Felipe Rau/ Estadão
Felipe Rau/ Estadão

Banqueiros e empresários se reúnem com Lira e Pacheco para discutir como ampliar vacinação

Presidentes da Câmara e do Senado também ouviram pedidos de mudança na regra para a compra de imunizantes pela iniciativa privada e de benefício fiscal em troca de gastos com iniciativas de combate ao coronavírus

Aline Bronzati e Daniele Madureira, especial para o Estadão

23 de março de 2021 | 17h15

Banqueiros e empresários se reuniram, em dois momentos, na segunda-feira, 22, com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), para discutir saídas para agilizar a compra de insumos e vacinas contra a covid-19, no pior momento da pandemia no País. Em tom de cansaço e críticas, eles apresentaram três preocupações: falta de vacinas, de leitos e de insumos e medicamentos para quem está internado. Também foi feito um pedido de benefício fiscal em troca de gastos com iniciativas de combate ao coronavírus.

O primeiro encontro foi organizado pelo médico Claudio Lottenberg, presidente do Conselho do Hospital Albert Einstein e do Instituto Coalizão Saúde (Icos). Mais tarde, houve um jantar na casa de Washington Cinel, dono da empresa de segurança Gocil. Entre os participantes estavam os banqueiros Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Conselho de Administração do Bradesco, e André Esteves, sócio-fundador do BTG Pactual, os empresários Abilio Diniz, Flávio Rocha, da Riachuelo, e Carlos Sanchez, da fabricante de medicamentos EMS. Alguns, como Diniz e Rocha, participaram por videoconferência.

Conforme apurou o Estadão/Broadcast, o tema do debate foi exclusivamente a pandemia - em diferentes frentes na discussão. Uma das vertentes da elite empresarial do País começa a falar em uma "frente de solidariedade", em uma nova ofensiva para ajudar o Brasil a atravessar a pior fase da pandemia. Outra quer atos mais práticos, como a mudança na regra para a compra de vacinas pela iniciativa privada e benefícios em impostos.

"Sem entendimento e pacificação, não vamos a lugar nenhum. A vacina é importante. Mas tem de esperar", disse Trabuco. De acordo com ele, o que é possível fazer agora é "trabalhar para ter leitos e insumos hospitalares". 

Nos encontros, médicos deram depoimentos preocupantes quanto à carência dos hospitais para receber pessoas diagnosticadas com covid-19 e em situação mais grave.

"As reuniões são boas, teve ontem, terá amanhã, no sentido de buscar diálogo para encontrar soluções. As pessoas têm de entender que a crise de saúde já está explicitada, agora, trata-se de uma crise humanitária", afirmou Trabuco.

Benefício fiscal 

O presidente do Conselho de Administração do grupo Guararapes, dono da varejista de moda Riachuelo, Flávio Rocha, disse que, entre as medidas discutidas com os chefes do Legislativo, estava uma contrapartida para a oferta de leitos para tratamento de covid-19. "As empresas poderiam doar leitos e abater parte do valor do Imposto de Renda", afirmou.

Como outros empresários do setor varejista, Rocha pediu mudanças nas regras para a compra de vacinas. "As empresas só podem comprar a vacina para as suas equipes quando 70% da população estiver vacinada e buscamos a flexibilização desse patamar", disse. "O calendário do Ministério da Saúde é muito realista e, com essa quantidade de vacinas sendo produzida no mundo, daqui a pouco, vai ter vacina saindo pelo ladrão."

Para ele, a ideia de os empresários comprarem vacinas foi muito mal apresentada à opinião pública. O principal objetivo é imunizar a força de trabalho para não haver demissões, afirmou. "Não queremos passar à frente de vulneráveis, velhinhos ou quilombolas. Estamos na linha de frente da guerra econômica. Não adianta vencer a guerra biológica e não ter o que comer. Como diz o ministro (da Economia), Paulo Guedes, desemprego mata", diz.

Lira e Pacheco prometeram aos empresários que o Congresso vai estudar medidas para agilizar a importação de insumos e produtos farmacêuticos de forma geral, em meio à carência nos hospitais e a lotação dos leitos Brasil afora.

Pacheco disse, conforme um dos presentes, que a 'fase de negacionismo' já passou. "Ser negacionista hoje é macabro e fúnebre", afirmou o presidente do Senado, relata a fonte.

Diálogo

Para Rocha, o jantar contribuiu para melhorar o diálogo entre o setor privado e Brasília. "A nova gestão das casas, com Lira na Câmara dos Deputados e Pacheco, no Senado, é muito menos belicosa que a anterior", disse Rocha ao Estadão/Broadcast, referindo-se aos mandatários anteriores, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre.

Segundo o presidente do conselho da Guararapes, tanto Lira quanto Pacheco estão muito receptivos ao pleito. "Tenho uma amizade próxima ao Lira e estou admirando muito o trabalho do Pacheco", afirmou. Quanto ao presidente Jair Bolsonaro, Rocha acredita que a escolha do novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, já se mostra positiva. "Nos últimos dias, temos visto o presidente usando máscara, então, entendo que o novo ministro já está tendo uma influência educativa sobre ele."

Para Rocha, enquanto não chega a vacina, só resta a Bolsonaro usar máscara e promover o distanciamento social. O agravamento da pandemia, disse ele, deve-se à gestão de governadores e prefeitos. "Qualquer especialista pode dizer que as concentrações começaram com as campanhas políticas de 2020 e continuaram com as festas de fim de ano, os feriados, o carnaval. Quem tinha autoridade legal para reprimir tudo isso eram os prefeitos e governadores."

Sanchez, da EMS, confirmou a participação na reunião por meio de nota. "Como outros empresários, Carlos Sanchez participou do encontro com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) na segunda-feira, 22 de março. O objetivo foi discutir a emergência sanitária provocada pela pandemia no Brasil. Como a maior empresa farmacêutica no País, a EMS acompanha e apoia medidas urgentes para controle da grave situação em que o Brasil se encontra", escreveu a empresa.

Os encontros de banqueiros e empresários com Lira e Pacheco ocorreu um dia após um quórum parecido participar de um encontro virtual com Paulo Guedes. Na conversa, que durou quase quatro horas, o ministro foi cobrado, principalmente, por vacinas.

Na quarta-feira, 24, uma nova reunião para tratar da pandemia no País está agendada. Desta vez, o encontro será com os chefes dos Poderes. Entre os presentes, estão previstos o presidente Jair Bolsonaro, Pacheco, Lira, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), além de governadores.

Procurado, Washington Cinel, da Gocil, não respondeu à reportagem. / COLABOROU MATHEUS PIOVESANA

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