Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Banqueiros se animam com Jair Bolsonaro, diz Financial Times

Jornal britânico publicou reportagem que cita o entusiasmo de banqueiros brasileiros com o candidato do PSL

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2018 | 10h19

LONDRES- O interesse pelo vencedor do primeiro turno da eleição presidencial brasileira, Jair Bolsonaro (PSL), faz o jornal britânico Financial Times publicar nesta quarta-feira, 10, uma nova reportagem sobre os efeitos do concorrente para o ambiente econômico nacional. Nesta manhã, o site do diário trouxe uma reportagem que cita o entusiasmo dos banqueiros brasileiros com Bolsonaro e diz que líderes empresariais encontram muitos pontos que gostam na agenda econômica do candidato.

Analistas, no entanto, alertam que a governabilidade pode ser um problema, considerando o temperamento de confronto do ex-militar e o pouco que ele sabe sobre as operações do aparato estatal nacional.

A forte alta dos mercados brasileiros não é o único fator que eleva o "espírito animal" entre os líderes empresariais e financeiros seniores em São Paulo nesta semana, de acordo com o veículo britânico. A perspectiva de o parlamentar de direita conquistar a Presidência e implementar um programa econômico liberal despertou esperanças, entre muitos, de que décadas de políticas estatistas brasileiras estejam prestes a ser revertidas.

"A primeira coisa que você precisa fazer é respirar fundo", comentou um importante banqueiro ao FT sobre forte desempenho de Bolsonaro na eleição presidencial de domingo, de 46% dos votos, como explicou o site, apesar de ter elogiado a ditadura militar do Brasil. "Ele não foi minha primeira escolha, mas certamente muitos dos meus clientes estão satisfeitos."

Paulo Guedes, conselheiro econômico de Bolsonaro, um banqueiro de investimentos com formação na Universidade de Chicago, está buscando outros financiadores para se unir à equipe de transição caso Bolsonaro derrote Fernando Haddad, do PT, no segundo turno, marcado para 28 de outubro. Haddad recebeu 29% dos votos no domingo e analistas estimam que ele precisaria atrair mais de 85% de todos os eleitores que não escolheram ele ou o Bolsonaro para vencer, "uma tarefa quase impossível", conforme o periódico. "Há uma esperança guardada. Bolsonaro pode não ser o catalisador da mudança que eu escolheria, mas é o que a democracia brasileira fez. Muitos de meus colegas estão se perguntando como podem ajudar. O Brasil precisa disso", disse outro banqueiro-sênior ao jornal.

Com um déficit orçamentário de 8% do Produto Interno Bruto (PIB), o aumento da dívida nacional e o ambiente de negócios que ficou em 125º lugar do Banco Mundial em 190 países, economistas dizem que o Brasil precisa de uma forte dose de ortodoxia para tirá-lo do mal-estar econômico. Entre os financiadores da administração Bolsonaro estão Alexandre Bettamio, presidente do Bank of América Merrill Lynch na América Latina, João Cox, presidente do conselho da unidade brasileira da Telecom Italia, e Roberto Campos Neto, diretor de mercados globais do Santander Brasil. Todos se recusaram a comentar.

"O recrutamento do setor privado por Bolsonaro, que às vezes é chamado de 'Trump Tropical' por causa de seus comentários ousados, políticas conservadoras e plataforma pró-igreja, ecoaria movimentos semelhantes do presidente dos EUA depois de vencer as eleições de 2016", comparou o Financial Times. Mauricio Macri, o presidente argentino, também recrutou banqueiros-sêniores e líderes empresariais depois que ganhou em 2015 com promessas de reverter as políticas estatistas de seus antecessores. Sebastián Piñera, o presidente chileno e um empresário bilionário, elogiou esta semana os instintos econômicos de Bolsonaro, descrevendo-os como "indo na direção certa".

O aumento de 5% no mercado acionário brasileiro nesta semana e a alta de 3% na moeda real sugerem que muitos investidores concordam, apesar da reputação de Bolsonaro como um deputado sem brilho que aprovou apenas dos projetos durante seus 28 anos em Brasília. As preocupações de que Bolsonaro lutaria para governar diminuíram depois que seu jovem PSL conquistou 52 vagas das 513 cadeiras do Congresso. Potenciais aliados, como o Partido Novo de centro-direita, poderiam ajudar a estabelecer uma coalizão majoritária. Oficiais militares aposentados também podem fornecer força de gestão, outra semelhança apontada na reportagem com Trump. O companheiro de chapa de Bolsonaro é um general aposentado, Hamilton Mourão.

Ainda assim, com mais de 30 partidos no Congresso, analistas alertaram que a governabilidade pode ser um problema, considerando o temperamento de confronto de Bolsonaro e o pouco que ele sabe sobre a operação do aparelho de Estado do Brasil. Trump também lutou nos EUA em meio a relatos de caos dentro de sua administração. "Bolsonaro tem uma capacidade não comprovada de escolher uma equipe executiva competente e administrar uma grande e diversificada coalizão de partidos", disse Paulo Sotero, diretor do Instituto Brasil no Woodrow Wilson Center. "Bolsonaro pode ser capaz de vencer, mas ainda resta saber se ele será capaz de governar efetivamente."

Talvez o maior medo entre os muitos críticos de Bolsonaro identificados pelo veículo britânico seja a crescente violência, dados seus frequentes comentários misóginos e homofóbicos na campanha eleitoral e sua solução para o crescente aumento do crime brasileiro de liberar a posse de armas. O candidato, de acordo com o FT, aproveita a onda de ódio no Brasil. O PT, que governou o Brasil durante a maior parte deste século e presidiu a maior recessão do País e o maior escândalo de corrupção, pintou Bolsonaro como um autoritário que poderia levar o País de volta à ditadura. "O Brasil precisa que seu barco seja sacudido.

Bolsonaro vai quebrá-lo? ", questionou o segundo banqueiro. "Existem muitos 'se' e 'mas'. No final, você deve ter fé nas instituições do País. É o que faço."

Nem todos os altos executivos de São Paulo estão torcendo por Bolsonaro. A chef de celebridades Helena Rizzo causou um alvoroço entre sua clientela de elite, muitos dos quais ameaçaram boicotar seu restaurante, Maní, depois que ela postou uma foto no Instagram de sua equipe com os dedos médios levantados e a hashtag #elenao escrita em seu braço. "Quem pode garantir. . . que um chef com essas maneiras não cuspa nos pratos de seus clientes ", disse um internauta em um comentário. Rizzo foi forçada a publicar uma nota esclarecendo que o post era uma opinião pessoal e não pretendia julgar a política de seus clientes. "Meu gesto é um protesto contra o preconceito, o chauvinismo, o racismo, a homofobia e a misoginia", disse ela.

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