Banqueiros ignoram a lição sobre ganância

Bancos americanos continuam a usar os mesmos sistemas de remuneração de antes da crise financeira global

O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2012 | 03h10

Artigo de William D. Cohan - Bloomberg News

Quatro anos depois do colapso do Lehman Brothers e uma paralisia quase total do sistema nervoso central do capitalismo, um medo momentâneo que dominou a ganância de Wall Street, começamos a ter alguns vislumbres de esperança.

A boa notícia é que diversos bancos finalmente começaram a adotar medidas para reformar o sistema de remunerações de Wall Street, que recompensa executivos e corretores com enormes bonificações por terem assumido riscos insanos com o dinheiro de outras pessoas. A má notícia é que esses bancos estão na Europa, e a maior parte de seus congêneres nos Estados Unidos ainda não entenderam bem a situação.

Nos últimos dias, tanto o Deutsche Bank como o UBS anunciaram planos para mudar seus sistemas de remuneração. O Deutsche Bank informou que a parte da remuneração que seus 150 diretores administrativos recebem na forma de ações diferidas só poderá ser exercida depois de cinco anos, em vez de três, o que deve concentrar as mentes dos executivos por um tempo um pouco mais longo. O banco também indicou uma comissão externa para examinar suas práticas no campo das remunerações pagas, e prometeu estar na vanguarda das mudanças no setor. Embora não seja ainda a ampla transformação que nos protegerá contra o mau comportamento dos seus principais executivos, as propostas do Deutsche Bank pelo menos comprovam o antigo provérbio segundo o qual, em terra de cego, quem tem um olho é rei.

Por seu lado o UBS (União de Bancos Suíços) informou que está estudando uma possível limitação das bonificações pagas a seus executivos e traders, que passariam a ser pagas em função dos salários fixos dos executivos ou da lucratividade da instituição. E o banco também pretende passar para cinco anos o prazo para os executivos poderem exercer suas opções de ações oferecidas a título de recompensa, em concordância com a proposta do Deutsche Bank. O Credit Suisse e o HSBC Holdings também estão dando pequenos passos na direção de uma reforma do seu sistema de remuneração.

Nos Estados Unidos, contudo, há um total silêncio a respeito do assunto. Executivos de bancos e traders em Wall Street continuam recebendo enormes bonificações baseadas unicamente na receita gerada pelos produtos que vendem. Como ocorreu antes da crise financeira, e ao contrário de quase todas as demais atividades no globo, cerca de 50% de cada dólar de receita gerada em Wall Street saem direto na forma de bonificações pagas a executivos. Claro que este sistema absurdo estimula banqueiros e corretores a continuar vendendo e negociando, prestando pouca atenção às consequências dos produtos que vendem ou das apostas que fazem para os outros. Quanto a assumir alguma responsabilidade, esqueça.

Pior, nem Lloyd Blankfein, presidente do Goldman Sachs, e tampouco Jamie Dimon, presidente do JPMorgan Chase & Co. - os mais destacados executivos de Wall Street -, falaram alguma coisa quanto a mudar este sistema falho, e continuam a receber dezenas de milhões de dólares a título de remuneração anual. Por outro lado, o Goldman cortou seu orçamento eliminando um programa de analistas para estudantes no último ano de faculdade. Isto não é liderança.

O CEO James Gorman, do Morgan Stanley, pelo menos resolveu o sistema falho do banco: em 2011 os executivos e traders do Morgan tiveram suas bonificações limitadas a US$ 125 mil. James Gorman disse publicamente no Fórum Econômico Mundial, em janeiro, que se não gostassem da medida, eles podiam se retirar. Poucos o fizeram, e por que o fariam? Onde, senão em Wall Street, eles conseguem ganhar tanto sem arriscar um tostão do seu bolso? E como a estrutura de remunerações básica em Wall Street continua, na maior parte, inalterada, o mesmo ocorre também com o comportamento das pessoas, apesar da aprovação da lei Dodd-Frank e a redação ou reformulação de novas regras que ela determina.

Quem pode esquecer, só nos últimos meses, do colapso London Whale, do JPMorgan, em que quase US$ 6 bilhões dos depositantes foram perdidos numa aposta obscura e imprudente envolvendo taxas de juro? Ou da devastadora perda de confiança nos mercados provocada pela manipulação, por parte de grandes bancos, da taxa interbancária em Londres? Ou do escândalo de lavagem de dinheiro do HSBC? Ou das manobras contábeis do Standard Chartered para ajudar o Irã? Ou mesmo do escândalo envolvendo informações privilegiadas do Nomura Holdings? Todos esses fatos ocorreram depois de a crise financeira colocar a nu a cultura de Wall Street, que se assemelhava mais à Cosa Nostra do que qualquer outra coisa.

Por que houve tão poucas mudanças, apesar de banqueiros, traders e executivos aparentemente estarem fazendo o possível nos últimos dias para quase aceitar a acusação de que agiram erroneamente? (O exemplo mais recente foi de Anshu Jain, um dos dois novos líderes do Deutsche Bank, que esboçou um plano para uma mudança interna de cultura, admitindo que "tremendos erros foram cometidos". "Os tempos mudaram e precisamos mudar, e rapidamente", disse).

Parte da resposta, talvez, esteja no fato de que o comportamento de Wall Street apenas reflete as novas normas aceitas pela sociedade como um todo, quando tristemente observamos um forte declínio da ética, da moralidade, do cumprimento das obrigações e normas legais e da liderança nesta geração mais nova.

Wall Street ensinou as maravilhas das opções de ações e "paraquedas de ouro" e as abusivas remunerações pagas a executivos, entre outras coisas, com a finalidade de enriquecer alguns do mais alto escalão, mas assumindo o mínimo de responsabilidade pelo seu comportamento.

Nós também fomos inundados no ano passado - graças à cruzada presidencial de Mitt Romney - por fatos mostrando como é fácil para magnatas dos fundos de hedge e private equity fazerem fortunas usando o dinheiro de outras pessoas e pagando o mínimo de impostos.

É um excelente trabalho conseguir isso. Mas tudo leva a uma sequencia de mensagens que se resumem nesta frase de Gordon Gekko, personagem interpretado por Michael Douglas: a ganância é boa.

Se a crise financeira e suas consequências nos ensinaram alguma coisa, é que a ganância nem sempre é boa. Se eu fosse um CEO de Wall Street, ganhando dezenas de milhões de dólares por ano, teria vergonha de me qualificar como líder perpetuando um sistema de remunerações que continua a recompensar o mau comportamento. Enquanto esses líderes continuarem agindo sem que o seu dinheiro seja colocado em risco diariamente - como ocorria há duas gerações, quando Wall Street era uma série de pequenas parcerias privadas -, a ideia de uma real mudança continua uma piada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.