Alan Santos/ PR
Jair Bolsonaro, presidente da República, e André Brandão, presidente do Banco do Brasil Alan Santos/ PR

Bastidores: Rusgas de Bolsonaro com presidente do BB envolvem indicação e show do Seu Jorge

Em dezembro, o BB contratou Seu Jorge para fazer uma live para os funcionários do banco; ideólogos do governo criaram a maior confusão e reclamaram com o presidente, dizendo que cantor é ligado à esquerda

Tânia Monteiro e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 15h27

BRASÍLIA - As rusgas do presidente Jair Bolsonaro com o presidente do Banco do Brasil, André Brandão, começaram lá atrás. A relação entre os dois já nasceu torta. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, indicou Brandão para o BB e consultou o ministro da Economia, Paulo Guedes, que endossou o nome. 

A indicação, porém, não foi validada amplamente pelo presidente Jair Bolsonaro. Isso criou um problema à época, o que deixou o presidente Bolsonaro incomodado porque os dois - Guedes e Campos Neto - já tinham decidido pelo nome antes de ele bater o martelo. Caso quisesse, porém, o presidente poderia ter vetado o nome. 

Para piorar a situação, em dezembro, o BB contratou Seu Jorge para fazer uma live para os funcionários do banco, no dia 5 de dezembro. Os ideólogos do governo criaram a maior confusão e reclamaram com o presidente, dizendo que Seu Jorge é ligado à esquerda e que o banco público contratar o cantor  era um absurdo. O presidente concordou com as críticas e "anotou no caderninho”.

O presidente e essa ala radical do governo alegam que o BB continua “tomado pelos petistas” e que a atual direção, assim como a anterior, nada fez para atuar na troca desses executivos que seriam ligados à esquerda e continuariam com poder no banco.

A decisão de Brandão de fechar agências sem que o presidente fosse comunicado foi o estopim. Auxiliares garantem que o presidente só ficou sabendo das demissões e do fechamento de agências quando começaram a chegar as cobranças. Elas vieram, principalmente, de prefeitos e parlamentares que ligaram ou mandaram WhatsApp.

O presidente insistiu que quer ser informado dessas decisões com antecedência. E cobrou Guedes, que não teria lhe informado da reestruturação anunciada na segunda. No entanto, na escolha de Brandão, o presidente já tinha sido comunicado que o nome estava alinhado ao objetivo da equipe econômica de enxugar o banco e focar na digitalização e, em nenhum momento, se opôs. Para analistas de mercado, o plano do BB foi considerado, inclusive, tímido e atrasado. 

A avaliação no Palácio do Planalto é de que Bolsonaro pode até desistir de demitir o presidente do BB por temer como a ingerência política vai afetar a queda das ações do banco, mas exige que seja informado de tudo por conta do contexto das eleições na Câmara e no Senado. 

Para assessores do presidente, está evidente que não existe relação de confiança de Bolsonaro com o presidente do BB e que há um desgaste do ministro Paulo Guedes, que endossou o nome de Brandão lá atrás e agora entrou em campo para segurá-lo na presidência do BB. Ou seja, Guedes está gastando capital junto ao presidente.

Na conversa com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, Bolsonaro falou com o presidente sobre a situação do Brandão, e a cobrança maior foi no sentido de que ele precisa ser informado de uma decisão como essa de impacto social, político e econômico. O trabalho, agora, é para contornar a situação, para evitar um mal maior, na avaliação de assessores presidenciais.

Funcionários do BB também estão temerosos com o risco de o impasse em torno do plano de reestruturação do banco abrir a porteira para as indicações do “Centrão” no banco nesse momento em que compromissos estão sendo assumidos para a eleição do comando das presidências da Câmara e do Senado.  

Segundo apurou o Estadão, há uma avaliação entre os funcionários que faltou transparência, mas o risco maior é lotear os bancos com indicações políticas ou ideológicas. O diálogo entre os funcionários e o novo presidente do BB é considerado positivo, ao contrário da relação com o presidente anterior, Rubem Novaes.

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Presidente do BC entra em campo para demover Bolsonaro da decisão de demitir André Brandão do BB

Roberto Campos Neto alertou que a demissão seria avaliada como interferência política em uma empresa pública que tem ações na Bolsa

Tânia Monteiro e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 14h07

BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, entrou em campo para reverter a decisão do presidente Jair Bolsonaro de demitir André Brandão da presidência do Banco do Brasil

Campos Neto, que tem alta estima do presidente, o alertou de que uma demissão seria avaliada como interferência política em uma empresa pública que tem ações na Bolsa. Para substitui-lo um dos nomes cotados é o do atual vice-presidente corporativo Mauro Ribeiro Neto, que tem apoio da família Bolsonaro.

O presidente ficou indignado com a decisão de Brandão de anunciar o fechamento de agências e fazer PDV neste momento. Bolsonaro alega ter desconhecimento do plano.

O presidente pediu informações, segundo fontes do Palácio do Planalto. A interlocutores, Bolsonaro tem dito que não quer interferir em nada “como estão dizendo”, mas que precisa ter sensibilidade para no momento de pandemia não propor esse tipo de medidas. O fechamento de agências, principalmente no interior, é um problema político sério para Bolsonaro, que não quer esse ônus.

O presidente insiste que quer ser informado com antecedência, motivo de insatisfação com o Ministério da Economia, ainda mais de medidas que têm forte impacto sobre a opinião pública. O argumento é que o banco não pode só pensar no negócio. Campos Neto e o ministro da Economia, Paulo Guedes articularam essa movimentação. Campos Neto é um dos padrinhos de Brandão para o cargo. A saída de Brandão seria mais um grande derrota para a política de Guedes.

Mais uma vez a estratégia de comunicação “para dentro e fora do governo” foi considerada desastrosa nesse episódio e sem uma estratégia coordenada. Mais um episódio que fragiliza a posição do Ministério da Economia. No dia do anúncio, o ministério foi alertado por políticos do desgaste do fechamento das agências, principalmente pelo momento político.  

O último imbróglio foi com a demissão pelo presidente Bolsonaro do secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, depois que ele antecipou medidas em estudo de congelamento de aposentadorias e pensões.

A demissão foi revertida, mas a posição do secretário nunca mais foi a mesma e até hoje é fragilizada. Guedes evitou a demissão para não aumentar o desgaste do seu ministério e sua equipe. O mesmo ocorre agora com o presidente do BB. O afastamento de interferências políticas foi uma demanda do ministro anunciada ainda na transição de governo.  

Um integrante da equipe econômica reconhece que houve falhas na apresentação do plano de reestruturação num momento delicado para o governo, que busca apoio para o seu candidato na sucessão da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).

Na Câmara, o fechamento de agências sempre foi assunto sensível para os municípios e alvo de pressões. A pressão política por cargos do BB também aumentou, relatam fontes do Ministério da Economia. 

Mesmo com essa articulação para o presidente do BB permanecer no cargo, o problema não está resolvido. O Estadão apurou que Brandão não pretende abrir mão de fazer a reestruturação do banco, sem a qual não tem como apresentar resultados e reposicionar a BB para a nova realidade do mercado, uma orientação, inclusive, do ministro Guedes. 

O próprio presidente Bolsonaro volta e meia faz comparações entre o BB e Caixa, sempre a favor do banco comandado por Pedro Guimarães, um dos seus mais fiéis aliados. Situação que aumentou a tradicional rivalidade entre os dois bancos públicos.

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Bolsonaro evita responder sobre permanência de presidente do BB no cargo

Presidente decidiu demitir André Brandão pelo desgaste provocado com o anúncio de fechamento de 112 agências, com desligamento de 5 mil funcionários

Pedro Caramuru e Matheus de Souza, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 10h16

O presidente Jair Bolsonaro evitou responder à pergunta de um apoiador nesta manhã sobre a permanência do presidente do Banco do Brasil, André Brandão, no cargo. Em encontro com adeptos na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro disse estar com pressa, que não poderia "gravar" e pediu desculpas por ser breve.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, Bolsonaro decidiu demitir Brandão pelo desgaste provocado com o anúncio de fechamento de 112 agências, com desligamento de 5 mil funcionários do banco. O ministro da Economia, Paulo Guedes, entretanto, ainda tenta demovê-lo da ideia.

Apesar de a reestruturação do banco ter agradado investidores e a equipe econômica, o comunicado foi considerado inoportuno no momento em que o Executivo negocia apoio com parlamentares em troca de aliados nos comandos da Câmara e do Senado.

Além disso, o presidente se queixou de não ter tido conhecimento antes do plano, embora Brandão tenha sido contratado justamente com o objetivo de enxugar o banco e focar na área digital. / COLABORARAM ADRIANA FERNANDES E TÂNIA MONTEIRO

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