Marcello Casal Jr/Agência Brasil - 14/5/2020
Marcello Casal Jr/Agência Brasil - 14/5/2020

BC mantém Selic em 2% ao ano, mas economistas veem alta de juros em 2021

Esta é a terceira vez que a taxa básica não sofre alteração, após nove cortes consecutivos; com a decisão, juro real do País está em -1,69% ao ano, mostram cálculos da MoneYou e Infinity Asset

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 18h37
Atualizado 09 de dezembro de 2020 | 19h27

BRASÍLIA - Apesar da alta recente da inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a Selic (a taxa básica da economia) em 2% ao ano. Esta é a terceira vez que a Selic não sofre alteração, após nove cortes consecutivos. Com isso, a taxa se manteve no piso da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996.

Com a Selic a 2% ao ano, o Brasil segue com juro real (descontada a inflação) negativo. Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está em -1,69% ao ano. O País possui o 28º juro real mais alto do mundo, considerando as 40 economias mais relevantes.

A decisão desta quarta-feira, 9, era largamente aguardada pelo mercado financeiro. De um total de 47 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas esperavam pela manutenção da Selic em 2% ao ano. Para o fim de 2021, as casas esperam desde uma Selic estável em 2% até um aumento dos juros a 4,75% ao ano.

As dúvidas sobre a possibilidade de o BC manter a Selic em 2% ao ano por muito tempo se ampliaram nas últimas semanas. Isso porque os dados recentes mostraram uma inflação acelerada. O IPCA – índice oficial de inflação – fechou novembro com alta de 0,89%, após ter avançado 0,86% em outubro. Gastos com alimentação e preços administrados (como energia elétrica) têm pressionado o índice. Assim, com uma inflação mais alta, o BC seria obrigado a subir os juros.

Com expectativas de inflação mais elevadas, o mercado financeiro vem projetando o reinício da alta de juros para meses mais próximos. Conforme o Relatório de Mercado Focus, que compila as projeções das instituições financeiras, a expectativa é de que a Selic suba para 2,25% ao ano em agosto do próximo ano. No entanto, pelo menos uma instituição, conforme o Focus, espera por uma elevação já em janeiro. Estes cálculos, porém, foram feitos antes da decisão desta quarta do Copom.

O centro da meta de inflação perseguida pelo BC em 2020 é de 4%, sendo que a margem de tolerância é de 1,5 ponto porcentual (índice de 2,50% a 5,50%). No caso de 2021, a meta é de 3,75%, com margem de 1,5 ponto (de 2,25% a 5,25%). A meta de 2022 é de 3,50%, com margem de 1,5 ponto (de 2% a 5%).

Inflação elevada em dezembro

O BC admitiu que as últimas as últimas leituras de inflação ficaram acima do esperado e projetou que a alta dos preços em dezembro ainda deve continuar elevada, apesar do arrefecimento previsto para os alimentos.  

“Apesar da pressão inflacionária mais forte no curto prazo, o Comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários, mas segue monitorando sua evolução com atenção, em particular as medidas de inflação subjacente”, afirmou o BC no comunicado. 

O Copom repetiu que seu balanço de riscos conta com fatores em ambas as direções. De um lado, o nível de ociosidade, sobretudo no setor de serviços,  pode levar a uma inflação menor que a esperada – especialmente se houver uma reversão mais lenta dos efeitos da pandemia de covid-19 sobre a economia.

Por outro lado, destacou o colegiado, um prolongamento das medidas de combate à pandemia que piore a trajetória fiscal do País, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco cobrados por investidores para financiar o governo. “O risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”, repetiu o comunicado. Mais uma vez, o BC alertou que perseverar nas reformas fiscais é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia. 

'Resultados promissores' de vacinas

O Copom avaliou que os “resultados promissores” nos testes das vacinas contra a covid-19 tendem a trazer melhora da confiança e normalização da atividade global no médio prazo. Ainda assim, o colegiado avaliou que a ressurgência da pandemia em algumas das principais economias tem revertido os ganhos na mobilidade e deverá afetar a atividade econômica no curto prazo. Para o BC, essa ociosidade e as mensagens de outros bancos centrais sugerem que os estímulos monetários terão longa duração, permitindo um ambiente favorável para economias emergentes.

Já em relação à atividade doméstica, o Copom ressaltou que os indicadores recentes apontam a continuidade da recuperação desigual entre setores, como já era esperado pelo BC. “Contudo, prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o período a partir do final deste ano, concomitantemente ao esperado arrefecimento dos efeitos dos auxílios emergenciais”, admitiu o colegiado.

Comunicado

Após manter a Selic em 2% ao ano, o comunicado divulgado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central preparou o terreno para a retirada do “forward guidance” – prescrição futura, no jargão em inglês – nas próximas reuniões. 

Em agosto, o colegiado passou a adotar esse tipo de comunicação, que indica a manutenção dos juros, se respeitadas três condições: projeções de inflação abaixo da meta no horizonte relevante, manutenção do regime fiscal e expectativas de longo prazo ancoradas.

Na decisão de hoje, o Copom destacou que essas condições seguem satisfeitas, mas admitiu que em breve não mais assim estarão, conforme o ano de 2021 perca peso para o horizonte relevante da política monetária (ou seja, a calibragem da Selic para o controle da inflação) nos próximos meses. Isso porque as projeções para 2022 estão se aproximando da meta de inflação para aquele ano, o que pode derrubar um dos critérios da prescrição nos próximos meses.

“Desde a adoção do forward guidance, observou-se uma reversão da tendência de queda das expectativas de inflação em relação às metas para o horizonte relevante”, apontou o comunicado. “A manutenção desse cenário de convergência da inflação sugere que, em breve, as condições para a manutenção do forward guidance podem não mais ser satisfeitas”, adiantou o Copom.

Ainda assim, o colegiado esclareceu que a eventual retirada do forward guidance não significará automaticamente uma elevação da taxa de juros, já que a conjuntura econômica continua a prescrever estímulo “extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade”.

“No cenário de retirada do forward guidance, a condução da política monetária seguirá o receituário do regime de metas para a inflação, baseado na análise da inflação prospectiva e de seu balanço de riscos”, lembrou o Copom.

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