Patrícia Santos/Estadão
Patrícia Santos/Estadão

Crise política agora também prejudica o combate à inflação

Comitê de Política Monetária se reúne esta semana para decidir o que fazer com a taxa de juros em meio a um cenário de economia em forte recessão, dólar em alta, agravando o quadro inflacionário, e crise política, que impede o avanço do ajuste fiscal

Alexa Salomão, Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2015 | 03h06

O Banco Central (BC) está numa encruzilhada. Insiste que vai cortar a inflação praticamente pela metade entre este ano e o final do próximo. Hoje, ela beira os 10% ao ano. Mas o BC afirma que termina 2016 em 4,5%, o centro da mete que ele mesmo se propôs a cumprir. Ocorre que não há um economista que considere a previsão viável. Nem analistas de mercado, nem economistas que um dia estiveram dentro da própria instituição dizem que isso seja possível.

Nesta semana, o Copom (Comitê de Política Monetária do BC), se reúne para decidir justamente como vai perseguir essa meta. Precisa avaliar se eleva a Selic, a taxa básica de juros, hoje em 14,25%. O cenário é delicado. De um lado, a recessão, acompanhada de desemprego e queda da renda, se agrava. As pessoas compram menos e isso naturalmente vai reduzir a inflação. Mas, de outro, o dólar subiu demais e permanece instável, o que pressiona os preços.

O Estado ouviu três ex-presidentes e quatro ex-diretores do Banco Central. Também consultou projeções atualizadas de mais de 20 instituições financeiras. Numa atípica unanimidade, todos veem que a melhor estratégia para o BC é esperar.

"O BC não tem uma vida fácil", diz o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central e sócio da A.C.Pastore & Associados. "A taxa de juros que está aí impede que a inflação faça uma escalada sem limites: tanto que estamos vendo uma inflação perto de 10%, mas é provável que vá a 6% no ano que vem", diz. "Mas não vai a 4,5%, como diz o BC. Esse discurso é inconsistente." O próprio BC já teria se dado conta e, internamente, estaria estudando como mudar o discurso e o prazo para cumprir a meta.

Na avaliação de Pastore e dos demais economistas, o BC não tem muito a fazer neste momento porque sofre os efeitos de uma espécie de círculo vicioso, alimentado muito mais pela política do que pela economia.

Fiscal. Para deter a inflação, o principal trunfo do banco é elevar os juros. Mas a alta estaria no limite. Ele precisa agora da ajuda do ajuste fiscal - que o governo gaste menos, reduza o volume de dinheiro que injeta na economia. Porém, o ajuste depende da aprovação de uma série de medidas no Congresso. Como governo e Congresso não se entendem, o ajuste empacou.

Para agravar, a crise política gerou uma incerteza tão grande sobre os rumos do Brasil que afetou o apetite dos investidores. Muitos tiram dinheiro do País, o que eleva o dólar. O dólar mais alto alimenta a inflação - e volta-se à origem do problema: o BC precisa do ajuste, que empacou na crise política, que leva à incerteza, que mexe com o câmbio, que eleva a inflação. "Com a dificuldade de implementar um ajuste fiscal profundo, o processo de ancorar as expectativas vai ser muito mais demorado", diz Carlos Langoni, ex-presidente do BC e diretor do Centro de Economia Mundial da FGV.

O mais complicado neste processo é que o BC precisa ser cauteloso sem parecer leniente com a inflação, o que agravaria a situação da economia. "As inflações começam pequenas e depois vão aumentando", diz Gustavo Loyola, também ex-presidente da instituição e sócio da Tendências Consultoria. "Se eu estivesse no BC seria bastante conservador. Não estou defendendo que o BC saia por aí como um míssil sem direção, elevando os juros. Mas ele não deve se comportar como se a briga com a inflação estivesse perdida. O Banco Central precisa ser o último a jogar a toalha."

O QUE DIZEM EX-PRESIDENTES DO BC

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Affonso Pastore: 'É preciso olhar a meta de inflação, sim, mas também os custos de se chegar até a meta. Se você subir a taxa de juros para alcançar a meta que o BC está mirando agora, o custo será uma recessão ainda mais profunda que a atual. O correto é o BC dizer: olha, vamos, sim, voltar para a meta, mas em um horizonte muito mais longo. E o horizonte é igual ao tempo em que prevalecer a política fiscal (gastos públicos) expansionista.'
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Carlos Langoni: 'Em qualquer processo de ajuste bem-sucedido existe uma coordenação maior entre política monetária e fiscal. O Banco Central avançou bastante no aperto monetário, mas ele contava com o impacto positivo do ajuste fiscal neste segundo semestre. Isso não ocorreu. E o resultado é que os dados do Focus mostram a expectativa da inflação em alta: em 2015 caminhando para dois dígitos e no ano que vem superando a barreira dos 6%.'
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Gustavo Loyola: 'A maior colaboração que o BC deve dar neste momento é fazer o trabalho para o qual foi criado: preservar a estabilidade da moeda. O BC é uma âncora. Eu tenho esta visão, até como ex-funcionário do banco. Fiz parte da minha carreira lá dentro. O BC tem uma função institucional e não pode abrir mão dela. O que de pior poderia acontecer neste momento para o Brasil seria adicionar, à crise, o descontrole inflacionário.'
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