BC deve tomar cuidado com capital especulativo, diz Ricupero

Apesar de a entrada de capital estrangeiro estar levando a uma valorização do real frente ao dólar, o secretário-geral da Unctad (agência da ONU para o desenvolvimento e o comércio), embaixador Rubens Ricupero, alerta que "certos cuidados devem ser tomados pelo Banco Central" para não deixar que capitais especulativos tenham um impacto negativo para a economia nacional. "Algum mecanismo deve ser adotado para privilegiar capital de longo prazo. Não se pode dar colher de chá para o capital de curtíssimo prazo", afirmou o embaixador. Segundo ele, o ingresso do capital especulativo deve ser "monitorado com atenção" pelo governo. "Assim como entrou, poderá sair facilmente", disse Ricupero. Um dos possíveis mecanismos a ser estudado, na avaliação do ex-ministro da Fazenda, seria a retirada de facilidades fiscais ao capital de curto prazo. "Hoje, todos os tipos de capitais são tratados da mesma forma no País", afirma Ricupero, que lembra que muitos benefícios fiscais foram dados ao capital de curto prazo e que isso deveria ser reavaliado. Comércio Segundo Ricupero, até meados do próximo semestre, os exportadores brasileiros não devem sofrer as conseqüências da valorização do real. Com a queda do valor do dólar, um dos efeitos é a redução da competitividade dos produtos brasileiros no exterior. "A maioria dos contratos com fornecedores brasileiros são de longo prazo e a nova tendência do real ainda não está tendo um impacto. Mas, no futuro, se a valorização continuar, eles (exportadores) poderão enfrentar uma situação mais complicada", completa o embaixador. O perigo do regionalismoRubens Ricupero disse também que o regionalismo pode ser mais perigoso que o protecionismo comercial. Segundo o brasileiro, a proliferação de acordos regionais coloca em perigo alguns princípios básicos do comércio: o da não-discriminação e o da cláusula da nação mais favorecida, que são a base dos sistema multilateral. "O perigo (para o sistema comercial) não é o protecionismo. O perigo é a discriminação que pode resultar dos acordos regionais", afirma Ricupero, que não acredita que os países voltem a elevar suas tarifas para bens estrangeiros, como faziam no passado. Segundo ele, a proposta dos Estados Unidos para a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) é um dos exemplos de iniciativas diplomáticas que o preocupa. Os norte-americanos sugerem o desenvolvimento do bloco hemisférico em quarto velocidades diferentes, cada qual destinada a um grupo de países. De acordo com a proposta de Washington, a redução tarifária ocorreria dependendo do nível econômico dos países da região. O total de 56% das importações agrícolas dos Estados Unidos, por exemplo, teriam livre entrada no país já quando a Alca for criada. O resto do setor agrícola, porém, seria liberalizado em cinco ou dez anos, dependendo do desempenho comercial dos demais países da região. Para Ricupero, essa sugestão criaria "diferentes classes de países na região" e a integração ocorreria em ritmos diferentes. "A Alca pode seguir um caminho perigoso se seguir essas idéias", afirma o embaixador. Para ele, o Brasil deve continuar priorizando o sistema multiletaral e alerta que o único regionalismo que tem efeitos positivos é aquele que não promova a discriminação. "Para que os blocos regionais tenham efeitos positivos, devem ser abertos e não discriminatórios", conclui o embaixador.

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