BC cogitou ajustar Selic e está atento a 'risco de inflação'

Copom diz estar pronto para adotar outra política caso haja divergência entre inflação e trajetória de metas

Fernando Nakagawa e Adriana Fernandes, Agência Estado

13 de março de 2008 | 08h50

O Banco Central (BC) revelou nesta quinta-feira, 13, que considerou um "ajuste" na taxa básica de juro em sua última reunião "para reforçar a ancoragem das expectativas" de inflação. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta quinta, o colegiado do BC também reiterou que "está pronto para adotar uma postura de política monetária diferente, caso venha a se consolidar um cenário de divergência entre a inflação projetada e a trajetória das metas".  Veja também:  Confira a evolução da Selic desde o início do governo Lula Copom mantém juro básico em 11,25% ao ano "O Copom considera, também, que a persistência de descompasso importante entre o ritmo de expansão da demanda e da oferta agregadas tende a elevar a probabilidade de que tal cenário venha a se materializar", acrescentou a ata. Na reunião da semana passada, o Copom decidiu manter os juros básicos da economia brasileira (taxa Selic) em 11,25% ao ano. O documento do BC observa que apesar de essa possibilidade de alta do juro ter sido estudada, prevaleceu o entendimento de que neste momento o balanço dos riscos para a trajetória da inflação justificaria a manutenção da Selic. A ata do Copom incluiu o termo "atentamente", referindo-se ao trabalho de monitoramento que o comitê fará para avaliar a evolução do cenário macroeconômico até a próxima reunião, dias 15 e 16 de abril. Entre os analistas do mercado financeiro consultados pela pesquisa semanal Focus, prevalece a aposta de que o BC deve manter o juro básico da economia estável em 11,25% até o final do ano.  Leia abaixo os principais assuntos discutidos na última reunião do Copom:  1. Demanda interna  Os diretores do Banco Central avaliam que a demanda interna tem crescido a taxas "robustas". "A demanda doméstica continua se expandindo a taxas robustas e sustenta o dinamismo da atividade econômica, inclusive em setores pouco expostos à competição externa", cita o texto. Os diretores do BC observam ainda que os efeitos de estímulo à atividade, como a flexibilização monetária implementada, ainda não se fazem completamente presentes na economia. 2. Inflação - Contribuição externa Além da demanda interna em expansão, a ata do BC observa que a contribuição externa para a inflação está se tornando menos efetiva na economia. "A contribuição do setor externo para um cenário inflacionário benigno, diante do forte ritmo de expansão da demanda doméstica, parece estar se tornando menos efetiva, em um momento no qual os efeitos do investimento sobre a capacidade produtiva da economia ainda precisam se consolidar", destaca o texto. Diante desse cenário, o Copom avalia que "cabe à política monetária manter-se especialmente vigilante para evitar que a maior incerteza detectada em horizontes mais curtos se propague para horizontes mais longos". Os diretores do BC observam que se for observada deterioração no quadro inflacionário, o Copom está disposto a mudar de estratégia para responder às mudanças. 3. Inflação - IPCA A ata observa que a projeção de inflação para 2008 nos cenários de referência e de mercado recuaram desde a reunião passada - em janeiro. A inflação citada é medida pelo IPCA, usado no regime de metas estabelecido pelo CMN. No cenário de referência, que leva em conta a manutenção do dólar a R$1,70 e da taxa Selic em 11,25% em todo o horizonte da previsão, a projeção para o IPCA em 2008 caiu em relação a janeiro, mas continua girando em torno do centro da meta, de 4,50%.  No cenário de mercado, que leva em conta as trajetórias do câmbio e juros apuradas pelo BC junto aos analistas do mercado, a projeção para o IPCA em 2008 também é inferior ao observado em janeiro. Apesar dessa redução, a ata pondera que o número continua acima do centro da meta de inflação.  Para 2009, em ambos os cenários - de referência e mercado - as projeções aumentaram na comparação com os números de janeiro. No cenário de referência, o texto diz que o número ficou abaixo do centro da meta e no cenário de mercado, acima de 4,50%.  4. Inflação - Pressões localizadas O Copom mudou sua avaliação sobre a possibilidade de que as pressões inflacionárias localizadas tornem-se riscos para a inflação. "O Copom considera que é relevante a probabilidade de que pressões inflacionárias inicialmente localizadas venham a apresentar riscos para a trajetória da inflação doméstica", destaca o documento no parágrafo 17.  Na ata de janeiro, nesse mesmo trecho, os diretores do BC citavam que essa hipótese de risco havia se "elevado". "O Copom considera que se elevou a probabilidade de que pressões inflacionárias inicialmente localizadas venham a apresentar riscos para a trajetória da inflação doméstica", citava o texto anterior. Para os diretores do BC, a "relevância" da possibilidade de contaminação das pressões ocorre porque há "aquecimento da demanda e do mercado de fatores, bem como a possibilidade do surgimento de restrições de oferta setoriais". Tudo isso, na avaliação do BC, pode "ensejar aumento no repasse de pressões sobre preços no atacado para os preços ao consumidor".  Diante desse quadro, o BC afirma que "continuará conduzindo suas ações de forma a assegurar que os ganhos obtidos no combate à inflação em anos recentes sejam permanentes". Essa avaliação, afirma o texto, vai distinguir reajustes pontuais dos reajustes persistentes ou generalizados de preços.  5. Capacidade produtiva Os diretores do BC destacaram na ata a importância do aumento do investimento para que a capacidade produtiva seja elevada e, assim, as pressões inflacionárias sejam reduzidas. "Esse fator, aliado à ajuda do setor externo, vem atuando para mitigar pressões inflacionárias", cita o texto no item 21.  Nesse mesmo trecho, os diretores do Copom observam que a demanda interna também tem ganhado força com as "transferências fiscais". A avaliação não constava da ata da reunião de janeiro. De acordo com o texto, as transferências se somam ao efeito remanescente do corte do juro realizado até setembro de 2007. Esse quadro "continua colocando riscos para a dinâmica inflacionária", cita o texto.  Para o BC, diante desse cenário, "a redução consistente do descompasso entre o ritmo de ampliação da oferta de bens e serviços e o da demanda torna-se ainda mais relevante na avaliação das diferentes possibilidades que se apresentam para a política monetária".  6. Salário e crédito Segundo a ata, os próximos meses devem continuar com atividade econômica em expansão. O documento cita no parágrafo 20 que o crescimento do crédito e a expansão da massa salarial real "devem continuar impulsionando a atividade econômica".  Os diretores observam, contudo, que a esses dois fatores "devem ser acrescidos os efeitos das transferências governamentais e de outros impulsos fiscais esperados para este e para os próximos trimestres". A ata observa que esses fatores se somam aos "remanescentes efeitos defasados dos cortes de juros" realizados até setembro de 2007 pelo BC e em um cenário de "demanda agregada que já cresce a taxas robustas".  Ainda no parágrafo 20, o texto observa que a avaliação sobre os efeitos do aumento da demanda e corte do juro "tornam se ainda mais relevantes quando se levam em conta os nítidos sinais de demanda aquecida e o fato de que as decisões de política monetária terão impactos concentrados no segundo semestre de 2008 e posteriormente".  7. Política monetária O BC repetiu diversas vezes na ata que a economia ainda não sentiu todos os efeitos do corte de juros realizado pelo BC entre setembro de 2005 e setembro de 2007. "O Copom considera fundamental ressaltar, mais uma vez, que há defasagens importantes entre a implementação da política monetária e seus efeitos sobre o nível de atividade e sobre a inflação. Há algum efeito remanescente dos cortes de juros implementados em 2007 que ainda não se refletiu no nível de atividade", cita o texto no parágrafo 19. Nesse trecho da ata, os diretores do BC também avaliam que os efeitos da atividade sobre a inflação ainda não tiveram tempo de se materializar por completo. "Dessa forma, a avaliação de decisões alternativas de política monetária deve concentrar-se, necessariamente, na análise do cenário prospectivo para a inflação e nos riscos a ele associados, em vez de privilegiar os valores correntes observados para essa variável", completa o trecho 19 da ata.  O Copom também voltou a destacar a importância da prudência na política monetária adotada pelo Banco Central. Os diretores do BC citam que "a prudência passa a ter papel ainda mais importante, nesse processo, em momentos como o atual, caracterizado pela deterioração do balanço dos riscos inflacionários". O trecho está no parágrafo 22 do documento.  A ata observa que o Copom tem adotado "uma estratégia que procura evitar uma trajetória inflacionária volátil" de forma a "consolidar um ambiente de estabilidade e previsibilidade". Segundo o texto, essa estratégia "leva em conta as defasagens do mecanismo de transmissão e tem se mostrado a mais indicada para lidar com a incerteza inerente ao processo de formulação e implementação da política monetária".  Para a adoção das melhores práticas, os diretores do BC destacam a importância das projeções de inflação, balanço de riscos associado ao cenário prospectivo e, especialmente, "à ação preventiva no processo decisório do Comitê".  8. Petróleo O BC afirma na ata que o comportamento dos preços internacionais do petróleo continua "altamente volátil" e que isso vai se refletir na economia brasileira com alguma pressão inflacionária. "O preço do petróleo, fonte sistemática de incerteza advinda do cenário internacional, elevou-se consideravelmente desde a última reunião do Copom e continua altamente volátil", cita o texto no parágrafo 11. Para o BC, o sobe-e-desce dos preços reflete, "além de mudanças estruturais no mercado energético mundial, tensões geopolíticas recorrentes". Apesar de o BC manter a previsão de que a gasolina não deve ter elevação de preços no mercado doméstico, a ata observa que a alta do petróleo se transmite à economia "tanto por meio de cadeias produtivas, como a petroquímica, quanto pela deterioração que termina produzindo nas expectativas de inflação dos agentes econômicos".  9. Investimentos na indústria  O Banco Central avalia que os investimentos do setor produtivo para o aumento da capacidade produtiva das indústrias não tem sido suficiente para impedir que o uso da capacidade instalada aumente. "Embora o investimento venha contribuindo para suavizar a tendência de elevação das taxas de utilização da capacidade, não tem sido suficiente para conter tal processo", destaca a ata da reunião de março do Copom no parágrafo 8.  "Nesse contexto, a maturação tempestiva de projetos de investimento será fundamental para circunscrever os descompassos entre a evolução da oferta e da demanda doméstica no horizonte relevante para a política monetária", cita o texto do BC.  Conforme dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgados pelo BC, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria de transformação atingiu 82,7% em dezembro (contra 83,1% em novembro) segundo dados dessazonalizados. "É importante assinalar que os valores de janeiro foram recordes históricos para o Nuci (nas séries iniciadas em 1998)", destaca o texto.  O BC observa ainda que a redução da capacidade ociosa é observa em diversos setores e ocorre a despeito do aumento substancial do volume de investimentos.

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