Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

BC mostra descontentamento com leitura do mercado sobre ata do Copom

Relatório de inflação divulgado ontem se valeu de linguagem direta para indicar alta dos juros já em janeiro 

Fabio Graner e Fernando Nakagawa, da Agência Estado,

23 de dezembro de 2010 | 09h06

Ao usar o raro expediente de dizer claramente o que pretende fazer, o Banco Central demonstrou ontem no relatório de inflação não ter concordado com a leitura que grande parte do mercado fez sobre a ata do Copom, divulgada uma semana antes. O texto divulgado ontem buscou enterrar questionamentos criados pela ata e, por isso, se valeu de uma linguagem direta para não deixar qualquer dúvida quanto aos próximos passos na política monetária.

Na semana passada, após a ata, muitos analistas passaram a acreditar que o esperado aumento do juro poderia acontecer apenas no fim do primeiro trimestre de 2011 ou até mais tarde. Essa leitura ganhou força com o entendimento de que a espera seria necessária para que se pudesse entender com mais clareza os efeitos das recentes medidas macroprudenciais para conter o crédito.

A leitura parece ter incomodado o BC, que demonstrou no relatório ter considerado que o custo de deixar claro seu próximo passo superaria o benefício de manter no relatório o evasivo bancocentralês, ou como preferem dizer os banqueiros centrais: "ambiguidade construtiva". Seja em Brasília, Washington ou Londres, textos das autoridades monetárias usam expressões que permitem leitura ampla, o que pode servir como um "hedge" nas mensagens da instituição. A intenção é que o texto "ambíguo" permita sempre uma margem de manobra aos BCs em caso de mudança do cenário.

Com a deterioração do quadro de inflação, no entanto, a autoridade monetária abandonou o hedge e disse que quer subir logo a Selic. Embora já tivesse dado sinais na ata - ainda que amenos - de que era necessário subir os juros em breve, o grande peso dado às medidas macroprudenciais no documento gerou a leitura de que a elevação da Selic não seria tão iminente.

O texto divulgado ontem, porém, revela que o BC tem, sim, preocupação imediata quanto à evolução dos preços. No cenário de referência, por exemplo, a previsão para o IPCA em 2011 subiu de 4,6% para 5% - em um nível razoavelmente acima do centro da meta, de 4,5%.

Há várias razões possíveis para essa "leitura equivocada" do mercado. Uma delas, mencionada até pelo diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, diz respeito à situação da economia, que tem apresentado volatilidade bastante acima do normal. Nessas situações, códigos normalmente usados pelo BC para transmitir informações ao mercado acabam tendo leituras dispersas, prejudicando o entendimento das mensagens passadas.

Outra alternativa a ser considerada é que o BC errou na escolha de algumas palavras e expressões, hipótese que dificilmente será reconhecida pela autoridade, mas que, dado o histórico desse ano, não pode ser descartada.

O documento divulgado ontem pelo BC indica que as medidas divulgadas no início de dezembro foram consideradas apenas o primeiro passo do processo de aperto monetário, e não uma estratégia de adiamento da alta dos juros para o fim do primeiro, ou início do segundo trimestre de 201. Há divergência quanto à magnitude dessas ações, mas economistas têm calculado que o aumento do compulsório, somado às restrições para os bancos emprestarem, têm efeito comparável à elevação do juro de 0,75 ponto porcentual.

Ou seja, o aperto monetário começou com um aperto monetário forte, de quase 1 ponto porcentual, e deve continuar, agora, com o instrumento tradicional de política monetária que são os juros a partir do início de 2011.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.