Marcello Casal Jr/ Agência Brasil
Guedes afirmou que o Banco Central está correndo atrás de controlar a inflação.  Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

BC: Copom eleva Selic pela quinta vez seguida, e taxa básica de juros vai a 6,25%

Aumento de 1 ponto porcentual da taxa básica de juros busca controlar a inflação e levar o IPCA para a meta do Banco Central; Selic volta ao patamar de agosto de 2019

Eduardo Rodrigues e Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 18h38
Atualizado 22 de setembro de 2021 | 21h37

BRASÍLIA - Mesmo em meio à alta da inflação e ao aumento do risco fiscal, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve seu "plano de voo" e elevou nesta quarta-feira a Selic (a taxa básica de juros) em 1 ponto porcentual por unanimidade, de 5,25% para 6,25% ao ano. Este foi o quinto aumento consecutivo dos juros e o segundo em sequência nessa magnitude, após três altas iniciais de 0,75 ponto porcentual.

Após uma piora nas perspectivas para a inflação no último mês, alguns economistas chegaram a considerar que o Copom faria um aumento ainda maior, acima de 1 ponto, o que não aconteceu.

Com a decisão de hoje, a Selic está no maior nível em dois anos, superando o patamar de agosto de 2019 - antes da pandemia de covid-19.  

Além do aumento desta quarta, o Copom adiantou que deve manter o atual ritmo de ajuste na próxima reunião, nos dias 26 e 27 de outubro, o que pode levar a um novo aumento da taxa de juros, para 7,25%. Mas o colegiado ressaltou que essa posição pode mudar, já que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação e dependerão da evolução da atividade econômica, dos riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte da política monetária.

Ao justificar a decisão de hoje, o BC avaliou que, no atual estágio do ciclo de elevação de juros, esse ritmo de ajuste é o mais adequado para garantir a convergência da inflação para a meta.

Nos últimos meses, a inflação medida pelo IPCA vem subindo, em razão principalmente do aumento dos preços de energia, combustíveis e dos alimentos. Com isso, o IPCA acumulado em 12 meses chegou a 9,68%, beirando os dois dígitos. 

O mercado estima que a inflação termine o ano em 8,3%, segundo o último Boletim Focus, bem acima do teto da meta do Banco Central, de 5,25%. O aumento das taxas de juros reflete um esforço do Banco Central para levar a inflação para a meta no ano que vem, que é de 3,5% - com intervalo de tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo. 

Após os dados mais recentes da inflação mostrarem um IPCA acumulado de 9,68% em 12 meses até agosto, diversos economistas chegaram a apostar em uma intervenção maior nos juros nesta reunião, com um aumento de mais 1 ponto na Selic. No entanto, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, realinhou as expectativas na semana passada ao afirmar que o colegiado não iria reagir a cada novo dado divulgado sobre a dinâmica de preços ao consumidor e iria manter o seu "plano de voo".

No comunicado de hoje, o Copom reforçou ainda a fala de Campos Neto de que o BC irá levar a Selic até onde for necessário para combater a inflação. “Neste momento, o cenário básico e o balanço de riscos do Copom indicam ser apropriado que o ciclo de aperto monetário avance no território contracionista”, enfatizou o documento. 

Simultaneamente, o Copom disse que pretende ganhar tempo para obter mais informações sobre o estado da economia e o grau de persistência dos choques de aumento de preços. 

A decisão de hoje era aguardada pelo mercado financeiro. De um total de 51 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, 44 esperavam pela elevação da Selic em 1 ponto, para 6,25% ao ano. 

Para o economista-chefe da Guide Investimentos, João Mauricio Rosal, a decisão de elevar a Selic em 1 ponto porcentual confirma a mensagem dada por Campos Neto de que o comitê não se "sensibilizaria com surpresas" de curto prazo e manteria o plano de aperto monetário. "O comunicado mostra liderança firme de Campos Neto dentro do comitê para definir uma estratégia", afirma. 

O único ponto que surpreendeu o economista foi o trecho em que o BC afirma que considera o ritmo de 1 ponto o adequado para garantir a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante (que considera 2022 e, em menor grau, 2023). Rosal interpretou que "não está escrito na pedra" que o passo de 1 ponto de alta de juros seguirá indefinidamente. "Há possibilidade de o Copom rever o ritmo a partir das informações que chegarem."

O economista-chefe do banco Original, Marcos Caruso, afirma que o comunicado do Copom não reforça o cenário mais drástico de aumento da taxa de juros para um patamar acima de 9% ao ano. Para ele, o Banco Central quis se mostrar duro na contenção à inflação, ao sinalizar a manutenção do atual ritmo de alta da taxa básica de juros, mas também que precisa de tempo para entender qual é o real compasso da atividade econômica e a persistência dos choques inflacionários. “O comunicado sinaliza que o BC quer ganhar tempo, mas mostrando os dentes”, diz o economista. 

Segundo Caruso, o BC demonstra que precisa de mais informações para definir uma possível extensão do ciclo de alta da Selic. “Existe uma recuperação contratada (da economia) para este ano. Mas as últimas projeções passaram a ter crescimento menor (do PIB) para o ano que vem. O BC quer entender o quão consistente no tempo é essa recuperação econômica”, afirma.

Nova projeção de inflação

No documento, o BC também atualizou suas projeções para a inflação. No cenário básico, o BC alterou a projeção do IPCA de 2021 de 6,5% para 8,5%. No caso de 2022, a expectativa foi de 3,5% para 3,7%. Para 2023, a projeção segue em 3,2%.

Neste cenário, a autarquia ainda atualizou as projeções para a inflação dos produtos com preços administrados (como energia e combustíveis), de alta de 10% para 13,7% em 2021 e de 4,6% para 4,2% em 2022. Para 2023, a estimativa passou de 4,6% para 4,8%.

O economista-chefe da Truxt Investimentos, Arthur Carvalho, chama atenção para o fato de que a atualização do cenário de inflação do BC é toda negativa, reconhecendo maior persistência dos choques de preços em itens voláteis e da alta dos bens industriais, além da retomada dos preços de serviços. Por isso, se for surpreendido, o BC talvez tenha que alcançar um nível mais alto de juros. O economista espera mais duas altas de 1 ponto, a 8,25% no fim do ano, com um ajuste final de 0,25 ponto no início do ano que vem, a 8,5%, mas com risco de alta.

"Tem muita coisa volátil, mas tem coisa ruim na inflação. O BC reconhece isso, mas parece estar determinado a não entregar um ritmo mais forte de alta de juros. Se os choques persistirem, provavelmente o BC vai ter que ir mais longe do que teria ido se fosse mais rápido. O BC está assumindo que grande parte do aumento de preços vai se revertes, que as commodities vão cair um pouco", diz.

Segundo Tatiana Pinheiro, sócia da Panamby Capital, o comunicado do Copom considera um cenário internacional pior, com ênfase nas economias asiáticas, o que será ingrediente a mais de pressão sobre a inflação. “O  diagnóstico é de mais preocupação com o balanço de riscos e mudança de percepção em relação ao cenário internacional, mas sem se amarrar com o que vai ser feito na próxima reunião",  disse a economista.

Brasil tem uma das maiores taxas de juros reais

Com os cinco últimos aumentos da Selic, o Brasil voltou a registrar uma das maiores taxas de juros reais (descontada a inflação) do mundo. Cálculos do site MoneYou e da gestora Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está agora em 3,34% ao ano. O País possui o segundo juro real mais alto do mundo, considerando as 40 economias mais relevantes do mundo. Atualmente, o País só registra uma taxa real inferior à da Turquia (+4,96%). A taxa real média desses 40 países está em -1,36%. / COLABORARAM THAÍS BARCELLOS E BÁRBARA NASCIMENTO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Fed indica redução dos estímulos monetários 'em breve' e aumento da taxa de juros em 2022

Em decisão nesta quarta, o Federal Reserve, banco central americano, sinalizou que pode reduzir os programas de compras de títulos já na próxima reunião e que a taxa de juros dos EUA pode subir no ano que vem

New York Times,

22 de setembro de 2021 | 17h28

Autoridades do Federal Reserve (o Fed, o banco central americano) indicaram que esperam desacelerar em breve as compras de ativos que vêm usando para estimular a economia e previram que podem aumentar as taxas de juros do Estados Unidos em 2022, enviando um sinal claro de que estão se preparando para abandonar o programa de ajuda monetária conforme a economia se recupera do choque da pandemia. Na decisão desta quarta, não houve mudança na taxa básica de juros dos EUA, que foi mantida em um nível entre 0% e 0,25% ao ano.

“Se o progresso continuar como esperado, o Comitê julga que uma moderação no ritmo de compras de ativos pode ser garantida em breve”, disse o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) -- órgão equivalente ao Copom --, em seu comunicado divulgado nesta quarta.

A nova formulação do Fed eliminou o trecho que prometia avaliar o progresso da economia nas "próximas reuniões", sugerindo que um anúncio formal da desaceleração poderia ocorrer já na próxima reunião do banco central, em novembro.

As autoridades do Fed enfrentam um cenário complicado quase 20 meses depois que a pandemia do coronavírus abalou a economia dos EUA. Os negócios se recuperaram à medida que os consumidores passaram a gastar mais, ajudados por repetidos estímulos do governo e outros benefícios. Mas o vírus persiste e muitos adultos permanecem não vacinados, impedindo o retorno total ao normal. Ameaças externas também se avolumam, incluindo tremores no mercado imobiliário da China que colocaram os mercados financeiros em estado de alerta nesta semana. Nos Estados Unidos, disputas partidárias podem colocar em risco os planos de gastos em infraestrutura do governo ou até mesmo causar um atraso desestabilizador no necessário aumento do teto da dívida.

O presidente do Fed, Jerome Powell, e os demais diretores do Fed estão navegando por essas correntes cruzadas em um momento em que a inflação está em alta e o mercado de trabalho, embora se recupere, ainda está longe de se fortalecer. Eles estão avaliando quando e como reduzir o estímulo da política monetária, na esperança de evitar o superaquecimento da economia ou do mercado financeiro e, ao mesmo tempo, manter a recuperação no caminho certo. “Os setores mais afetados pela pandemia melhoraram nos últimos meses, mas o aumento dos casos de covid-19 retardou sua recuperação”, afirmou o Fed disse em seu comunicado de quarta-feira. 

O Fed vem mantendo as taxas de juros em nível baixo desde março de 2020 e está comprando US$ 120 bilhões em títulos garantidos pelo governo a cada mês, políticas que trabalham juntas para baratear o crédito. Isso alimentou os empréstimos e gastos e impulsionou o crescimento econômico. As autoridades sinalizaram que desacelerar as compras de títulos será o primeiro passo em direção a uma definição de políticas mais “normal”. 

“Eles (os diretores do Fed) querem iniciar uma saída (dos programas de estímulo)”, disse Priya Misra, chefe global de estratégia de taxas da TD Securities. “Eles estão alertando os mercados. Agora a pergunta é: quanto tempo vai durar o processo? O que está causando isso? Eles veem um risco de mudanças estruturais na economia por causa da covid?” 

O banco central americano está tentando separar sua política para a taxa básica de juros - a ferramenta de política mais tradicional e mais poderosa do Fed - de sua abordagem à compra de títulos. Powell disse que a taxa básica provavelmente permanecerá baixa por algum tempo. 

Metade dos 18 diretores do Fed espera um ou mais aumentos nas taxas de juros até o final de 2022, com nove marcando um aumento nas taxas no próximo ano, ante sete quando as projeções para a economia foram divulgadas pela última vez em junho. 

Em média, os diretores do Fed esperam que a inflação nos Estados Unidos atinja 4,2% no último trimestre de 2021 e caia para 2,2% em 2022. A inflação subiu acentuadamente nos últimos meses, elevada por interrupções na cadeia de suprimentos e outras peculiaridades ligadas à pandemia. A métrica de inflação preferida do Fed, o índice de despesas de consumo pessoal, subiu 4,2% em julho em relação ao ano anterior. 

Mas há dúvidas sobre como a inflação se desenvolverá nos próximos meses e anos. Algumas autoridades temem que ela permaneça elevada, alimentada pelo forte consumo. 

Outros se preocupam com o fato de que, da mesma forma como os preços subiram acentuadamente agora, a retirada de estímulos possa levar a uma inflação desconfortavelmente baixa no futuro -- os preços dos carros usados ​​causaram uma grande parte do aumento de 2021 nos Estados Unidos e podem cair, por exemplo.

Os aumentos de preços mornos prevaleciam antes do início da pandemia, e as mesmas tendências globais que vinham reduzindo a inflação poderiam mais uma vez dominar. A inflação muito alta ou muito baixa seria um problema para o Fed, que visa ganhos de preços anuais de 2% em média ao longo do tempo. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.