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''Barril a US$ 150 traria período de estagflação''

À frente do Pimco, o maior fundo de investimentos do mundo, com US$ 1,24 trilhão em ativos no final de 2010, Mohamed El-Erian está exultante com os recentes acontecimentos no Egito, mas preocupado com os efeitos da alta do petróleo na economia global.

Fernando Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Cidadão egípcio (e também americano e francês), El-Erian se diz "incrivelmente orgulhoso" pela forma pacífica como o povo do país derrubou a ditadura instalada há décadas. No front econômico, porém, ele acha que a alta do petróleo pode trazer um novo período de estagflação à Europa e aos Estados Unidos, como nos anos 70.

Para que isso ocorra, na sua opinião, o petróleo tem de se sustentar no nível atingido em julho de 2008, próximo a US$ 150 o barril, o que depende de a crise política se espalhar para muitos outros países produtores de petróleo. Mas, mesmo com o nível atual (o brent fechou a US$ 112 na sexta), El-Erian já vê "ventos inflacionários, mas não um tsunami".

O economista e financista foi entrevistado pelo Estado, por meio de troca de e-mails, da Califórnia, onde fica a sede do Pimco.

Por que o sr. diz que os acontecimentos recentes no Oriente Médio e Norte da África são um choque estagflacionário?

Esses eventos, e especialmente a forte alta no preço do petróleo, representam ventos estagflacionários para as economias avançadas. Eles vão reduzir o crescimento e aumentar as pressões inflacionária em relação ao que aconteceria se nada tivesse ocorrido. A extensão do impacto vai depender do tamanho e da duração da alta do preço do petróleo. Com o barril a US$ 100, os ventos estagflacionários não são fortes o suficiente para se traduzir numa estagflação aberta, como a que foi vista em meados dos anos 70. O cenário seria outro se os preços do petróleo subissem para os níveis experimentados em julho de 2008, logo antes da crise financeira global. Porém, para que uma alta dessa dimensão se materializasse, seria preciso que as turbulências no Oriente Médio e Norte da África se espalhassem por diversos outros países.

Mas, se o preço do petróleo voltar ao nível de meados de 2008, temos risco de crise como nos anos 70?

Se voltarmos para o nível próximo de US$ 150 o barril que vimos naquele momento, os riscos de um período estagflacionário aumentariam significativamente.

Como a alta do petróleo pode afetar a recuperação americana e os problemas enfrentados pela Europa?

Ela vai desacelerar, mas não eliminar o crescimento da demanda americana, em função tanto de efeitos nas famílias quanto nas empresas. As famílias terão menos renda disponível para usar em gastos discricionários. E uma grande parte do gasto adicional em petróleo fluirá para outros países. As empresas vão enfrentar preços mais altos de insumos que se traduzirão numa combinação de preços finais mais altos e margens de lucros mais baixas. Se for sustentado, esse efeito pode também limitar o entusiasmo por aumentar as contratações. Na Europa, o choque dos preços do petróleo vai aumentar os já consideráveis desafios enfrentados por alguns dos países periféricos, particularmente Grécia, Irlanda e Portugal. Neles, os efeitos na demanda e na produção são acentuados pela gradual pressão sobre a já frágil situação orçamentária.

Mas a Europa parece um pouco melhor agora. O pior já passou?

Sim e não. Sim, no sentido de que o risco de contágio para países maiores, como Espanha e Itália, foi reduzido pelas ações tomadas nestes países. Este é particularmente o caso da Espanha, onde importantes passos foram tomados para reforçar o sistema financeiro, inclusive forçando as Cajas (bancos de poupança espanhóis) a levantarem capital, fundirem-se ou, em último caso, serem nacionalizadas. Se isso for feito de maneira correta, a Espanha pode evitar ter as suas finanças públicas contaminadas pelo resgate de outros setores (da economia do país). Em outras palavras, a Espanha não é a Grécia, e não precisa ser a Irlanda. Mas, voltando à sua pergunta, a resposta, por outro lado, é não, porque ainda falta lidar de maneira apropriada com Grécia, Irlanda e Portugal, e de uma forma que seja sustentável, para atacar o duplo problema de uma grande rescaldo de endividamento e perspectivas ruins de crescimento. A abordagem de política econômica, que tem sido a de empilhar novas dívidas em cima da dívida antiga, simplesmente toca o problema com a barriga. Desse jeito, a calma atual não deve durar muito.

E qual deve ser o impacto da alta do petróleo em grandes economias emergentes com risco de sobreaquecimento, como China, Brasil e Índia?

Considerando suas condições iniciais relativamente fortes, essas economias emergentes com importância sistêmica estão bem colocadas em relação aos desafios de um panorama global mais incerto. Elas têm colchões de reservas mais do que adequados. Elas também têm flexibilidade em termos de política econômica, e as autoridades econômicas parecem ter os riscos no seu foco. É importante notar ainda que alguns países estão se beneficiando pela alta intensa dos preços das commodities. E são países não só do mundo emergente, mas também das nações industrializadas. Pense na Austrália, no Canadá e na Noruega. Isso reflete um tema importante que ainda não ganhou destaque: nós vamos provavelmente assistir muito mais diferenciação (entre países) daqui para a frente.

Como o sr. vê as perspectivas do Brasil? Considera que há risco de sobreaquecimento?

Nós continuamos otimistas sobre as perspectivas do Brasil. Vemos o país firmemente na trilha de crescimento estrutural, criação de empregos, alívio da pobreza e solidez financeira. Pela sua própria natureza, esse processo incluirá algumas trepidações. O risco de superaquecimento no curto prazo é um deles. Nesse sentido, estamos encorajados pelos passos tomados recentemente pelo governo para reforçar a situação fiscal. Isso é chave para garantir que, mantendo-se a estabilidade macroeconômica, a política monetária não seja sobrecarregada e a taxa de câmbio não se valorize demais.

Como investidor, o sr. ainda considera o Brasil uma boa compra?

Sim, consideramos.

Como o sr. se sente pessoalmente, como cidadão egípcio, com a queda da ditadura no país? Está otimista com o futuro?

Estou muito, muito orgulhoso da revolução pacífica egípcia. Como ( o jornalista) Tom Friedman do New York Times colocou, essa foi uma revolução "no Egito, (feita) pelo Egito e para o Egito". Eu sinto afinidade com o Egito e sou incrivelmente orgulhoso da minha herança egípcia. Nos 18 dias que levaram à mudança de regime, eu experimentei todo um arco de emoções. De admiração incrível, orgulho e excitamento pela forma como o povo egípcio foi para as ruas pacificamente por um futuro melhor, à aversão e uma grande tristeza pela violência infligida pelos capangas do velho regime. De alegria por uma revolução bem-sucedida que envolveu pessoas de todas as idades e religiões, e que não requereu nem precisou de assistência estrangeira, à preocupação construtiva sobre o que virá agora na nova trilha do Egito em direção à maior democracia e liberdades individuais.

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