5 mil empresas, sendo 350 salões de beleza.

Em um canto do auditório, uma faixa dizia: "O Bradesco tem crédito especial para você realizar o sonho de comprar carro, moto, trator, geladeira, TV, bicicleta...". No palco, Bellei pregava que "o crédito é importante para o País, porque aquece a economia, mas deve ser utilizado com responsabilidade".

Alguns dos mandamentos do gerente do Bradesco: "Não compre por impulso, não compre porque está na promoção, controle o cheque pré-datado, não empreste seu nome a ninguém, cartão de crédito e cheque especial são as dívidas mais caras que existem".

Helena Santos, moradora de Paraisópolis, não seguiu esses ensinamentos e confessa que "se embananou". Ela, que ganha cerca de R$ 700 por mês, emprestou seu cartão de crédito a um parente e hoje deve entre R$ 4 mil e R$ 5 mil. "Não queria vir aqui hoje, mas foi bom. Estou mais calma. Vou conseguir resolver."

Felipe Doro de Assis trabalha no posto que o Bradesco abriu em Paraisópolis em outubro de 2010, quando o crédito começou a bombar. Ele brinca que hoje atua mais como consultor financeiro do que como gerente de banco. "Fazemos uma entrevista para ver o quanto o sujeito pode pagar. Já teve casos de concluir junto com o cliente que ele não precisava de R$ 4 mil emprestados, mas de R$ 2 mil."

No fim da palestra, Bellei reúne a equipe do banco no palco e pergunta se há dúvidas. Talvez intimidados pelas roupas elegantes dos interlocutores ninguém pergunta nada. Ele então indica alguns livros - "Pai Rico, Pai Pobre" e "Casais inteligentes enriquecem juntos" - e reforça que "controlar os gastos é como emagrecer: é preciso mudar os hábitos e não esquecer nunca do regime". / R.L.

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