BC deve definir estratégia cambial esta semana

Sejam quais forem os caminhos que já estão sendo explorados pelo governo para tentar reverter a atual crise financeira, os primeiros sinais deverão ser emitidos já na semana que se inicia. Ontem, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, preferiu fazer segredo, mas o mistério não irá se sustentar por muito tempo já que, até a próxima quarta-feira, o Banco Central terá que definir como será a política de intervenção no mercado de câmbio em agosto. As vendas de US$ 50 milhões por dia, adotadas no final de junho e apelidadas de ração diária, valem só até 31 de julho. A aposta é que o governo vai manter a oferta de dólares para dar liquidez às empresas que têm compromissos a pagar no exterior, já que o mercado anda "seco demais", na avaliação do próprio BC. O problema é que manter a atual política - com o mesmo valor ou um volume diário superior - implica reduzir as reservas em mais de US$ 1 bilhão por mês. Somente em julho, até a última sexta-feira, entre intervenções no mercado à vista de câmbio e oferta de linhas externas de dólares, o BC gastou US$ 1,35 bilhão. De bilhão em bilhão, o País vai se aproximando cada vez mais do piso de US$ 15 bilhões estabelecido para as reservas líquidas no acordo em vigor com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Quando se põe tudo na ponta do lápis, aumenta a certeza de que uma nova ajuda financeira do Fundo é apenas uma questão de tempo. Pelas projeções do BC, ainda restam US$ 9,6 bilhões para serem utilizados antes que o piso seja atingido. "Se continuar suprindo o mercado, o BC terminará o ano com um nível de reservas muito baixo. Por isso, seria muito bom para a formação de expectativas do mercado, que se mantivesse a ração, mas que houvesse um acerto com o Fundo", avalia o economista Nathan Blanche, sócio da consultoria Tendências. Contrário à crítica de que as intervenções diárias do BC são desnecessárias, já que o dólar continua subindo, o economista afirma que a atuação do BC tem garantido pelo menos um "movimento de desvalorização equilibrado", em vez de uma "correria". Além das intervenções diárias, o BC tem recomprado títulos da dívida externa brasileira, o que tem ajudado a evitar uma situação ainda pior. O C-Bond, papel brasileiro mais negociado no mercado internacional, vem sendo vendido por 55% do seu valor de face e o governo quer evitar que ele caia muito mais. "Trata-se de conseguir descer uma escada gradualmente e não se precipitar ladeira abaixo. Se o C-Bond rompe o nível de 50%, as taxas de juros para o Brasil sobem ainda mais e isso acelera o processo de rebaixamento do País pelas agências de classificação de risco", diz Nathan Blanche. O ministro da Fazenda reafirmou o que havia sido dito, dias antes, pelo presidente do BC, Armínio Fraga: que o fechamento de um novo acordo com o FMI depende do comportamento do mercado nas próximas semanas. O esforço coordenado das autoridades brasileiras, que envolveu não só a Fazenda e o BC, mas também pronunciamentos do presidente Fernando Henrique Cardoso, no Equador, pode não ter sido suficiente para acalmar o mercado. A expectativa é de mais dinheiro será necessário para enfrentar a crise. (Colaborou Renato Andrade)

Agencia Estado,

28 de julho de 2002 | 14h49

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