Wilson Dias/Agência Brasil - 12/2/2020
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Bastidores: Após Moro, Guedes pode ser 'bola da vez' e é alvo de bolsonaristas por visão fiscalista

Diagnóstico é de auxiliares do próprio ministro e também do mercado financeiro; Guedes é contra a ideia de estimular obras públicas para alavancar o crescimento

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 13h27

BRASÍLIA - A saída do ministro da Justiça, Sérgio Moro, com acusações graves contra o presidente Jair Bolsonaro, aumentará a pressão sobre o ministro da Economia, Paulo Guedes. O diagnóstico é de auxiliares do próprio ministro.

No mercado financeiro, a avaliação é que Guedes pode ser a próxima “bola da vez”.  Antes da saída de Moro, Guedes já tinha alertado o chefe de que o seu governo poderia cometer os mesmos erros de governos petistas na economia com o plano de obras públicas para alavancar o crescimento.  

Com a resistência do ministro aos planos “desenvolvimentistas” do presidente, bolsonaristas querem impor ao “Posto Ipiranga” a pecha de "inimigo dos pobres".

Depois do ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta e de Moro, Guedes entrou no processo de “fritura” deflagrado por uma ala do governo por insistir no discurso de manutenção da sua política de ajuste fiscal na fase pós-pandemia. O presidente, como mostrou o Estado, está disposto a fazer um “cavalo de pau” no seu governo.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, integrantes da Casa Civil e auxiliares diretos do presidente têm reclamado da “visão fiscalista” do Ministério da Economia e da falta de um contraponto econômico dentro do governo, como havia antes da criação do superministério sob a alçada de Guedes.

A unificação dos ministérios da Fazenda e do Planejamento, entre outras áreas da economia do governo, foi uma das condições para que Guedes aceitasse o convite de Bolsonaro para compor o governo. Hoje, porém, o diagnóstico no Planalto é que o desenho concentrou um poder muito grande nas mãos de um único ministro, sem que haja contraponto às suas visões. Quando um parlamentar quer emplacar um projeto, é a Economia que detém os números.

No passado, Fazenda e Planejamento já protagonizaram embates históricos por suas visões distintas sobre a direção da política econômica. Segundo uma fonte ouvida pela reportagem, Guedes não aceitaria uma mudança nessa linha.

A avaliação, porém, é de que caso o presidente atenda às pressões e faça de fato esse movimento de fatiar a Economia, não seria agora porque o impacto seria muito ruim num momento em que a atividade e a confiança dos investidores já penam sob os efeitos da pandemia.

As negociações de Bolsonaro com o bloco de partidos do Centrão, no entanto, tem fortalecido essa pressão, com o PTB querendo recriar o Ministério do Trabalho, pasta historicamente comandada pela legenda.

Embate

O embate entre as visões econômicas dentro do governo foi escancarado publicamente com o Plano Pró-Brasil, que em um de seus eixos prevê dinheiro público para bancar obras em infraestrutura. Guedes alertou Bolsonaro que ele pode cometer o erro do governo petista, o que piorou o clima.

A interlocutores, o ministro da Economia chama o programa de “PAC do Marinho”, numa crítica ao ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, um dos entusiastas do plano.

O ministro reagiu nos bastidores com artilharia contra Marinho, um ex-subordinado considerado por ele “desleal” ao incentivar Bolsonaro a ir à frente com o plano. A equipe econômica ficou de fora do debate interno, até mesmo por discordar de sua direção.

Guedes considera Marinho desleal, mas não os militares. “Inimigos são pautas-bombas. Desarmei a do Maia-governadores (presidente da Câmara, Rodrigo Maia) acionando o Alcolumbre (Davi Alcolumbre, presidente do Senado)”, disse Guedes a um interlocutor, em referência ao projeto de socorro a Estados e municípios. 

Na avaliação do ministro e da sua equipe, o plano acabou disparando expectativas adversas de uma pauta bomba fiscal.

O sinal de alerta mais contundente da fritura sentido pela equipe de Guedes foi visto em reportagem da TV Record, empresa com fortes vínculos ao bolsonarismo, que acusa o ministro de cinco erros sem explicitar os problemas. 

Outro sinal muito comum em Brasília, quando um presidente quer esvaziar um ministro, é não incluí-lo na agenda. Hoje, Guedes ficou de fora de uma agenda que tinha os ministros Marinho e de Infraestrutura, dois dos articuladores do Pró-Brasil. Nomes para substituir o ministro no cargo já estão na praça, entre eles o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e o próprio Marinho.

Foco

Apesar do “fogo amigo” dos últimos dias, em reunião hoje com equipe, Guedes transmitiu tranquilidade e foco nas ações da crise. O tema da reunião foi a ação do governo para destravar crédito, segundo diversos relatos de participantes da reunião. A reunião com a equipe foi antes da entrevista bombástica de Moro. 

Apesar da avaliação de que poderá haver mais pressão dos bolsonaristas contra o ministro, integrantes da equipe de Guedes, ouvidos pela reportagem não acreditam que o ministro deixará o governo Bolsonaro, seguindo Moro que também sofreu com os ataques dos aliados do presidente. Guedes almoçou hoje com o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, e outros ministros.

A avaliação do ministro e de sua equipe é que já houve uma revisão do discurso em torno do plano Pró-Brasil, motivo da discórdia com a ala militar do Palácio do Planalto e os ministros de Infraestrutura e de Desenvolvimento Regional. As últimas declarações do ministro Tarcísio foram vistas como positivas na direção de um alinhamento.

 

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