Ryan Rayburn/IMF Photo
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Barry Eichengreen: Outro período de dificuldades para os mercados emergentes?

O governo Bolsonaro ainda tem de mostrar que vai evitar o dano de políticas populistas desestabilizadoras

Barry Eichengreen, O Estado de S. Paulo

30 de dezembro de 2018 | 05h00

Quais são as perspectivas para os mercados emergentes em 2019? Se alguém fizesse essa pergunta em setembro passado, a resposta seria calamitosa. A inflação na Turquia havia subido para 18% e a lira estava à beira do colapso. A África do Sul havia entrado em recessão e o Banco Central da Argentina elevado sua taxa básica de juros para 60%. A rupia indonésia havia caído para seu nível mais baixo em relação ao dólar em duas décadas, enquanto a rupia indiana estava sob intensa pressão de venda. A preocupação era que esses problemas infectariam os mercados emergentes como uma categoria, incluindo o Brasil.

Agora, à medida que entramos em 2019, os mercados emergentes parecem ter navegado com sucesso por essa difícil fase. Bancos centrais, da Indonésia ao México, aumentaram as taxas de juros, resultando em fuga de capitais. Na verdade, taxas de juros mais elevadas são um empecilho para os lucros das empresas, como refletido na queda de 20% do Índice MSCI Emerging Market em relação aos seus níveis iniciais de 2018. Ainda assim, a boa notícia é que se evitou a crise generalizada que pairava no ar no verão passado.

Mas isso não significa que as economias emergentes estão fora de perigo. Claramente, o ambiente externo está se deteriorando. O crescimento econômico dos EUA está desacelerando. As condições econômicas estão se tornando mais apertadas e o mercado imobiliário está visivelmente esfriando, à medida que os compradores hesitam frente a taxas mais elevadas de hipotecas. Os preços dos imóveis ainda não caíram muito, mas deve-se esperar por isso. O padrão normal é que as vendas caiam primeiro e que os proprietários anunciem os preços mais baixos com algum atraso.

Depois, há o impacto negativo na confiança empresarial pelas políticas comerciais de Trump. Isso ainda não apareceu no investimento em ativos fixos ou na produção de bens de capital. Mas há uma divergência extraordinariamente grande entre as avaliações dos gerentes de compras sobre as condições de negócios atuais e suas expectativas para daqui a seis meses, sugerindo que essa incerteza está prestes a mostrar seus efeitos negativos.

A debilidade da zona do euro no terceiro trimestre de 2018, quando o PIB regional cresceu apenas 0,7%, foi impulsionada (por assim dizer) por problemas no setor de automóveis decorrentes de novos padrões de emissões, pelo escândalo do diesel da Volkswagen e pelas possíveis tarifas sobre veículos nos EUA. Mas, agora, a tendência de crescimento subjacente está desacelerando. A Itália está se contraindo à medida que as tensões se acumulam com a Comissão Europeia e aumentam os spreads sobre títulos do governo. A incerteza sobre o final do jogo Brexit, embora tenha peso maior na Grã-Bretanha, não é útil para a economia europeia como um todo.

A China é o único ponto brilhante. Os formuladores de políticas do país aumentaram os gastos em infraestrutura, levando a uma leve recuperação na produção industrial. Eles sinalizaram sua intenção de cortar impostos sobre a renda, valor agregado e tributos sobre a previdência social, e os observadores esperam dois cortes adicionais de 100 pontos-base nas exigências de reservas bancárias nos próximos 12 meses.

Isso significa que o aguardado reequilíbrio da economia, longe da infraestrutura e da dívida corporativa, permanecerá em suspenso por enquanto. Mas isso também significa que os formuladores de políticas atingirão sua meta de crescimento em 2019, ligeiramente acima de 6%, mesmo que a China esteja sujeita a tarifas adicionais nos EUA. A expansão contínua da China é uma boa notícia, e claro, para mercados emergentes como o Brasil, que se beneficiam de sua forte demanda por commodities.

Como os mercados emergentes devem reagir ao que é, no geral, um ambiente externo fraco? A principal coisa que eles podem fazer é evitar ferimentos autoinfligidos.

O governo da Argentina essencialmente trouxe a crise para si mesmo, ao pressionar o Banco Central a cortar as taxas de juros em janeiro passado, apesar de uma taxa de inflação de 25%. O presidente turco, Tayyip Erdogan, precipitou a crise de seu país ao questionar a independência do Banco Central. Os problemas da rupia são da mesma forma atribuíveis ao governo de Modi, que interferiu nos esforços do Banco Central indiano para resolver problemas no sistema bancário e financeiro do país.

Políticos, sejam ou não de inclinações populistas, e de esquerda ou direita, parecem ter internalizado as lições. Os dois nomeados de Andres Manuel Lopez Obrador para o comitê de política monetária do Banco do México dão apoio à independência do Banco Central. No período que antecedeu sua vitória eleitoral no dia 28 de outubro, Jair Bolsonaro propôs o fortalecimento da independência do BC, eliminando a capacidade do presidente de remover o presidente e os diretores do banco a qualquer momento.

O novo governo Bolsonaro ainda tem de mostrar que vai evitar o dano autoinfligido de políticas populistas desestabilizadoras.

Bolsonaro promete cortar impostos, em um clássico movimento populista. A ideia é que os cortes nos gastos públicos, com foco na seguridade social e na reforma previdenciária, sejam adotados em breve, enquadrando o círculo orçamentário. Mas, como qualquer observador do cenário brasileiro sabe, o amplo apoio político a essas medidas está longe de estar garantido. Michel Temer também tentou fazer a reforma previdenciária, mas fracassou. As receitas de privatização e as economias administrativas devem preencher a lacuna fiscal, mas a história mostrou que estas se materializam lentamente, se é que chegam a fazê-lo. Para um país cuja dívida pública é perigosamente alta, essa é uma perspectiva preocupante.

Mesmo que Bolsonaro tenha sucesso em fazer cortes profundos nos gastos públicos, evitando assim um aumento prejudicial no déficit orçamentário, estes ainda seriam desestabilizadores. Cortes severos nos gastos sociais irritariam a esquerda. Eles seriam politicamente polarizadores e trariam fracos augúrios para a democracia brasileira. O Brasil precisa se unir, após uma eleição tão dividida e circunstâncias externas cada vez mais difíceis.

O País precisa de políticas inclusivas, não de cortes de impostos para poucos e cortes de aposentadoria para muitos. Por razões de solidariedade social e crescimento, precisa de mais gastos com saúde e educação. Se Bolsonaro e seu gabinete conseguirão ou não, é algo que nós descobriremos em breve. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY

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