O chefe do Centro de Estudos Monetários da FGV/Ibre, José Júlio Senna, considera correta a política de elevação de juros do Banco Central, diante de um cenário que considera inevitável: a depreciação cambial. "É preciso evitar a propagação dos efeitos inflacionários do câmbio", declara ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, comentando que os preços internacionais tendem a subir e os demais devem ser contidos. O economista diz, ainda, esperar reajuste apenas parcial de combustíveis.

Entrevista com

29 de agosto de 2013 | 02h14

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Está difícil para o governo conter a escalada do dólar, devido a fatores externos. Diante disso, acredita que a evolução dos juros pode sofrer alteração forte?

Como acontece com todo tipo de ativo, o preço do dólar hoje depende das expectativas acerca do preço que prevalecerá no futuro. Diante das boas perspectivas de recuperação da economia americana, imagina-se que investimentos em dólar terão bom retorno. Os juros tendem a subir. Isso eleva as cotações atuais do dólar contra várias moedas, e não apenas o real. Esta é a grande fonte de pressão sobre os mercados cambiais. Lutar contra esse movimento é inglório. E nem me parece desejável conter a alta do dólar. Nossa moeda está entre as que mais se depreciam devido à nossa vulnerabilidade. O déficit em conta corrente será de quase 4% do PIB, neste ano. Não é confortável. Para corrigir esse quadro, o real precisa perder valor.

A política de elevação de juros está correta em sua opinião?

O Banco Central está correto em dar continuidade ao aumento do juro. Admitindo-se que a depreciação cambial seja em parte inevitável e em parte desejável, é preciso evitar a propagação dos efeitos inflacionários do câmbio. Na verdade, os preços dos bens "internacionais" têm de subir. Mas os demais têm de ser contidos. Sem isso não se corrige o desequilíbrio externo. O BC precisa segurar a alta dos preços dos bens "domésticos" (serviços, por exemplo). O juro tem de subir, idealmente com respaldo da política fiscal.

É inevitável o aumento dos combustíveis este ano? O que isso pode trazer de reflexo para a inflação e os juros?

Em geral, governantes preferem postergar políticas de ajustamento. Não me iludo. Teremos um ajustamento apenas parcial. Mas os preços dos combustíveis precisam subir. De 2006 para cá, o preço real da gasolina caiu mais de 20%. O consumo subiu mais de 60%. Em grande parte por isso, as importações líquidas de petróleo e combustíveis estão em quase US$ 25 bilhões por ano. Precisamos diminuir essa conta.

O mercado está extremamente dividido em relação à Selic para o ano, com previsões que vão de 8% a 12%. Qual a sua estimativa? O comunicado dá a entender que o ciclo de alta terá continuidade. Contudo, uma grande barreira surgirá no começo de dezembro, quando será conhecido o resultado do PIB do terceiro trimestre, que deve ficar muito perto de zero. A divulgação desse número seguramente constituirá um inibidor importante para a manutenção do ciclo. Levando em conta o comunicado e o inibidor, o mais provável é que venhamos a ter duas novas altas de juros, provavelmente 0,5 ponto porcentual cada uma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.