Banqueiros apostam em recorde de fusões e aquisições no País em 2008

Brasil aparece como alternativa de bons negócios no mundo; operações podem passar de US$ 100 bi no ano

Patrícia Cançado e Ricardo Grinbaum, O Estadao de S.Paulo

14 de janeiro de 2008 | 00h00

Nesta semana sai um dos principais rankings de fusões e aquisições do País, o da Thomson Financial. A disputa pelo primeiro lugar mobiliza alguns dos mais importantes banqueiros responsáveis por costurar negócios no Brasil. Até aqui, Citi, Credit Suisse e ABN Amro Real, cada um por trás de negócios em torno de US$ 15 bilhões, estão embolados nas três primeiras posições. No momento em que as operações de compra e venda prometem bater recorde no País, estar no alto do ranking é uma poderosa arma para atrair os clientes e conseguir os melhores negócios. Em 2007, o mercado movimentou US$ 59 bilhões. A previsão dos banqueiros é que esse número ultrapasse US$ 100 bilhões, a julgar pelas operações engatilhadas. O ano mal começou e negócios bilionários estão perto de serem fechados. A Oi tenta comprar a Brasil Telecom numa operação que começa com pelo menos US$ 5 bilhões. O Citi tem o mandato para vender o controle da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) e da Brasiliana (dona da Eletropaulo e da AES Tietê). Segundo estimativas de mercado, as duas operações podem chegar a US$ 15 bilhões. Mas todas essas, que já soam grandes para os padrões brasileiros, ficam modestas perto de uma eventual oferta da Vale pela mineradora suíça Xstrata. As cifras podem ultrapassar US$ 70 bilhões. Os números acima, por si só, explicam a euforia dos banqueiros. Apesar da crise financeira nos Estados Unidos e do comportamento nervoso da bolsa brasileira, eles concordam num ponto: o Brasil tem hoje uma combinação inédita de fatores para um crescimento explosivo de negócios. "Nosso otimismo tem um grau de cautela, mas os emergentes aparecem como alternativa", diz o presidente da área de investimentos do Citi, Ricardo Lacerda. "O mundo é muito interligado, mas o grau de oscilação do País hoje é muito menor que no passado."Eles esperam um pouco de tudo. Brasileiros comprando concorrentes e ativos no exterior, grupos se unindo no mercado interno, multinacionais levando negócios no Brasil e fundos de private equity adquirindo participação em empresas. "Essa combinação de tendências mostra um amadurecimento do capitalismo", afirma o vice-presidente da área de empresas do ABN Amro Real, João Roberto Teixeira.A valorização de grandes empresas na Bolsa abriu um novo caminho para grupos brasileiros no exterior. O Bradesco e o Itaú, com valor de mercado de US$ 60 bilhões (cada um), têm condições de sobra para usar suas ações como moeda de troca numa compra no exterior.As companhias brasileiras ainda têm mais acesso ao crédito e conta com o câmbio a seu favor. Com o Real fortalecido e o dólar em queda, as empresas no exterior, principalmente nos Estados Unidos, ficaram mais baratas. "O uso de ações como moeda de troca dá à empresa uma vantagem competitiva enorme. A Perdigão, por exemplo, comprou a Eleva sem gastar dinheiro", diz o diretor-executivo do banco de investimentos Credit Suisse, José Olympio Pereira. "O empresariado brasileiro ainda não percebeu as oportunidades que o mercado de capitais está possibilitando."O que se vai ver neste ano é uma aceleração das tendências de 2007, com um ou outro novo setor indo às compras. Os banqueiros apostam na concentração de mercado em setores como o de telecomunicações, finanças, energia, bens de consumo (principalmente alimentos), varejo, açúcar e álcool, construção civil e mineração.ATRASOO Brasil está tirando agora um atraso de décadas. O número de fusões e aquisições em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) ainda é considerado baixo se comparado aos padrões americano e europeu. Boa parte dos setores é pulverizado e está na mão de pequenas e médias empresas familiares. O ramo de construção civil é exemplar. Hoje o Brasil tem mais empresas listadas na Bolsa que os Estados Unidos. Essa situação levará naturalmente a uma concentração, que deve começar a ocorrer neste ano. Os banqueiros não imaginam que os negócios serão movidos por novos grupos estrangeiros chegando ao Brasil. Os investimentos em compras virão de empresas já instaladas no País, sejam nacionais ou estrangeiras. "O que vai governar a consolidação é a dinâmica do setor, e não a origem do capital", acredita Teixeira.A mudança no ambiente econômica está permitindo, num espaço curto de tempo, a criação de grupos poderosos . "Talvez só os donos de frigoríficos imaginavam que podiam liderar o mercado mundial de carnes", diz Pereira, que agora não vai se surpreender se a próxima notícia vier dos fazendeiros.

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