BC permite valorização excessiva do real, diz economista

O economista Paulo Nogueira Batista Júnior (FGV-SP) não poupou críticas à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de elevar a taxa Selic em meio ponto percentual. "Eu imagino que eles estejam buscando alcançar as metas ambiciosas de inflação que foram fixadas. E, com isso, estão sacrificando uma série de interesses", afirmou ele durante entrevista ao Jornal da Cultura. Ele disse que, ao mesmo tempo em que eleva os juros, o BC permite uma valorização excessiva do real. "Essa combinação de juros altíssimos e moeda valorizada não deu certo em lugar nenhum do mundo."Nogueira Batista avalia que, na melhor das hipóteses, a elevação das taxas de juros, que já eram uma das maiores do mundo, provocará uma desaceleração na recuperação da economia. Outro efeito perverso, segundo ele, seria o aumento da concentração de renda, com o enriquecimento dos bancos e das pessoas físicas que têm altas aplicações financeiras. "Prejudicado quem vive de empregos, salários e que tem as expectativas de melhora frustradas", reclama. "Essa situação é absurda para um País que já tem uma das piores distribuições de renda do mundo."Argumento combalidoO economista lembra que a economia vinha apresentando uma recuperação significativa este ano, principalmente na indústria, "mas o BC se assustou". Segundo Nogueira Batista, o temor do BC está relacionado ao impacto que essa recuperação teria sobre a inflação, ao nos aproximarmos do limite da capacidade de produção. "Agora, é um argumento duvidoso, porque, ao mesmo tempo em que a demanda, subindo, fecha a capacidade ociosa, a taxa de juros mais alta inibe investimentos para criar capacidade de produção", lembrou. "Essa política de juros é uma política duvidosa, até mesmo do ponto de vista do combate à inflação, num prazo mais longo." Mais realista do que o reiAinda durante a entrevista ao Jornal da Cultura, Batista disse que há muito tempo não se via o BC agir com tanta ortodoxia. Nogueira Batista acha que, em termos de conservadorismo, o BC mais se parece com aquele do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso: "Na área cambial foi igualmente teimoso e rígido fazendo o Brasil pagar um preço muito alto", comparou. Ele acredita que, com câmbio flutuante, o BC podia ter uma política mais flexível. E finalizou: "Agora que a economia estava despontando, especialmente o setor industrial, é uma pena que o BC venha a adotar medidas que tendem a colocar em risco essa recuperação."

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