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Batata na Argentina é questão de Estado

Na tentativa de controlar a inflação e eleger sua mulher para sucedê-lo[br]na Casa Rosada, Néstor Kirchner explora politicamente a alta do produto

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2007 | 00h00

A batata tornou-se uma questão de Estado na Argentina. Ela tem ocupado a mesa de debates, é assunto da campanha eleitoral e tem tirado o sono do presidente Néstor Kirchner, que dedicou várias horas de sua agenda ao preço das batatas. Kirchner - que costuma ignorar reuniões com presidentes de multinacionais e esnobar lideranças empresariais -, acompanhado do ministro da Economia, Miguel Peirano, e de vários secretários de Estado, reuniu-se com produtores e comerciantes de batatas e anunciou um subsídio a supermercados e armazéns para diminuir o preço do quilo do tubérculo. Além disso, recomendou que a Argentina importe batatas do Brasil para cobrir o inédito déficit argentino."Esta é a política do governo. O importante é controlar a inflação", afirmou o presidente, deixando claro que a batata está torpedeando suas tentativas de domar a inflação. Kirchner pretende que a inflação deste ano fique em um único dígito, de preferência abaixo de 9%. No entanto, economistas independentes afirmam que a inflação de Kirchner é maquiada e o índice real neste ano passará de 20%, podendo facilmente chegar a 25%.No último mês, o preço da batata subiu 50% (e 115% desde o início do ano). O resultado foi a escassez do produto, com a agravante de que ela é crucial na mesa dos argentinos tanto quanto o arroz no cardápio dos brasileiros. Na forma de purê ou de batatas fritas, os argentinos consomem per capita uma média de 45 quilos por ano (no Brasil, o consumo é de 14 quilos), o que os torna os maiores consumidores da América Latina.A zanga dos argentinos em não poder comprar o apreciado tubérculo levou Kirchner a tomar providências, de forma a não irritar os consumidores, já que estes são potenciais eleitores de sua mulher, a primeira-dama e senadora Cristina Fernández de Kirchner, candidata às eleições presidenciais de outubro. O governo defendeu a aplicação dos subsídios a esse alimento. "É uma medida para preservar o poder aquisitivo da população." O preço da batata também revelando a manipulação do governo Kirchner com o índice de inflação calculado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). O tubérculo é responsável por 18,3% do segmento verduras e legumes da cesta básica de alimentos. Para o Indec - organismo sob a intervenção do governo desde o início do ano -, a batata custa somente 1,40 peso (US$ 0,46). Mas, nas mercearias, o quilo rea" chega a 5 pesos (US$ 1,66).Os produtores alegam problemas climáticos para a escassez de batata e seus elevados preços, enquanto que os analistas os acusam de especuladores. Os humoristas afirmam que a Argentina virou uma república "batateira".A crise da batata também está sendo utilizada pela oposição. "Seria bom que Cristina Kirchner desça dos helicópteros e aviões nos quais passeia por aí e visite uma mercearia", disparou o senador Gerardo Morales, candidato a vice na chapa de Roberto Lavagna, candidato do partido Uma Nação Avançada (dependendo das pesquisas, segundo ou terceiro colocado nas intenções de voto). O próprio Lavagna, em ritmo de campanha eleitoral, posou ao lado de uma batata "normal", de 5 pesos, e outra - pequena e escura - , a "batata kirchnerista", de 1,40 peso. Sem trocadilhos, para os humoristas a disparada do preço da batata é um prato cheio. Mais ainda depois que os restaurantes, ao reajustar os preços, colocaram a típica tortilla (omelete feito com muitas batatas) a US$ 5,00, mais cara do que o bife de chorizo, de US$ 4,00.O programa da septuagenária diva da TV Mirtha Legrand - que apresenta um grupo de entrevistados à mesa do almoço - começou dias atrás uma discussão sobre os casos de corrupção do governo Kirchner. Mas o debate rapidamente se desviou para o preço da batata. Enquanto isso, os convivas saboreavam um prato feito à base de batata-doce, cujo preço não subiu.

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