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Barreiras argentinas afetam exportações brasileiras

Participação brasileira no mercado de têxteis, por exemplo, caiu de 25,4% para 22,9% em 2013

Marina Guimarães, correspondente da Agência Estado,

11 de março de 2014 | 18h44

BUENOS AIRES - As barreiras comerciais adotadas pela Argentina nos últimos anos têm produzindo forte impacto nas exportações do Brasil e reduzido sua presença em vários segmentos. A participação brasileira no mercado argentino de têxteis, por exemplo, caiu de 25,4% a 22,9%, em 2013, enquanto a presença dos países asiáticos aumentou de 45% a 49% no mesmo período, conforme levantamento realizado pela consultoria Investigações Econômicas Setoriais (IES).

"Esta é uma tendência que observamos, progressivamente, desde 2008", disse ao Broadcast o analista Alejandro Ovando, diretor da IES. Segundo ele, o Brasil vem perdendo participação nos segmentos de cama, mesa, banho, especialmente, e de toda a cadeia do setor têxtil. As importações argentinas de têxteis cresceram, em valores, de US$ 600 milhões a US$ 1,533 bilhão, entre 2003 a 2013. Em termos de participação nesse mercado, em 2003, os produtos brasileiros detinham uma fatia de 35%, enquanto os asiáticos respondiam por 25%.

Com os calçados aconteceu o mesmo, segundo explicou Ovando, que estudou o setor a partir de 2008, quando Cristina Kirchner assumiu o primeiro mandato de quatro anos ao governo e reforçou substancialmente as barreiras. Até então, o governo costumava administrar o comércio por meio de licenças não automáticas e "acordo de cavalheiros" entre os fabricantes de ambos os países para limitar o volume de importação argentina nos setores denominados "sensíveis" (têxteis, calçados, linha branca de eletrodomésticos, autopeças, entre outros).

Com a chegada da atual presidente ao poder, surgiram uma série de medidas não escritas para limitar a entrada de produtos importados, até chegar às Declarações Juramentadas Antecipadas de Importação (DJAI), em fevereiro de 2012, que implicou em exigência generalizada de licenças para a importação.

Em 2008, os argentinos importavam 32 milhões de pares de calçados, que baixaram a 19 milhões de pares, em 2013. No mesmo período de comparação, a participação do Brasil recuou de 58% a 46%, enquanto a China subiu de 12% a 20%. "O que o Brasil perde, a China soma", ilustrou Ovando.

No caso dos eletrodomésticos, de maneira geral, o Brasil foi o mais prejudicado, atesta o analista. Em 2008, o país importava US$ 896 milhões, quantia que baixou a US$ 470 milhões em 2013. A participação do Brasil, que era de 31%, baixou a 23%, enquanto a chinesa se manteve estável em 38,5%. "Neste setor, as barreiras fomentaram a importação de peças e componentes para a montagem na Zona Franca de Tierra Del Fuego, e a China saiu ganhando porque é mais competitiva e agressiva na exportação destes itens", comentou o analista.

A importação de componentes para a Zona Franca atingiu a cifra de US$ 12 bilhões no ano passado, quase o mesmo volume requerido pelo setor energético. "Para o país não é negócio porque está dando incentivos fiscais para montar celulares, aparelhos de TV e outros, sob o argumento de substituição de importações, mas as peças são todas de fora", apontou.

Ovando também ressaltou as vantagens da China sobre o Brasil no comercio total de bens com a Argentina. "Em 2013, o intercâmbio total bilateral entre Argentina e Brasil teve saldo favorável brasileiro de US$ 3,621 bilhões contra um saldo positivo da China de US$ 5,567 bilhões", disse ele. No último mês, enquanto o saldo comercial do Brasil com a Argentina foi de US$ 363 milhões, o da China atingiu US$ 900 milhões.

Para o analista, os resultados negativos da balança comercial brasileira em geral obrigam o País a negociar com a Argentina uma solução para melhorar o fluxo bilateral do comercio. "Para o Brasil, as barreiras argentinas são bastante preocupante e o governo brasileiro vai terminar acabando com a política branda em relação à Argentina", opinou.

Neste cenário, Ovando acredita que a proposta de realizar os pagamentos de comercio exterior com moedas locais pode dar certo para os setores, cujas empresas são complementárias, como as do setor automotivo. Porém, considera que os setores sensíveis, os problemas devem continuar. A medida já foi adotada em 2008, durante a crise das hipotecas norte-americanas, mas a adesão das empresas foi baixa.

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