BC pressionou por Fundo Soberano

Atribuição de comprar dólares para o Fundo Soberano, proposta pelo ministro Mantega, foi solicitada pelo presidente do Banco Central

Adriana Fernandes, Fabio Graner / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

Foi o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, quem solicitou ficar com a autoridade monetária a atribuição de comprar os dólares para o Fundo Soberano do Brasil (FSB). Meirelles justificou o pedido com o argumento de que, se o FSB atuasse sozinho, haveria uma descoordenação na política cambial.

O presidente do BC avalia que a tarefa de intervir é da instituição. Para ele, segundo apurou o Estado, o risco de descentralizar essa atuação seria um excessivo "ruído" no mercado cambial, prejudicando a estratégia do governo para enfrentar no curto prazo o fluxo maior de dólares que entra por causa da capitalização da Petrobrás, a maior operação dessa natureza no mundo.

A definição de que o BC será o agente comprador no lugar do Banco do Brasil, que já administra o Fundo Fiscal de Investimento e Estabilização (fundo de investimento onde estão os R$ 18 bilhões do FSB), cria mais dúvidas sobre como será a atuação do FSB. Indica também menor potencial de imprevisibilidade na política cambial, objetivo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao acionar o FSB.

O governo ainda tem que definir se as intervenções do FSB serão explicitadas pelo BC e se serão feitas na modelagem tradicional dos leilões de dólar realizados para as reservas internacionais. Outra dúvida que a centralização das compras deixa no ar é se o BC vai "descontar" as compras do FSB das aquisições que já tradicionalmente faz.

O Ministério da Fazenda quer que o FSB represente um volume adicional de compras ao que o BC já faz hoje. Mas nada impede que nas operações de "enxugamento" do excesso de dólares, destinado às reservas, o BC tire o pé do acelerador, considerando que o FSB é um "player" normal do mercado. A questão-chave é se o BC vai ou não ser mais agressivo, como pressiona a Fazenda.

Além do FSB, Mantega mantém a avaliação de que há também forte especulação no mercado e o BC deveria atuar no mercado futuro (swaps reversos). Essa visão é baseada no entendimento de que a taxa de câmbio no Brasil é determinada mais pelas negociações no futuro do que pelo fluxo no mercado à vista, já que neste há restrições para operação de estrangeiros, enquanto naquele a influência dos não residentes é muito maior. É, nas palavras de mais de um integrante do governo, o caso do "rabo que abana o cachorro". Ao recorrer aos swaps reversos, o BC estaria dando o sinal final e inequívoco de insatisfação do governo com o movimento da taxa de câmbio.

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