BC admite risco de estouro da meta

Em relatório trimestral, Banco Central eleva projeção da inflação deste ano de 5,8% para 6,4% e reduz previsão de alta do PIB para 3,5%

IURI DANTAS / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h05

Um mês depois de surpreender o mercado com um corte na taxa básica de juros, o Banco Central informou no relatório trimestral de inflação divulgado ontem que espera mais inflação e menos crescimento econômico neste ano, principalmente pela queda na atividade industrial e pela moderação nas vendas no varejo.

O BC elevou a projeção de inflação deste ano de 5,8% para 6,4%, muito próximo do limite de 6,5%. E cortou a previsão de alta do Produto Interno Bruto (PIB) de 4% para 3,5%.

A autoridade monetária alertou ainda que aumentos reais de salário e a indexação da economia são riscos para o controle da inflação, que pode estourar o teto. Esse risco, disse o diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton, "sempre existe".

Ao enfatizar que a crise internacional terá "viés desinflacionário", o BC sinalizou que vai continuar cortando juros, segundo analistas de mercado. "O BC mostra-se tranquilo e entende que a crise internacional vai fazer o 'trabalho sujo' da Selic num horizonte próximo", diz Andre Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos.

"Acreditamos que haverá mais três cortes seguidos de 0,5 ponto porcentual na Selic," avalia Luciano Rostagno, estrategista-chefe da CM Capital Markets.

Apesar de entenderem o cenário descrito pelo BC, analistas discordam da previsão de que a inflação vai terminar 2012 em 4,5%. "O BC vai continuar com dificuldades de reconquistar a confiança do mercado e trazer as expectativas inflacionárias para perto do centro da meta", diz o sócio-gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi.

Cenários. Nos dois principais cenários do BC, o índice oficial de preços (IPCA) só atinge o centro da meta de inflação em 2013. Entretanto, Carlos Hamilton disse que "as projeções, assim como a inflação, são mutáveis".

No cenário de mercado, em que o BC absorve a expectativa para o câmbio e de novos cortes na taxa de juros, a inflação fecharia 2011 em 6,4%, caindo para 5% no fim de 2012. A inflação maior, entretanto, é um mal temporário: segundo o BC os índices de preços começam a recuar no terceiro trimestre de 2011. O salto da inflação este ano, que acumula 7,2% nos 12 meses até agosto, foi causado pelos preços de alimentos e pela forte demanda por serviços nos últimos meses.

Crescimento. A economia do País já cresce em ritmo bem menor que no ano passado, quando se expandiu 7,5%, influenciada pelo aumento da taxa básica de juros e medidas para conter o crédito, avaliou o BC. Esse processo "tende a ser potencializado pela fragilidade da economia global".

O Comitê de Política Monetária (Copom) avaliou, ainda, que aumentos salariais acima da inflação são "um risco importante para a dinâmica dos preços ao consumidor". Isso significa, segundo Hamilton, evitar reajustes superiores a 2% acima da inflação. / COLABOROU PATRÍCIA LARA

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