coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

BC é alvo de críticas na City londrina

Desde que Armínio Fraga assumiu o Banco Central, em 1999, em raríssimas ocasiões as autoridades monetárias brasileiras foram alvo de críticas por parte de analistas e investidores estrangeiros. Muito pelo contrário, os elogios sempre dominaram. Mas, ao longo dos últimos dias, quase todos integrantes da City londrina - o coração financeiro do Reino Unido - que acompanham atentamente o mercado brasileiro contatadas pela Agência Estado manifestaram a sua surpresa e descontentamento com a decisão do BC de antecipar a marcação dos fundos de investimento para a sexta-feira passada. Para alguns, foi "erro de cálculo", para outros, "ingenuidade". Mas há também quem afirme que foi "um raro caso de incompetência do BC". Segundo os analistas, o BC acabou agravando a crise no mercado doméstico brasileiro nesta semana, acelerando a busca de proteção no dólar e a disseminação do nervosismo para os mercados externos, com forte movimento de venda de ativos do País. A tendência natural do mercado nesta semana, segundo eles, seria até de uma melhora, com as pesquisas apontando uma recuperação da candidatura de José Serra (PSDB) e avanços no front da CPMF. "Dessa vez o BC deu um tiro no próprio pé, ao promover uma alteração num momento inoportuno que serviu como catalisador dessa crise", disse um analista. "O BC subestimou a reação do mercado, ajudou a criar esse ensaio de pânico que estamos passando e o Fraga não ofereceu explicações convincentes". Além disso, segundo ele, a decisão acabou gerando o descontentamento dos pequenos investidores brasileiros que foram pegos de surpresa com a desvalorização de seus ativos. "Se ontem você tem cem, hoje tem 95 e ninguém te avisou de nada, você pega o seu dinheiro, vai se proteger num ativo como o dólar e critica o governo", disse um analista. "É uma reação normal".Os analistas salientam que a medida adotada na sexta-feira é positiva, pois alinha o Brasil a uma prática já realizada há cerca de vinte anos na Europa. Segundo eles, o problema foi o momento, o "timing" escolhido pelo Bano Central para implementá-la. Se mantê-la para setembro causaria maiores danos aos investidores, por que então ela não foi implementada antes, quando o ambiente na economia brasileira era bem mais tranqüilo? Esse clima de extremo nervosismo deverá arrefecer um pouco nos próximos dias, apostam os analistas. Mas eles alertam o efeito mais sério desses dias turbulentos pode ter sido a consolidação da reversão de expectativa em relação ao Brasil. As opiniões otimistas em relação ao País estão cada vez mais isoladas e temas que até recentemente não eram objeto de preocupação, como a dívida pública, se transformaram em foco de temores. Como há muita gente no mercado internacional que desconhece com profundidade a situação econômica brasileira, o efeito psicológico dessas ondas de pessimismo é sério. "Podem até esquecer a dívida pública daqui alguns dias, mas se esse clima negativo continuar, daqui dez dias emerge um novo tema, uma nova pesquisa eleitoral por exemplo, para pressionar o País", disse um corretor.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.