BC cortou juro no momento adequado, diz Meirelles

Presidente do BC rebate críticas e afirma que autoridade monetária agiu 'rápida e prontamente' contra crise

Daniela Milanese, da Agência Estado,

29 de janeiro de 2009 | 13h37

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou nesta quinta-feira, 29, que os juros no Brasil foram reduzidos "no momento adequado". Rebatendo críticas de que a autoridade monetária teria demorado para atuar diante da crise, ele considerou que o governo agiu "rápida e prontamente", com a adoção de diversas medidas.   Veja também: De olho nos sintomas da crise econômica  Dicionário da crise  Lições de 29 Como o mundo reage à crise    No caso do BC, a atuação passou pela liberação dos compulsórios, pelas linhas externas para a exportação e pela venda de dólar nos mercados futuro e à vista. Na semana passada, o Copom reduziu a Selic em um ponto porcentual, para 12,75% ao ano. O governo, lembrou, também atuou com o corte de IPI, por exemplo.   Ele anunciou que o Banco Central vai divulgar na próxima semana a linha de crédito para empresas com vencimentos de dívida externa, com recursos das reservas internacionais. A medida, que já havia sido anunciada pela autoridade monetária, está com a implementação atrasada. Segundo Meirelles, o processo é trabalhoso e o BC buscava garantias legais nos outros países.   O objetivo é liberar um montante estimado em US$ 20 bilhões das reservas internacionais para atender toda a demanda das companhias para pagamento de dívidas no exterior. Os recursos serão repassados a bancos brasileiros internacionais, que então emprestarão para as empresas. Num primeiro momento, somente os bancos que atuam no mercado de câmbio brasileiro estarão autorizados a participar, exatamente pela questão da legislação. O BC quer ter a garantia de que os contratos dados como colateral pelos bancos serão coletáveis.   A autoridade já liberou US$ 30 bilhões em linhas para exportações. "Com essas medidas, o Brasil será um dos únicos países do mundo onde a oferta de crédito estará normalizada quantitativamente."   Boa avaliação   Para Meirelles, essa série de medidas é uma das razões pelas quais o Brasil é apontado como um país com melhores condições de passar pela crise. "Não há dúvida de que a avaliação é de uma crise severa, mas ela não afeta as diversas regiões da mesma maneira", afirmou a jornalistas brasileiros, depois de participar do Fórum Econômico Mundial, em Davos.   Os Estados Unidos, por exemplo, tinham uma sociedade excessivamente endividada, que agora passa pelo processo de desalavancagem - portanto, um problema mais profundo. Na China, a dificuldade atual é a dependência das exportações para os EUA, mas não há planos para resgate de bancos. "Políticas como essas não se fazem por analogias", disse. Já o Brasil, foi afetado primeiro pelo canal do crédito internacional e depois pelas exportações.   Respondendo sobre a possível intervenção do governo federal sobre o corte de juros, Meirelles afirmou que "quem leu a ata do Copom hoje entendeu que a decisão foi técnica e sintonizada com o conceito de autonomia que temos do governo Lula". Ele disse que entende o desejo para que as taxas no Brasil sejam as mais baixas possíveis. No entanto, é preciso considerar que há efeitos colaterais a serem levados em conta. "A decisão precisa ser a melhor para o país, pois não podemos substituir a crise externa por uma crise interna, como já ocorreu no passado."   Dólar   Meirelles participou do painel "Os Mistérios do Dólar" em Davos, e relatou que a opinião da maioria dos debatedores é de que o dólar deve continuar tendo um papel importante na economia global, mesmo com a crise nos Estados Unidos.   A apreciação da moeda norte-americana é atribuída ao processo de desalavangem e repatriação de capital em razão da crise. "Não há muitas candidatas a moedas de reserva (para substituir o dólar)", afirmou Meirelles. Segundo ele, há dúvidas sobre o potencial do euro para esse papel. No caso do Brasil, o dólar tem importância assegurada, já que responde por quase a totalidade das reservas internacionais. "Nossas reservas são um mecanismo de proteção, e não de especulação."   PIB   O presidente do BC avaliou ainda que existe uma grande dispersão de estimativas sobre o crescimento dos emergentes neste ano. "Há muita incerteza, principalmente para quem olha de longe", afirmou. "Isso significa que os analistas divergem sobre os efeitos da propagação da crise."   A projeção atual do BC para o Brasil é de crescimento de 3,2% neste ano. Mas o BIS espera 2,8%, o FMI, 1,8% e a IFF, mais pessimista, estima 0,8%. Meirelles afirmou que o número do BC para o PIB brasileiro será revisado em março, na divulgação trimestral do relatório de inflação. "A revisão refletirá o estado da economia no momento", afirmou, sem responder diretamente se o dado será alterado para baixo.

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