BC e Febraban admitem dificuldades

Autoridade monetária e entidade que reúne os bancos culpam escassez de crédito no mercado internacional

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2009 | 00h00

O Banco Central (BC) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) reconhecem que o mercado de crédito ainda enfrenta dificuldades. "A concessão de crédito doméstico, de maneira geral, já se normalizou, porém alguns setores ainda enfrentam restrições", diz nota enviada ao Estado pelo BC. "A razão é que empresas que tomavam crédito no exterior passaram a demandar crédito doméstico."O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Fabio Barbosa, segue a mesma linha. "Grandes empresas brasileiras que captavam no exterior (como Vale, Petrobrás) agora pegam dinheiro no mercado doméstico", afirmou, em entrevista ao Estado, na segunda-feira. "O crédito voltou, mas não como antes. Não vai ser como antes. O mundo está desacelerando e falta dinheiro", ponderou. Na avaliação do BC, duas medidas já adotadas pelo governo devem amenizar o problema. A primeira delas é o uso das reservas cambiais para financiar a rolagem da dívida privada externa, até um limite estimado em US$ 36 bilhões.A outra medida diz respeito à liberação de US$ 19,3 bilhões em linhas para exportação. "A crise de crédito internacional atingiu todo o mundo, incluindo o Brasil. Mas a fase aguda se deu no mês de outubro", sustenta o BC. O Estado apurou que a autoridade monetária não descarta a implementação de novas medidas, caso identifique gargalos no mercado cuja origem esteja desconectada da conjuntura instável. Em outras palavras: por ora, o BC entende que as dificuldades se devem à própria crise, que fez os bancos serem naturalmente mais cautelosos na concessão de empréstimos. Se essa percepção mudar, o contra-ataque será diferente. O economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo, avalia que o crédito melhoraria se o BC reduzisse ainda mais os depósitos compulsórios, o governo diminuísse os impostos que incidem sobre a intermediação financeira (como IOF) e empresas de pequeno e médio porte tivessem acesso a linhas especiais de financiamento. "O crédito precisa voltar até o início do segundo trimestre para que o comércio consiga crescer de 2% a 3% este ano", diz Solimeo. O economista lembra que as consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), que refletem a disposição do consumidor de comprar a prazo, diminuíram 6% em janeiro, depois de avançar apenas 1% em dezembro (época que costuma ser mais agitada para o comércio, por causa do Natal). Segundo ele, dados preliminares indicam uma queda na faixa de 3% nas consultas ao SPC em fevereiro.O ex-economista-chefe da Febraban, Roberto Troster, vai além das propostas de Solimeo. Sugere a eliminação total dos depósitos compulsórios, dos impostos cobrados nos financiamentos e a elaboração de uma nova política de crédito no País, entre outras medidas. INADIMPLÊNCIA RECORDEUm dos efeitos colaterais da escassez de crédito é o aumento da inadimplência. Isso ocorre porque tanto empresas quanto pessoas físicas têm sido obrigadas a trocar modalidades de crédito mais baratas por outras mais caras (porém pré-aprovadas). Um exemplo típico é o de cidadãos que passaram a usar cheque especial por não conseguir crédito pessoal. Quinta feira, o BC divulgará o relatório de crédito relativo a janeiro. Segundo analistas, a inadimplência das pessoas físicas deverá ter ficado perto de 8,5%, algo que, se confirmado, significará o maior nível da década. O pico anterior se deu em maio de 2002, quando o calote nas operações não pagas há mais de 90 dias alcançava 8,44% do total. Mesmo que esse novo ponto máximo ainda não apareça nas estatísticas de janeiro, os especialistas não têm dúvidas de que o recorde virá em algum momento do primeiro semestre - em consequência da sazonalidade típica do período (atrasos no pagamento de dívidas contraídas no Natal) e dos reflexos do aumento do desemprego.

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