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Barreira contra importado afeta vida na Argentina

Ao contrário da classe política, que mantém consumo de importados, cidadãos comuns são obrigados a improvisar

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2012 | 03h07

"Defenderemos a indústria nacional!" Esta mensagem foi enviada há poucos dias pela rede de microblogs Twitter de um iPhone "made in China" pelo vice-presidente argentino Amado Boudou, que coleciona motos Harley Davidson fabricadas nos Estados Unidos.

A defesa dos produtos nacionais é uma das bandeiras políticas da presidente Cristina Kirchner, ávida consumidora das bolsas Louis Vuitton, feitas na França, e dos também franceses sapatos Christian Louboutin.

Desde 2009, o governo Kirchner aplica fortes barreiras contra os produtos provenientes do exterior, inclusive do Brasil, seu principal sócio do Mercosul. No ano passado, a Casa Rosada - o palácio presidencial - ordenou uma intensificação das barreiras. Nesse cenário, introduzir um produto importado no país tornou-se uma tarefa digna de Hércules.

No cotidiano, os argentinos - ao contrário da classe política - precisaram nos últimos tempos resignar-se à compra de produtos feitos na Argentina que substituam - mal ou bem, mais baratos ou mais caros - os produtos provenientes do exterior.

A falta de produtos gerou um boom de comentários no Twitter. No #Falta, os consumidores argentinos reclamam da ausência de diversos produtos nos comércios do país.

Nos últimos meses, tornaram-se uma raridade na Argentina os mais diferentes tipos de produto, como telefones BlackBerry, fraldas (além do gel para fabricá-las), agulhas para extração de sangue de bebês, líquido para revelação de raios X, discos duros para notebooks, peças para aparelhos de tomografia, máquinas para tratamento de madeiras, peças para câmeras fotográficas, entre outros.

A ausência de pneus importados, segundo fontes da Polícia Federal na capital, Buenos Aires, provocou uma peculiar alteração no comportamento dos delinquentes, já que agora, em vez de roubar carros, roubam primordialmente os valiosos e escassos pneus.

Barreiras. Ao longo dos últimos anos, o governo Kirchner usou de forma maciça as licenças não automáticas de importação, em boa parte dos casos, liberando os produtos depois de 180 dias de espera na alfândega, prazo superior ao permitido pelas regras da Organização Mundial de Comércio (OMC). Além disso, autoridades ameaçavam os empresários com a retenção de produtos na fronteira em conversas por telefone.

Desde novembro passado, os importadores precisam apresentar, de forma prévia ao pedido de importação, toda a documentação bancária envolvida na transação para ser analisada pela Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip), denominação da Receita Federal na Argentina.

A situação, que já era complicada para os importadores, agravou-se no dia 1.º de fevereiro deste ano, quando o governo Kirchner começou a aplicar a resolução número 3.252 da Afip, determinando que todas as empresas que desejem importar produtos do exterior deverão apresentar um relatório detalhado ao organismo de arrecadação tributária e outros organismos do governo, denominado de "Declaração Juramentada Antecipada de Importação".

No entanto, a apresentação dessa declaração não é suficiente para importar, já que o empresário precisa esperar pela resposta positiva - ou negativa - do governo argentino sobre o pedido, sem prazo de tempo definido.

As restrições provocaram uma queda de 8% nas importações da Argentina em março comparado com o mesmo mês do ano passado, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

Espécie em extinção. Os ferros de passar e os liquidificadores quase desapareceram das vitrines das lojas de eletrodomésticos na Argentina. Desde dezembro, milhares de argentinos atravessam o Rio da Prata para comprar ferros e outros produtos no Uruguai.

Durante o verão, as vendas de eletrodomésticos em Montevidéu, Colônia e Punta del Este cresceram cerca de 20% graças aos compradores argentinos, que não encontravam os aparelhos em seu país.

"Quem tem um ferro deve cuidar dele como se fosse o vaso de cristal herdado da avó", disse Petrona Aguirre, dona de casa que mora no bairro de Caballito. "Várias amigas cujos ferros quebraram tiveram de comprar de segunda mão", explica.

Segundo Diego Noriega, diretor da Alamaula.com, companhia do eBay, a demanda de eletrodomésticos usados aumentou em 1.200% desde dezembro na Argentina. "Por causa das barreiras na alfândega, ferros e liquidificadores tiveram um aumento enorme na demanda. E esta é muito maior que a oferta."

"Ia trazer um liquidificador do Brasil. Mas lembrei que a voltagem aqui é 220 e desisti", relata ao Estado Lívia Stevaux, estudante brasileira que reside na Argentina desde 2006. "Tinha um liquidificador antes, mas acabou quebrando quando fui fazer mousse de maracujá e não travei bem. Resultado: leite condensado por todo o motor do coitado. O liquidificador que estava usando era emprestado." Depois, lamenta: "Já tive de devolver o aparelho".

Lívia possui um ferro de passar roupa que cuida com extrema delicadeza. Com ironia, comenta: "O bom das barreiras nas importações é que me fizeram ver meus eletrodomésticos quase como um animal de estimação, que merecem todo o carinho e amor."

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