Batista contraria governo e ataca Lagarde no FMI

Economista que representa o Brasil no Fundo queixa-se da falta de espaço para os países emergentes e diz que processo de escolha foi ''insatisfatório''

, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2011 | 00h00

WASHINGTON

O economista Paulo Nogueira Batista, que representa o Brasil e oito nações sul-americanas e caribenhas no comitê executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), criticou, em entrevista à BBC, a escolha da ministra de Finanças da França, Christine Lagarde, para chefiar a instituição. Suas declarações contrariam a posição do governo brasileiro, que votou na francesa.

Batista qualificou de "altamente insatisfatório" o processo que resultou na eleição de Lagarde em detrimento do representante dos países emergentes, o presidente do Banco Central do México, Agustín Carstens.

"Era uma eleição predeterminada", afirmou. "Enquanto os países europeus permanecerem unidos em torno de um nome único, e houver a percepção de que os Estados Unidos concordarão com ele - e tem sido assim desde o início -, o processo será muito desequilibrado."

A escolha de Lagarde, 55 anos, confirmou a tradição segundo a qual um europeu ocupa a direção do FMI, enquanto o Banco Mundial fica com um americano. Ela será a 11.ª indicada europeia e a primeira mulher a chefiar o Fundo. Para o representante brasileiro, o órgão tem "uma distribuição muito distorcida do poder de voto que permite a continuidade dessa regra arcaica".

Batista disse que Carstens foi "muito corajoso" de entrar na disputa, "mas o fato é que nós (os países emergentes) estamos muito longe do que precisamos, que é uma eleição independente de nacionalidade".

"Tínhamos muitos candidatos com potencial, incluindo candidatos de dentro dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Mas, no curto período entre a renúncia de Dominique Strauss-Khan e a seleção do novo diretor, era difícil convencer algum deles a se candidatar."

"Especialmente quando tínhamos a percepção de que a Europa estava desesperada por manter a posição, aliás, contradizendo a declaração que fizeram em 2007, quando as autoridades europeias disseram que Strauss-Khan seria o último representante europeu a ser eleito segundo essa convenção arcaica."

Dureza ou leniência. A substituição prematura de Strauss-Kahn foi anunciada pelo FMI em 20 de maio, depois que o então diretor-gerente foi obrigado a abrir mão do cargo, implicado em denúncias de agressão sexual e tentativa de estupro por uma camareira de hotel em Nova York. Ele permanece em prisão domiciliar nos EUA enquanto aguarda julgamento.

Analistas concordam que o maior desafio a ser enfrentado pela nova diretora-gerente do FMI será lidar com a crise grega e o risco que representa para todas as outras economias interdependentes da zona do euro e da Europa em geral.

Para os críticos, o fato de ser proveniente de um país europeu é razão para desconfiar que a francesa possa ser leniente em relação ao remédio requerido para solucionar a crise grega.

Para Domenico Lombardi, membro do comitê executivo do FMI entre 2001 e 2005, esta é justamente uma vantagem de Lagarde em relação a nomes de um emergente. "Ela vai estar em uma posição de conclamar seus colegas, os ministros das Finanças europeus, a agir de forma mais agressiva para solucionar a crise do euro", disse. / BBC BRASIL

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