Victor R. Caivano/AP
Victor R. Caivano/AP

Macri enfrenta primeira grande crise e juros sobem para 40% na Argentina

BC argentino elevou os juros três vezes em uma semana, numa tentativa de conter a escalada do dólar em meio a uma forte saída de dinheiro do país; medida conseguiu acalmar o mercado, mas economistas falam em possibilidade de novas altas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2018 | 09h54
Atualizado 04 Maio 2018 | 23h51

Pouco mais de dois anos após chegar ao comando da Argentina e se transformar em uma das apostas preferidas do mercado financeiro, o governo de Mauricio Macri atravessou sua primeira crise: diante de uma saída de capitais que desvalorizou sua moeda em 8% em uma semana, o Banco Central aumentou a taxa básica de juros de 27,5% para 40% – a maior taxa nominal do mundo. Ao todo, foram três anúncios de alta em um intervalo de oito dias (na sexta-feira passada,27, na quinta-feira, 03, e na sexta-feira, 04), todos pegando os investidores de surpresa.

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Na sexta-feira, após o BC fixar uma alta de 6,75 pontos porcentuais no juro básico e o governo reduzir a meta do déficit público de 3,2% do PIB para 2,7% em 2018, o mercado se acalmou e o dólar caiu quase 3%. A moeda americana encerrou o dia cotada a 21,28 pesos, depois de chegar a 23 pesos na quinta-feira.

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Na avaliação do economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, o BC atuou de “forma rápida e contundente”, melhorando “um pouco” a situação e corrigindo “a implementação errática das últimas medidas”.

 

O Banco Central argentino vinha perdendo credibilidade desde o fim de dezembro, quando a equipe econômica de Macri anunciou que deixaria de perseguir uma inflação ao redor de 10% e passaria a ter 15% como meta, em uma tentativa de aumentar o ritmo de crescimento da economia. Apesar de o mercado já não acreditar que esses números seriam atingidos – a inflação em 2017 ficou em 24,8% e as projeções para 2018 são de mais de 20% –, a interpretação foi de que o controle da inflação havia deixado de ser prioridade.

Também contribuíram para o caos desta semana a avaliação de que os déficits das conta pública e das contas externas continuam altos e a criação de um novo imposto sobre ganhos financeiros de investidores estrangeiros. De acordo com o economista Martín Redrado, ex-presidente do Banco Central, esse cenário doméstico foi responsável por 60% da crise. Os outros 40% decorreram da valorização do dólar em relação a moedas de países emergentes.

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Para ele, as políticas econômicas adotadas pelo governo também não conseguiram, até agora, segurar a inflação. O economista acrescentou ainda que falta um programa econômico integral no governo Macri. “Os problemas de fundo não foram resolvidos, há desequilíbrio fiscal e uma inflação resistente”, disse.

Economistas não descartam a possibilidade de o BC ter de elevar novamente os juros. Segundo relatório do Credit Suisse, o país ainda não alcançou o fundo do poço, mas já está perto do novo ponto de equilíbrio. Ramos, do Goldman, também não descarta uma nova alta. A agência classificadora de risco Fitch reafirmou ontem o rating B do país, mas alterou a perspectiva de positiva para estável.

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