Andre Dusek/Estadão
Andre Dusek/Estadão

BC mantém juro em 14,25% ao ano, mas não fala mais em data para atingir meta de inflação

Em um cenário de recessão, autoridade monetária decidiu, por unanimidade, manter inalterada a taxa Selic; trecho que falava da convergência da taxa de inflação para o centro da meta foi retirado do comunicado da reunião do Copom

Célia Froufe, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2015 | 20h27

No dia em que se soube que a inflação acumulada em 12 meses superou a marca de 10% em algumas regiões do País, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a taxa básica Selic estável em 14,25% ao ano. Também sinalizou, no comunicado, que o IPCA não irá convergir para a meta, que tem como teto 6,5%, nem em 2016.  Esta é a segunda vez consecutiva que o colegiado, por unanimidade, decide congelar os juros. 

Apesar da persistência da inflação em patamares elevados, a decisão já era esperada por economistas. A situação do BC é delicada. De um lado, a recessão, acompanhada de desemprego e queda da renda, se agrava. As pessoas compram menos e isso naturalmente vai reduzir a inflação. Mas, de outro, o dólar subiu demais e permanece instável, o que pressiona os preços.

Nesta quarta-feira, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação oficial, subiu 0,66% em outubro, o maior resultado para o mês desde 2002. Com o resultado, o índice acumula alta de 8,49% nos dez primeiros meses do ano e de 9,77% em 12 meses até outubro - o nível mais elevado desde dezembro de 2003 (9,86%). 

A missão de, ainda em 2015, trazer a inflação para o centro da meta do governo, de 4,5%, já foi abandonada pelo BC há tempos. Quando os preços começaram a acelerar, o mercado comentava que o Banco Central ia tentar diminuir o IPCA somente em 2016, algo que muitos também já não acreditam. Para a diretoria do BC, o foco na meta não está mais em 2016, como pregava até então.

Em setembro, o recado dado no comunicado foi o de que a manutenção desse patamar por período "suficientemente prolongado" é necessária para a "convergência da inflação para a meta no final de 2016". Agora, o comunicado do Copom traz que a manutenção por tempo prolongado é necessária para a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante da política monetária. Esse período, como é sabido, é de dois anos a frente da data atual. Ou seja, o BC agora já discute IPCA em 4,5% em 2017.

Entre as duas reuniões do Copom, o cenário econômico e político se deteriorou ainda mais e a questão fiscal continua como a grande algoz da ineficácia da política monetária. Um dos pontos que mais mostraram abalo foi o das expectativas para a inflação, que estão cada vez mais distantes do centro da meta de 4,5% não apenas para o ano que vem como também para os seguintes - as deste ano já encostam em 10%.

A última Pesquisa Focus apontava para uma inflação de 6,12% no ano que vem. A elite dos cinco economistas que mais conseguem antecipar o resultado da inflação (Top 5) já prevê estouro da meta também no ano que vem. A tarefa do BC é não deixar que o IPCA ultrapasse a marca de 6,5%, mas esse grupo já calcula o índice em 6,72% em 2016. Isso é mais do que um "desvio significativo" que a diretoria escreveu nas últimas atas como praticamente uma senha de que poderá elevar a Selic. O BC nunca explicitou, no entanto, quanto um desvio tem de subir para tornar-se significativo.

Crise política. A crise política é mais um fator de preocupação para o BC. Para deter a inflação, o principal trunfo do banco é elevar os juros. Mas a alta estaria no limite. Ele precisa agora da ajuda do ajuste fiscal - que o governo gaste menos, reduza o volume de dinheiro que injeta na economia. Porém, o ajuste depende da aprovação de uma série de medidas no Congresso. Como governo e Congresso não se entendem, o ajuste empacou.

O BC tem indicado que não deve jogar a toalha. Na ata da última reunião do Copom, a autoridade monetária sinalizou que o período de alta dos juros pode ser mais intenso e longo do que o previsto. Para a maioria dos economistas consultados pela Agência Estado, a Selic deve continuar nesse patamar até o final do ano e só deve começar a cair em 2016.

Investimentos. A Selic em patamar elevado faz a poupança perder ainda mais atratividade como investimento. Isso porque a rentabilidade da caderneta deixa de acompanhar os juros quando a Selic ultrapassa 8,5%. Acima dessa taxa, a poupança rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial, que é próxima de zero. Além disso, a remuneração da poupança tem perdido para a taxa de inflação neste ano, o que reduz o poder de compra do investidor.

As aplicações em renda fixa, que acompanham a Selic, como em títulos do Tesouro Direto, podem ser uma boa opção de baixo risco. Mas é preciso estar atento a taxas cobradas por fundos de investimento e à tributação de cada modalidade antes de tomar uma decisão. De acordo com a Anefac, os fundos de renda fixa deixam de ser vantajosos quando a taxa de administração é superior a 2,5% ao ano.

Veja o comunicado do Banco Central:

"Avaliando o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de riscos, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 14,25% a.a., sem viés.

O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante da política monetária. O Copom ressalta que a política monetária se manterá vigilante para a consecução desse objetivo.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Alexandre Antonio Tombini (Presidente), Aldo Luiz Mendes, Altamir Lopes, Anthero de Moraes Meirelles, Luiz Edson Feltrim, Otávio Ribeiro Damaso, Sidnei Corrêa Marques e Tony Volpon."

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