BC adota maior cautela nos juros

Para o mercado, ata da última reunião do Copom indica suspensão do ciclo de ajuste da Selic e mudança na política de combate à inflação

Iuri Dantas e Renato Andrade, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2011 | 00h00

O Banco Central sinalizou que o ciclo de alta dos juros pode ter chegado ao fim diante de um quadro "mais favorável" para a inflação no curto prazo, da desaceleração econômica e das incertezas "crescentes" sobre o ritmo de recuperação global. Na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, os diretores da instituição disseram que as medidas já tomadas para controle dos preços e do crédito vão ter impacto mais acentuado nos próximos meses.

Economistas do mercado não entenderam a mensagem desse jeito e apostam que o Copom só vai cumprir sua tarefa de entregar a inflação na meta em 2013. Eles baseiam a conclusão na ausência, na ata, do trecho que mencionava a intenção de elevar os juros por um período "suficientemente prolongado" como parte da estratégia para entregar a inflação em 4,5% em 2012. As projeções incluídas na ata para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que estão acima da meta em 2011 e 2012, também contribuíram para a interpretação do mercado.

Fontes do governo consideraram exagerada a avaliação. Para elas, o BC mantém o compromisso de entregar em 2012 a inflação no centro da meta. No ano, o Copom já elevou a taxa de juros (Selic) de 10,75% para 12,5%.

De acordo com a ata, a inflação está controlada, mas permanecerá em níveis superiores ao desejável durante metade do mandato de Dilma Rousseff. O tipo de pressão que os índices de preços têm sofrido exigiria, segundo o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, "uma recessãozinha" para que a inflação voltasse a rodar em 4,5% em 2012.

O IPCA acumulado nos últimos 12 meses encerrados em junho bateu em 6,71%, alimentado principalmente pelo setor de serviços, que subiram 8,75%.

O Copom enfatizou que a economia deve sentir de forma mais acentuada nos próximos meses o impacto das medidas para controlar os preços e o crédito. Segundo fontes do governo, a economia deve ter crescido no máximo 1% no segundo trimestre e terá um resultado ainda menor no terceiro trimestre.

A mensagem da ata, segundo André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, não é de leniência com a inflação, mas de mudança tática.

"Pararam de aumentar os juros, mas não estão de mãos atadas. Pretendem usar outro instrumento", afirmou. "Não fico muito preocupado porque vejo como dores de crescimento. Preocupação seria se houvesse descontrole inflacionário." O entendimento de que o ciclo de aperto dos juros chegou ao fim não foi unânime. "Apesar de ter considerado que o cenário prospectivo para a inflação mostra sinais mais favoráveis, o Copom deverá elevar pela última vez no ano a taxa Selic em agosto", disse Luciano Rostagno, estrategista da CM Capital Markets.

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