Antônio Cruz/agência Brasil
Decisão do Copom de manter a Selic em 2% ao ano já era aguardada pelo mercado financeiro. Antônio Cruz/agência Brasil

BC mantém Selic em 2% ao ano, mas economistas veem alta de juros em 2021

Está é a quarta vez que a taxa básica de juros da economia fica inalterada pelo Copom; projeção de analistas é que Selic termine 2021 em 3,50% ao ano

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 18h35
Atualizado 21 de janeiro de 2021 | 07h37

BRASÍLIA - Mesmo com a alta recente da inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a Selic (a taxa básica da economia) em 2% ao ano. Esta é a quarta vez que a Selic não sofre alteração, após nove cortes consecutivos. Com isso, a taxa se manteve no piso da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996.

O colegiado, no entanto, retirou o “forward guidance” – prescrição futura, no jargão inglês – adotado desde agosto que estabelecia condições sob as quais o Copom se comprometia a não elevar os juros.

A decisão desta noite era largamente aguardada pelo mercado financeiro. De um total de 58 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas esperavam pela manutenção da Selic em 2% ao ano. Para o fim de 2021, as casas esperam desde uma Selic estável em 2% até um aumento dos juros a 4,75% ao ano. A projeção mais comum é que a taxa acabe 2021 em 3,50%.  

Ao justificar a decisão de hoje, o BC avaliou que manutenção da Selic em 2% ao ano é compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante, que inclui o ano-calendário de 2021 e, principalmente, o de 2022.

Sobre a retirada do "forward guidance", o BC informou que as condições deixaram de ser satisfeitas já que as expectativas de inflação estão próximas da meta. Desde agosto do ano passado, o Copom passou a usar o instrumento se comprometendo a não elevar os juros de acordo com três condições: projeções de inflação abaixo da meta no horizonte relevante, manutenção do regime fiscal  e expectativas de longo prazo ancoradas. Na reunião de dezembro, o Copom já havia sinalizado que o "forward guidance" seria abandonado “em breve”.

Segundo o BC, isso não significa, no entanto, que haverá uma elevação da taxa de juros, “pois a conjuntura econômica continua a prescrever, neste momento, estímulo extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade”.

As dúvidas sobre a possibilidade de o BC manter a Selic em 2% ao ano por muito tempo se ampliaram recentemente. Isso porque dados mostraram uma inflação acelerada. O IPCA – índice oficial de inflação – fechou dezembro com alta de 1,35%. Gastos com alimentação e preços administrados (como energia elétrica) têm pressionado o índice. No acumulado de 2020, houve alta de 4,52%. Neste cenário, com uma inflação mais alta, o BC seria obrigado a subir os juros.    

    

Com expectativas de inflação mais elevadas, o mercado financeiro vem projetando o reinício da alta de juros para meses mais próximos. Conforme o Relatório de Mercado Focus, que compila as projeções das instituições financeiras, a expectativa mediana é de que a Selic suba em agosto deste ano. Estes cálculos, porém, foram feitos antes da decisão de hoje do Copom.

O centro da meta de inflação perseguida pelo BC em 2021 é de 3,75%, com margem de 1,5 ponto (de 2,25% a 5,25%). A meta de 2022 é de 3,50%, com margem de 1,5 ponto (de 2% a 5%).

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'Juro baixo tem efeito limitado por segunda onda de covid no País', diz economista

Para Armando Castelar, texto do Banco Central que decidiu pela manutenção da Selic em 2% ao ano aponta que inflação ainda preocupa

Entrevista com

Armando Castelar, economista do Ibre/FGV

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 05h00

Com o efeitos de uma nova onda de covid-19 no Brasil, os juros baixos têm efeito limitado na recuperação da economia, avalia Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). Ele estima que a Selic, os juros básicos, feche 2021 em 3,5%. A seguir, trechos da entrevista.

Como avaliar a postura do Copom de manter os juros em 2%? 

Veio no sentido de sinalizar uma postura mais apertada. O ‘forward guidance’ (prescrição futura) foi descontinuado, a expectativa era que isso não ocorresse ontem e foi uma surpresa. Embora o comunicado do BC aponte que não vai subir juros na próxima reunião, é um primeiro sinal. E a questão da inflação é mais preocupante do que na reunião anterior.

Retirar o ‘forward guidance’, então, foi a decisão correta?

É uma medida acertada. Estava menos confortável do que o consenso parece indicar. A proporção de itens que têm subido de preço aumentou. Que o BC vai subir juros este ano, em algum momento, já se sabia. Mas foi um sinal importante. 

A inflação fechou 2020 com um avanço de 4,52%, o maior resultado em quatro anos e acima do centro da meta do BC, de 4%. A inflação ainda preocupa?

Os fatores que têm feito a inflação subir se dão pelo choque muito forte de preços. Caso o BC não tivesse baixado os juros tanto, o câmbio poderia não ter sido tão afetado, mas a subida dos preços dos alimentos surpreendeu, e a atividade econômica se recuperou mais rápido do que se imaginava ano passado, principalmente na indústria e no comércio. A inflação, em si, espantou, mas o que preocupa é a subida de preços ter se disseminado.

O BC exagerou na dose ao ter levado os juros a 2% ao ano?

Ao chegar a uma taxa real de juros muito negativa, começou-se a criar pressão para fundos de renda fixa. Isso foi administrado, mas era uma preocupação grande. À época, me pareceu que o corte de juros precisaria ser revertido rapidamente. Acredito que a atitude mais acertada tivesse sido baixar os juros para até 3% ao ano e observar o efeito. Agora, será preciso subir juros mais cedo do que se não tivessem cortado tanto. Até o fim do ano, imagino que a Selic esteja em 3,5%.

Os juros baixos ainda têm efeito na melhora da atividade econômica neste momento?

Os juros baixos ajudaram muito no lado fiscal, mas têm pouco efeito prático na recuperação da economia agora. Com a queda dos juros, eu esperava um impacto mais forte na construção civil, por exemplo. O problema é que os juros curtos da Selic estão negativos, mas os juros longos, não. Isso acontece pela preocupação com o lado fiscal e diminui o impacto dos juros sobre a economia. O que está segurando a atividade é a pandemia: as escolas não funcionam, o transporte público não opera por completo. O resumo é que os juros até ajudam, mas o impacto global é limitado pela questão sanitária. A economia vai estar pior este ano do que precisava estar. Poderia começar a melhorar no segundo trimestre, mas acho que a melhora só virá no segundo semestre.

A melhor medida econômica, portanto, é controlar a pandemia.

Sim. Estamos vivendo uma segunda onda, a diferença é que os governos têm resistido a fechar comércio e negócios, ao contrário do segundo trimestre do ano passado. Mas uma série de atividades continuam sentindo o efeito da covid-19. Nesse sentido, 2020 ainda não acabou. Mas quando os mais vulneráveis forem vacinados, a economia deve ter um alento.

O que muda com o início do governo Biden, nos EUA, e as medidas que os democratas vão tomar para combater a pandemia?

O BC cita que um pacote fiscal expressivo esperado nos Estados Unidos (com o controle dos Democratas nas duas Casas) entrou no radar. A nova secretária do Tesouro, Janet Yellen, é grande defensora do estímulo para reativar a economia americana. Ela disse que eles vão ‘agir grande’. Não é pensar grande, mas agir grande.

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