BC e juro aqui, nervosismo nos EUA

Enquanto lá fora o mercado financeiro se agitava com mais um grande banco, o Bear Stearns, sendo socorrido pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano), via JP Morgan, aqui o problema era outro, a inflação. Como estava previsto, o Banco Central (BC) endureceu seu discurso. O presidente do banco, Henrique Meirelles, deixou claro na reunião do Comitê de Política Monetária que é cada vez mais iminente o risco de aumento da taxa de juro para conter o aumento dos preços provocado pelo aquecimento da demanda. O BC até havia considerado essa opção na reunião da semana passada. Esta coluna já havia indicado que isso poderia acontecer, pois eram esses os sinais velados que constavam dos pronunciamentos cada vez mais ousados de Meirelles, ele mesmo o único na equipe econômica a preocupar-se seriamente com o desenrolar dos acontecimentos externos.MAIS JUROS, NÃO!A notícia provocou um deus-nos-acuda no governo. Mantega não acha necessário aumentar o juro, Miguel Jorge afirma que houve exagero do BC e outros economistas falaram até em "terrorismo". Parece que, para dar o tom oficial, Lula saiu em defesa indireta de Meirelles, afirmando que não podemos cair de novo "nesta desgraça da inflação". Para ele, não se pode consumir mais do que se produz. Como produzir mais demora mais do que consumir, a saída é consumir menos para que os preços não aumentem muito, corroendo o poder de compra dos que têm menos. A conclusão sem graça é que consumir mais e viver melhor custa mais caro porque todo mundo, que agora tem maior renda, também quer isso...AFINAL, HÁ INFLAÇÃO OU NÃO?Todos falam de tudo, usam as bases de cálculo mais diversas, para mostrar que a alta dos preços está nos limites fixados pelo BC. Será? Para mim, o economista Dionisio Dias Carneiro fez a análise correta. Em artigo publicado no Estado de sexta-feira, Realidades embaraçosas, ele analisou a inflação não dos dois últimos trimestres, mas a de 12 meses e concluiu: "A inflação anualizada dos últimos três trimestres móveis é superior a 6%. Os preços dos ativos também estão inflados: terras, residências, muitas ações."INFLAÇÃO, MAIS POR QUÊ? Dionisio Dias Carneiro responde com os dados oficiais do IBGE de 2007:1 - O PIB se expandiu a um ritmo de 6,4% no quarto trimestre. Nos últimos três trimestres, cresceu ainda mais, 6,7% anualizados.2 - Causas: maior demanda provocada pela aumento real da massa salarial de 3,6% ao ano e crescimento do crédito das pessoas físicas, eu e você, de nada menos que 28,8%. Isso supera a capacidade de produção, apesar dos investimentos.Conclusão: parece que a inflação está aí, sim, mesmo porque o consumo continuou crescendo nos dois primeiros meses do ano. E daí o grito do presidente: tudo, menos a inflação, esta "desgraçada" que sempre atinge mais os pobres, que não têm como se defender. Não aplicam no mercado financeiro.E MAIS SUSTO NOS EUAA necessidade de um grande socorro do Fed ao Bear Stearns, devido a perdas com hipotecas, agravou a crise e aumentou a tensão no mercado financeiro. Fragilizada, a bolsa tentava equilibrar-se com a injeção de US$ 248 bilhões do Fed no início da semana. Não foi uma sexta-feira negra, mas foi sombria. Os índices das bolsas americanas despencaram quase 3% na primeira parte do dia, recuperaram-se a partir das 15 horas e fecharam entre 1,5% e 2,2%. Não chega a ser um desastre. A S&P tem perda de 9,9% no ano. Diante desse novo acontecimento, que foi precedido pelas perdas da Carlyle Capital, aumentava a expectativa de que o governo americano terá de vir a socorrer com dinheiro público, assumindo os detentores de hipotecas ameaçados de execução. Parece que não há muita saída: se eles as passarem para diante ou venderem seus imóveis, não conseguirão sequer cobrir suas dívidas porque os preços das propriedades se desvalorizaram há quase oito meses. AGORA, DINHEIRO PÚBLICOEssa proposta ganhava corpo na sexta-feira, quando o ex-secretário do Tesouro, Robert Rubin, que fez um excelente trabalho nos anos áureos de crescimento do governo Clinton, afirmou que "os riscos são suficientemente sérios para uma ação adicional, provavelmente com recursos públicos". O suporte de liquidez do Fed pode não ser suficiente. É preciso resolver o caso das hipotecas insolventes e sua rede de operações que se interligam, desde o primeiro comprador até o banco ou o fundo que ficou com elas, tomador de última instância.BERNANKE MUDA O TOMO próprio Bernanke mudou um pouco o tom dos pronunciamentos, afirmando, na sexta-feira, que é preciso ajudar a pôr um fim às execuções das dívidas hipotecárias, que se espalham, atingindo mais e mais pessoas. Ele criticou a "falta de responsabilidade e prudência e, em alguns casos, a existência de abusos e insistiu que é preciso evitar que as execuções aumentem, pois podem ser resolvidas de de outra forma. E, pela primeira vez, levantou a idéia de que é necessário encontrar novas moradias para os que estão perdendo imóveis. Bernanke falou mesmo na idéia de um plano para dispor de imóveis de aluguel para os perdedores. O tom do seu pronunciamento foi esse: é preciso impedir que a crise das hipotecas atinja os consumidores e as comunidades. E será essa a meta agora, ao mesmo tempo em que se reforça a liquidez e se ataca o problema na raiz, a do primeiro detentor da hipoteca que se transformou num ativo financeiro, percorrendo todo o sistema, de baixo a alto, até se esfarelar.No fim da tarde de sexta-feira o mercado parecia ter absorvido o choque, terminou a semana ferido, mas sem sangue, esperando por novos golpes. JURO MENOR, MAS...Na terça-feira, o Fed reúne-se para avaliar a situação e certamente reduzir a taxa básica de juros. Ma parece que, nessa nova situação, a medida não deverá ter o efeito que antes se esperava; o consumidor está assustado e não deve ser atraído por melhor condição de crédito.*Email - at@attglobal.net

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