Basileia 3 deve afetar crédito, alerta BNDES

Representante do banco participou de encontro com os maiores bancos do mundo, que veem ameaça a financiamentos para o comércio exterior

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

A entrada em vigor do acordo da Basileia 3 poderá afetar diretamente a capacidade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e dos demais bancos de garantir linhas de crédito para exportação de produtos de alto valor agregado. O alerta foi feito ontem pela superintendente de Comércio Exterior do BNDES, Luciene Ferreira Machado, que representou o banco em um encontro a portas fechadas em Genebra.

A instituição foi uma das poucas convidadas a participar de um encontro em Genebra com os maiores bancos do mundo, exatamente para tratar da questão do financiamento ao comércio. Só o BNDES, que terá de seguir as regras do acordo da Basileia 3, calcula que precisaria manter reservas imobilizadas de no mínimo US$ 400 milhões por ano para cumprir as novas exigências da regulamentação, apenas para manter suas atuais operações. O valor do capital imobilizado, porém, poderia eventualmente chegar a US$ 4 bilhão, dependendo ainda das negociações internacionais e de como cada país adotará as regras.

"A preocupação dos bancos é muito grande", disse Luciene que representou o BNDES no evento. Além do banco brasileiro, estavam no encontro o Citibank, JPMorgan, Commerzbank, HSBC, BNP, Royal Bank of Scotland e outros gigantes. Para esses bancos, a nova regulamentação ameaça encarecer as operações de comércio exterior.

Com a eclosão da crise em 2008, uma das primeiras vítimas foi o crédito à exportação. Países como o Brasil sofreram uma seca de empréstimos de bancos internacionais para realizar as operações. Rapidamente, o Itamaraty levou o caso à cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC) diante do potencial de estrago que poderia ocorrer.

Mas os bancos alertam que os riscos agora são outros. O principal é a entrada em vigor do acordo da Basileia 3. O entendimento foi fechado há apenas um mês entre os BCs do mundo, estabelecendo novas exigências de capitais para os bancos comerciais. A ideia é obrigar bancos a manter recursos em caixa para, em épocas de crise, não terem de recorrer ao dinheiro público para se salvar, como em 2008 e 2009. Para especialistas, o acordo é a única reforma substancial feita pelos governos no setor financeiro desde a pior crise em 70 anos, criada exatamente pelos bancos.

Impacto. O problema, segundo o BNDES, é que o acordo tem o potencial de afetar o comércio. Linhas de crédito foram equiparadas às operações com derivativos, o que significa que os bancos deverão ter em caixa o equivalente a pelo menos 10% dos empréstimos às exportações.

"No caso do BNDES, nossas operações com comércio exterior variam de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões", disse Luciene, referindo-se ao Fundo de Garantia ao Exportador. Se a exigência mínima for estabelecida, seria necessário encontrar até US$ 400 milhões em reservas para cobrir os empréstimos.

Pelo acordo, a exigência poderia variar entre 10% e 100% do valor do empréstimo para exportações, algo que ainda está em negociação e que cada governo nacional adotará de uma forma. Na prática, se agências reguladoras têm o direito de exigir até 100%, só o BNDES teria de cobrir suas transações em US$ 4 bilhões em capital imobilizado.

Os bancos internacionais têm avaliação semelhante à do BNDES em relação ao acordo da Basileia 3. Alegam que créditos a exportação não podem ser tratados dessa forma, já que os riscos que representam são mínimos. Recente estudo elaborado por grupos asiáticos apontou que apenas 0,002% dos contratos de créditos de exportação resultam em inadimplência.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.