BC apoia projeto que faz dinheiro velho virar adubo

Pesquisa da UFRA busca dar um destino sustentável a 2,3 milhões de cédulas que são retiradas de circulação anualmente

MURILO RODRIGUES ALVES , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2013 | 02h17

Quem acredita no ditado de que o dinheiro é a raiz de todos os males poderia rever sua posição se conhecesse um projeto apoiado pelo Banco Central (BC), que transforma cédulas que saem de circulação em adubo para lavouras de agricultores familiares do Pará.

Picotado e sem valor, o papel-moeda serve para fertilizar e regenerar os solos da região através de um composto que leva também palhas e restos de frutas e verduras.

O projeto da Universidade Federal Rural do Amazonas (UFRA) é um dos preferidos do BC para se adequar à Política Nacional de Resíduos Sólidos, que entrará em vigor no ano que vem, e proíbe a instituição de jogar as notas que saem de uso em aterros sanitários.

Por ano, 2,3 milhões de cédulas são retiradas de circulação - em torno de 2 bilhões de toneladas. A quantidade é pequena perto das 5,57 bilhões que transitam entre bancos e bolsos. No entanto, o BC precisa escolher projetos que deem uma destinação mais sustentável ao "numerário inservível", nome técnico dado ao "dinheiro velho".

O projeto da UFRA é o preferido pela autoridade monetária pelo aspecto social, já que pode beneficiar comunidades de agricultores familiares.

A vantagem é que essa compostagem tem custo praticamente zero para os agricultores que detêm nas propriedades os componentes necessários para a compostagem. O adubo feito com dinheiro vai reduzir o custo da produção, pois o esterco de ave, de melhor qualidade que o de boi, pode chegar a R$ 150 a tonelada.

Patente. A pesquisa, comandada pelo professor Carlos Costa, do Instituto Socioambiental e de Recursos Hídricos da UFRA, está em fase final. Em novembro, ele pedirá a patente do adubo feito com papel-moeda, depois de fazer a análise de macronutrientes, micronutrientes, metais pesados e grau de humificação de 120 amostras, variando em cada uma a substância orgânica. Esses testes têm o objetivo de verificar, principalmente, a quantidade de nitrogênio, fósforo e potássio, entre outros elementos químicos, necessários para que as plantas cresçam, floresçam e deem frutos.

Em três anos de pesquisa, o BC liberou R$ 100 mil em dinheiro de verdade para custear bolsas de iniciação científica e despesas com análises químicas. O projeto também recebe apoio da fundação de pesquisa e do governo do Pará. Até agora, são usados 500 quilos de cédulas velhas da regional do BC em Belém, mas o propósito é que todas as 13 toneladas de dinheiro picotado mensalmente pela regional virem adubo.

Não dá em árvore. Há dois meses, 20 agricultores de Capitão Poço e Irituia, cidades do interior do Estado, começaram a receber os blocos de papel-moeda picado.

José Justino Frutuoso, de 74 anos, primeiro aprendeu na universidade os procedimentos para fazer o adubo. Ele conta, rindo, que é muito "estranho" pensar que dinheiro não dá em árvore, mas ajuda árvore crescer.

Quando chegou a matéria-prima em casa, ficou impressionado. "Nunca vi tanto dinheiro junto. Pena que veio tudo picado", brinca.

Ele mistura o papel-moeda com restos de milho, feijão, cascas de limão e mato. Frutuoso diz que está fazendo como o professor da universidade explicou. "É mais barato porque temos tudo aqui, mas dá um trabalho...", diz em referência à necessidade de irrigar sempre e mexer a compostagem de três em três dias. Quando estiver pronto, ele vai usar o adubo em parte da horta de alface e na outra continuará com o esterco de boi para tirar a prova de qual é melhor. Se tiver o efeito desejado, o adubo feito com dinheiro vai ser adotado nas outras culturas: pimenta, laranja, limão, tangerina, feijão e mandioca.

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