Base sindical no ABC é a maior em 15 anos

Geração que não viveu sob a ditadura e com maior grau de escolaridade reforça o Sindicato do ABC, agora ligado ao poder

Marcelo Rehder, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Os metalúrgicos do ABC paulista já somam 100,8 mil trabalhadores na base sindical de São Bernardo do Campo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Só no primeiro semestre, 3,5 mil metalúrgicos foram contratados pelas empresas na região. O número de postos de trabalho já colou no recorde de 102,9 mil vagas registrado em 2008, antes de encolher no ano passado, por causa da crise. Mantido o ritmo atual, o número de 2010 será o maior em 15 anos.

A base sindical da região, que parecia minguar nos anos 80 e 90, voltou a crescer e o perfil dos sindicalistas e dos trabalhadores que formam o sindicato mais importante do Brasil mudou radicalmente. Hoje, ele é muito diferente dos tempos em que Lula comandou as greves históricas contra o regime militar e o arrocho salarial no fim dos anos 70 e início dos 80.

A marca é ainda mais relevante porque, nas últimas décadas, todas as montadoras e autopeças investiram na modernização das fábricas e no aumento de produtividade. Além disso, para fugir do custo elevado da mão de obra no ABC, algumas montadoras instalaram novas fábricas em outros Estados, enquanto outras empresas deixaram a região.

Tanto que boa parte dos analistas do setor automotivo duvidava que as montadoras continuariam no ABC. Eles argumentavam que as fábricas eram muito antigas, não tinham como fazer a transição para os padrões modernos de produção, e que o sindicato dos metalúrgicos era muito forte e iria resistir.

"A negociação coletiva é que resolveu o problema", diz o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sergio Nobre. "Foi a criatividade dos trabalhadores e a negociação que tornaram essas empresas uma referência mundial em termos de produtividade."

Agora, o emprego volta a crescer porque as empresas pegaram carona na expansão da economia desencadeada pelos incentivos fiscais promovidos pela política anticrise do governo federal. "A recuperação começou quando o governo trouxe para si a responsabilidade de ser o indutor do desenvolvimento brasileiro", diz Nobre.

Pressão sindical. O negociador profissional Drausio Rangel, que atua no lado dos sindicatos patronais há 50 anos, vê o dedo sindical nas medidas anticíclicas adotadas pelo governo para manter o consumo aquecido no período mais duro da crise mundial.

"A gente sabe que teve a força de uma pressão do movimento sindical sobre o governo, porque tudo isso gera empregos", diz Rangel. O setor mais beneficiado foi o automotivo, principal motor da economia do ABC.

O fato é que o sindicalismo deve muito a Lula. Nunca tantos sindicalistas exerceram tantos cargos e tiveram tanta influência no governo como no Brasil atual. Para o professor titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ricardo Amorim, isso torna o sindicalismo do ABC mais burocrático e institucionalizado do que no passado.

"O sindicalismo do ABC, que na sua origem tanto criticou a velha CGT (Central Geral dos Trabalhadores) e o sindicalismo que tinha relação política com o presidente Getúlio Vargas e com o governo João Goulart, hoje tem um vínculo muito forte com o Estado", diz o professor.

Amorim ressalta ainda que o sindicalismo de confronto que existiu na época do regime militar deu lugar a um sindicalismo negocial. "Não é mais de confronto, porque os sindicalistas reconhecem uma parceria capital-trabalho, onde os trabalhadores ganham na medida em que as empresas ganham."

"Eu não vejo diferença", rebate o deputado federal Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT-SP), ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. "Uma coisa é a luta contra a ditadura, e outra é viver num período de democracia", argumenta.

Renovação. Não apenas as relações sindicais evoluíram no ABC, como também mudou o perfil dos metalúrgicos. Quase 30% dos profissionais têm hoje entre 18 e 29 anos, segundo um levantamento da subseção do Departamento de Estatística e Estudos Intersindicais (Dieese) no Sindicato.

Isso significa quase um terço da categoria dominada por uma geração que não cresceu no contexto do regime militar. Foi naquela época que surgiram as grande lideranças sindicais da região, começando por Luiz Inácio Lula da Silva.

Depois vieram Jair Meneguelli, Vicentinho e Luiz Marinho. Todos foram presidentes do Sindicato dos Metalúrgicos e hoje estão no poder - no Executivo e no Legislativo.

Além disso, no espaço de dez anos, a escolaridade deu um salto de qualidade. Em 2006, dado mais recente do Dieese, 40,9% da categoria tinha ao menos o segundo grau completo, contra 13,5% em 1996. O número de trabalhadores com ensino superior também subiu, de 8% para 14%.

"Hoje, há no ABC paulista um trabalhador jovem que é incentivado a fazer universidade e a aprender inglês para poder ter domínio maior das informações tecnológicas das novas máquinas, que são mais informatizadas", comenta o professor Ricardo Amorim.

O exemplo vem do próprio presidente do sindicato. Com 45 anos, Sergio Nobre concluiu o curso universitário de relações internacionais no ano passado. E tem planos de fazer pós-graduação na mesma área em 2011. No mês que vem, a nova geração de metalúrgicos do ABC vai participar d a realização de um sonho de mais de 23 anos de luta da categoria. O sindicato e a Fundação Sociedade, Comunicação, Cultura e Trabalho vão colocar no ar a primeira emissora de televisão do trabalhador. A TVT será transmitida pelo canal 46 UHF-Mogi das Cruzes.

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