André Dusek/Estadão
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BC prevê inflação abaixo da meta em 2017 e sinaliza corte de juro

Relatório Trimestral de Inflação prevê IPCA de 7,3% neste ano, de 4,4% em 2017 e de 3,8% em 2018; para o PIB em 2017, o BC estima crescimento de 1,3%

Fernando Nakagawa, Fabrício de Castro e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2016 | 09h40
Atualizado 27 Setembro 2016 | 13h07

BRASÍLIA - O Banco Central espera que a inflação termine abaixo do centro da meta no próximo ano. Segundo o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) divulgado nesta terça-feira, 27, o cenário de referência prevê IPCA de 4,4% em 2017. A mais recente ata do Comitê de Política Monetária divulgada no início de setembro citava previsão de alta de 4,5% - exatamente no centro da meta. Para 2016, a projeção do BC cita IPCA em 7,3%, igual ao previsto na mais recente ata do Copom e, para 2018, 3,8%.

O relatório reforçou no mercado as apostas de corte de juros já na próxima reunião do Copom, em outubro, esquentando o debate sobre o tamanho da redução da taxa, de 0,25 ou 0,50 ponto porcentual. Atualmente, a taxa básica de juros da economia, a Selic, está em 14,25% ao ano.

O BC ressalta, no entanto, que as previsões ainda dependem de uma importante variável: a evolução da política fiscal. Ao contrário da edição anterior divulgada em junho, o BC não publicou projeção oficial da casa para o resultado primário e o documento cita, apenas genericamente, que a proposta do Orçamento de 2017 prevê redução do déficit e indicação de recuperação gradual nos anos seguintes. 

"As projeções aqui apresentadas dependem ainda de considerações sobre a evolução da política fiscal", cita o Relatório de Inflação divulgado nesta manhã. Em junho, o documento anterior previa déficit primário de 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2016 e resultado primário negativo de 0,9% no próximo ano. 

O documento lembra apenas que "para 2017, a proposta de legislação orçamentária aponta redução do déficit primário previsto para o período". Além dessa proposta, o texto menciona ainda que há indicação "para os anos seguintes, de recuperação gradual do equilíbrio nas contas públicas". Apesar desse parâmetro, não há qualquer número previsto.  

Sobre o tema fiscal, o relatório menciona que "os principais efeitos desta política estão associados ao processo de ajuste da economia, que envolve encaminhamento de importantes reformas propostas pelo Governo para apreciação pelo Congresso Nacional". 

Meta. O BC reconhece que há processo de desinflação em curso no Brasil, mas observa que o movimento não tem sido linear e a velocidade desse movimento ainda parece incerta. "A evolução dos preços evidencia processo de desinflação em curso", cita o relatório. 

"Os índices de preços, embora desacelerassem no trimestre encerrado em agosto, registraram inflação acima das expectativas para o período, refletindo arrefecimento de preços em intensidade inferior ao padrão sazonal. A despeito desse comportamento recente, as perspectivas são de continuidade do processo de desinflação nos próximos trimestres", menciona o documento, ao lembrar que as previsões do mercado coletadas pela pesquisa Focus também mostram essa desaceleração dos preços. 

A chance de descumprimento da meta de inflação em 2016 cresceu e já supera os 90%. Por outro lado, o BC calcula que a probabilidade de descumprimento da meta em 2017 caiu para apenas 12% no cenário de referência.

No cenário de referência - que leva em conta a manutenção do câmbio e juros, a chance de estouro do teto da meta em 2016 subiu de 69% para 91%. Já no caso de 2017, a possibilidade de estouro da meta de inflação pelo BC caiu de 18% para 12%. O documento trouxe, ainda, a menção à probabilidade de 6% de estouro do teto da meta em 2018.

No cenário de mercado - que leva em conta as previsões de mercado para câmbio e juros, a chance de estouro do teto da meta em 2016 aumentou de 72% para 92%, enquanto a de 2017 foi reduzida de 35% para 21%. O documento trouxe pela primeira vez a probabilidade de estouro da meta em 2018, em torno de 16%

Estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação até 2018 é de 4,5%. Para 2016, há uma banda de tolerância de 2 pontos porcentuais, enquanto para 2017 e 2018 a margem é de 1,5 ponto porcentual.

No ano passado, ao entregar o IPCA em 10,67%, o BC não cumpriu sua meta e o então presidente da instituição, Alexandre Tombini, teve de escrever uma carta aberta ao então ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.

Retomada. Sobre o Produto Interno Bruto (PIB) em 2017, o BC previu crescimento de 1,3%. A estimava é menos otimista do que a do Ministério da Fazenda, que considerou na proposta de Orçamento de 2016 uma previsão de alta de 1,6% no ano que vem. Para 2016, o BC manteve a estimativa de recuo de 3,3% da economia brasileira.

Para o BC, a retomada será puxada pelo setor agropecuário, que sairá de uma queda de 2,2% em 2016 para uma expansão de 3,5%. A indústria, setor que mais sofreu com o período longo de recessão econômica, apresentará um alta de 1,5% no ano que vem. Em 2016, o setor industrial deve apresentar uma queda de 3,3%, de acordo com as novas projeções do BC.

O setor de serviços também terá uma recuperação. Pelas novas projeções, o setor de serviços terá crescimento de 0,9%, depois de uma queda prevista de 2,7% em 2016.

O crescimento do PIB em 2017 também será puxado pelo recuperação dos investimentos. A chamada Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) terá uma alta de 4%. A estimativa para esse ano é de queda de 8,7% dos investimentos. A projeção anterior para 2016 era um recuo de 11,6%. 

O BC previu ainda uma alta de 0,8% do consumo das famílias e de 0,5% do consumo do governo 0,5%. Para o BC, essas projeções são consistentes com o cenário de recuperação dos indicadores de confiança e de consolidação do ajuste fiscal em curso. As exportações devem crescer 4,5% em 2017 e as importações de bens e serviços terão alta de 6,0%. 

Essas aumentos, diz o BC, estão associados, na esfera das exportações, às perspectivas mais favoráveis para a indústria e para a agropecuária, e relativamente às importações, às projeções de aumentos para o consumo das famílias e para a formação bruta de capital fixo. 

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