BC e Fazenda alinham o discurso contra inflação

Estratégia é atuar em sintonia para evitar ruídos no mercado financeiro que possam fortalecer o processo de aceleração dos preços

Fabio Graner e Adriana Fernandes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2008 | 00h00

O ministério da Fazenda e o Banco Central (BC) estão "aparando as arestas" para evitar que ruídos desnecessários contaminem ainda mais as expectativas do mercado e intensifiquem a aceleração dos preços. O ministro Guido Mantega e o presidente do BC, Henrique Meirelles, ao contrário de outros momentos, operam em sintonia para que suas ações e discursos não sejam fonte adicional de volatilidade no mercado financeiro, a ponto de prejudicar o combate à escalada dos preços e comprometer o crescimento da economia em 2009.O cenário considerado pela equipe econômica é que a inflação só se vai desacelerar no fim do ano e voltará ao centro da meta de 4,5% em 2009. Essa perspectiva ainda não foi testada nas previsões do mercado Financeiro. A dúvida é se o mercado compreenderá, já no curto prazo, a nova linguagem dos economistas do governo. A pesquisa Focus, que revela as apostas em relação ao comportamento da inflação, divulgada semanalmente pelo Banco Central (BC), ainda não demonstrou a reversão das expectativas. A cada semana, as projeções têm piorado.Todo o esforço está direcionado para reverter a aceleração da inflação. Por isso, a transmissão da mensagem de maior unidade da Fazenda e do Banco Central é fundamental."O ano é de muita volatilidade; o cuidado é grande para não contribuir para os boatos. Precisamos ter tranqüilidade para não tomar medidas com afobação e não adicionar volatilidade ao mercado", disse uma fonte do governo ao Estado. Os sinais de sintonia podem ser identificados em dois episódios recentes. Um deles foi a mudança de tom da comunicação do BC com o mercado financeiro, por meio da divulgação da Ata do Comitê de Política Monetária (Copom). Chamou atenção de analistas o fato de a última ata, divulgada semana passada, ter utilizando uma linguagem leve e não terrorista para explicar o aumento de 0,5 ponto porcentual na taxa Selic, que passou para 12,25% ao ano. Mantega também cedeu e concordou com o discurso de que o aumento do superávit primário de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) para 4,3% seria instrumento auxiliar do BC na tentativa de trazer a inflação para a meta. Afinal, os chamados "impulsos fiscais" (gastos públicos) figuraram, por vários meses nas Atas das reuniões do Copom, como combustível à alta dos preços.Além disso, Mantega e vários ministros não contestaram a última alta da Selic. Nem mesmo a decisão do BC de incluir na última ata a hipótese de cumprimento de uma meta fiscal maior também em 2009, o que ainda não foi anunciado oficialmente, causou na Fazenda o constrangimento que poderia se esperar no passado.No mesmo tom, a mudança de discurso do BC ao retirar o peso do gasto do governo do balanço de risco da inflação foi interpretada pela Fazenda como um fator positivo. O efeito contracionista dos gastos do governo nos primeiros meses do ano foi incansavelmente apontado pelo secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Por vezes, Arno identificou um "certo exagero" na avaliação do BC de que o consumo do governo era fator de risco para o aquecimento da demanda e da inflação. Com afagos de lado a lado, o debate sobre a definição da meta de inflação para 2010 transcorre em clima bem mais ameno que no ano passado. A tendência, segundo uma fonte, é que a meta de 2010 seja mantida nos atuais 4,5%, reforçando a mensagem de não se adicionar volatilidade aos preços, que já prejudica as classes mais pobres.

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