Marcello Casal Jr/ Agência Brasil
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BC corre o risco de ver um estouro do teto da meta inflacionária por dois anos consecutivos

O que está em jogo agora é a credibilidade do BC, isto é, se a inflação de 2021 será apenas um desvio causado pelo impacto da pandemia nas cadeias de produção mundia ou se voltará de forma mais duradoura para o patamar entre 5% e mais de 6%

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2021 | 04h00

Nos últimos meses, o Banco Central (BC) enfrenta a mesma pressão do mercado: endurecer, ou não, o ciclo de aperto monetário para controlar as expectativas de inflação, especialmente as de 2022 e 2023.

Esse dilema, todavia, é uma ilusão: se não acelerar o ritmo de alta de juros, do atual 1,5 ponto porcentual para 2 pontos, já na próxima reunião do Copom, nos dias 7 e 8 de dezembro, o BC dificilmente conseguirá manter a inflação abaixo até do topo da meta de 2022, de 5,0%. A não ser que a cotação do dólar recue para abaixo de R$ 5,00, o que traria um alívio importante no repasse cambial aos preços.

Mas, diante da piora na percepção do risco fiscal e do habitual nervosismo causado em ano de eleição presidencial, seria uma surpresa grande acontecer uma valorização dessa magnitude do real brasileiro. Até porque, com a retirada dos estímulos monetários em curso nos Estados Unidos pelo Federal Reserve (Fed), a perspectiva é de o dólar ganhar força globalmente.

Também neste ano, a inflação deverá ficar acima do limite superior da meta, uma vez que as projeções para 2021 já apontam um IPCA de dois dígitos. Ou seja, se não agir energicamente, o BC corre o risco de ver um estouro do teto da meta por dois anos consecutivos. Por outro lado, muitos analistas defendem que a atividade econômica sofrerá bastante, com risco até de recessão, se o BC endurecer muito o aperto monetário.

Mas qual seria o problema de o BC tentar preservar a economia ao abrir mão de manter a inflação abaixo do teto da meta em 2022, deixando de acelerar o ritmo da alta de juros?

Basta lembrar que somente ao custo de uma recessão de 7,2%, em 2015 e 2016, além da aprovação da PEC que instituiu o teto de gastos, para que a inflação do governo Dilma Rousseff recuasse de 10,67% em 2015 e de 6,29% em 2016 para um patamar bem menor: de 2,95% em 2017 e de 3,75% em 2018.

O que está em jogo agora é a credibilidade do BC, isto é, se a inflação de 2021, cuja projeção mais recente do mercado está em 10,15%, será apenas um desvio causado pelo impacto da pandemia de covid nas cadeias de produção mundial, recuando para entre 3% e 4% nos próximos anos, ou se voltará de forma mais duradoura para o indesejável patamar entre 5% e mais de 6%, como oscilou nos anos do governo Dilma.

Assim, se neste ano o IPCA ficar em dois dígitos e no ano que vem superar de novo o teto da meta, o custo de médio prazo será enorme para o BC trazer de volta a inflação para um patamar abaixo de 4%, especialmente numa economia com o grau de indexação como a do Brasil. 

* COLUNISTA DO BROADCAST

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